O Guardador de Histórias

Eu até queria saber contá-las, mas não sei

E aí, cês tão bão?

Eu particularmente não.

Entrei em outra daquelas fases em que tudo da errado, tudo quebra, tudo explode, tudo sai voando e caindo e.

Até aquele teclado ruim que comprei duas newsletters atrás \”e que já deveria ter trocado mas ainda não rolou\” já tá quebrando. Durou até demais pra um teclado de 50 reais, mas, como todo bom teclado de 50 reais, não o suficiente. Na verdade duvido que hajam bons teclados de 50 reais. É o tipo de milagre lógico que não existe.

E pra somar com isso tem o fim de ano, que, bom, é mais do que um estado de espírito, é uma estação do ano. É o momento oficial de render-se a procrastinação e ao deixar pra depois. Mesmo com o que é imediato e urgente.

De todo modo, tentei não me deixar levar pelo sentimento de fim de ano e vim aqui escrever outra newsletter. Até duas quem sabe. Mas vamos com calma.

Então, se você quer ler um texto cheio de loucuras, doideiras, reflexões imbecis e outra coisas mais, pegue a sua água ou seu suquinho \”tá calor demais pra pipoca\” e vamos lá.

Meu Nome nunca Foi Jone.


Ter uma memória boa me salva de muitos problemas.

Mas também as vezes me faz passar duas horas \”que não tenho\” de uma tarde \”não livre\” pesquisando por um antigo colega de estudo, mais precisamente do primeiro terço do ensino fundamental.

Vamos a um breve contexto:


O nome dele era Jone. Chegou na escola 2 dias depois de mim, ou só não foi nos 2 primeiros dias de aula, não lembro bem. Era um menino divertido, inteligente, até relativamente parecido comigo \”gordinho e branco\” (Menos gordinho e mais branco). E como eu era muito competitivo. E como duas crianças carentes de atenção, competíamos em quase tudo, apesar de nos darmos bem.

  • Sempre disputávamos quem respondia mais perguntas da professora, e eu quase sempre ganhava.

  • Disputávamos quem mandava melhor na competição de tabuadas e eu também quase sempre ganhava.

  • Disputávamos quem sabia desenhar melhor e eu sempre perdia. Na verdade eu nunca soube desenhar uma única linha reta sequer.

  • Disputávamos até mesmo quem bebia mais água e eu também ganhava. Ficava lá, quase um minuto bebendo água daquela torneira metálica. Talvez haja água em mim daquela época até hoje.

Não importava o que fosse, se houvesse uma forma de mensurar resultados nós disputaríamos. Exceto competições físicas, Jone nunca foi muito dado a isso.

E altura também, Jone era inegavelmente mais baixo que eu, e ambos éramos mais baixos que o Rafael, um menino legal e rico que tinha uma beyblade original em 2001.

E assim seguimos nossa disputa contínua em nosso início acadêmico.

Em algum momento da segunda série, afim de motivar os alunos, a professora criou uma competição de meninos X meninas, que basicamente consistia em um jogo de perguntas e respostas abrangendo tudo o que aprendíamos e às vezes até mais. Sempre nas sextas-feiras, sempre nas últimas duas aulas.

Tamanha era nossa competitividade que a professora precisou me colocar no time das Meninas, pois na tentativa de superar uns aos outros, respondíamos as perguntas antes que qualquer outro dos 24 alunos pudesse sequer pensar em responder. Era chato, eu sei, mas eu não queria que ele ganhasse. E nem ele queria que eu ganhasse. E quando a professora nos dizia que nossas respostas não valiam pontos, respondíamos só pra esfregar um na cara do outro.

As meninas nunca me aceitaram bem no meu período letivo. Isso porque eu era cego e, bom, era presença confirmada no caderninho dos mais feios, ou por vezes, até discutido como prenda e pegadinha entre elas. E sim, isso deixou marcas profundas na minha mente.

Então, acho que a professora viu aquilo como uma chance de elas entenderem que eu também era gente, embora elas até já entendessem isso, já que eu sempre tinha que fazer provas em dupla e, na hora de escolher duplas, as pessoas quase saiam no tapa pra me ajudar \”E casualmente tirar boas notas\”, tamanha a solidariedade daqueles nada falsos infantes.

Desculpem pelo enorme off topic.

Fato é que durante 29 semanas levei o time das garotas ao topo, sendo oficialmente sagrado o campeão do jogo da PROF e findando enfim o debate. Eu era afinal superior, liquidara meu inimigo mirim.

Entretanto, nunca me senti verdadeiramente vitorioso.

Primeiro porque Jone era o dono do coração de Luana, uma jovem de 9 anos e cabelos pretos que talvez só por nossa competitividade também me apetecia. Não sei exatamente ao que, mas eu realmente queria que ela me preferisse em qualquer coisa que fosse valida pra duas crianças de 9 anos.

E depois por que eu ainda sentia inveja extrema de Jone. E nenhuma daquelas vitórias aplacou isso.

Ele tinha tudo que eu jamais tive. Uma família preocupada e presente, morava bem pertinho da escola \”Eu morava a 9 estações de trem e 1 ônibus\”, era de família rica, usava uma camiseta de manga laranja por baixo do uniforme que era bem estilosa \”E que deixava ele com braços laranjas que eu achava engraçados\”, era um menino calmo \”exceto quando competíamos\” e usava perfumes cheirosos \”Eu só consegui ter um perfume 5 anos depois, que eu mesmo comprei\”.

Em algum lugar da minha cabeça eu sabia que Jone daria certo como nunca me seria possível, então eu externava isso de todas as formas possíveis que uma criança saberia o fazer. Ainda que fôssemos amigos e nos déssemos bem quando não estávamos competindo, ainda que eu o admirasse muito.

No terceiro ano Jone saiu da escola. Só assim, saiu, sumiu. Nunca soube o motivo, nem tinha como saber. Eu era o amigo mais próximo dele na sala, o que nesse caso não dizia muita coisa já que eu morava longe. E as poucas pessoas que moravam perto dele não sabiam de nada também. Ele apenas saiu da escola, se foi. O que foi estranho durante muito tempo, mas, como todo problema percebido por uma criança, foi se apagando aos poucos.

E é daí que voltamos aos dias atuais.


Por algum motivo lembrei hoje do Jone. E por conta da minha problemática memória, sei até hoje o nome dele completo. É um nome simples, com sobrenomes comuns, até poderia dar trabalho pesquisar algo, mas, é tudo muito específico, foi bem fácil.

Primeiro consegui remontar a vida estudantil dele, foi fácil. E quando vi no certificado o nome da escola em que estudamos juntos, tive certeza de ser a mesma pessoa.

Daí achei alguns pdfs desprotegidos \”Incrível como tem PDF desprotegido indexado no Google\” que me deram mais pistas.

Ele prestou concurso pra uma vaga pública em 2012 e não passou, depois entrou numa famosa faculdade de São Paulo e, bom, acabaram aí os documentos pessoais.

Então fui pesquisar em redes sociais, mas, estranhamente não achei nada que fizesse muito sentido. O que tudo bem também, era bem a cara dele ser low profile.

Mas, no meio dessa busca, achei citações antigas a um perfil removido no Instagram. Parecia então que ele já teve um perfil lá no Facebook, então fui pesquisar melhor.

E, bom, acho que todo mundo aqui já sabe pra onde essa história vai.

Jone morreu em 2015, alguns meses antes de terminar sua graduação. Aparentemente foi latrocínio. Deixou uma namorada, família e 3 amigos que lembraram dele até 2023, pelo menos é o que tá lá no perfil dele, que nunca foi transformado em memorial por algum motivo.

Nos anos em que estivemos longe ele foi um aluno exemplar, colecionando boas notas e premiações nas escolas particulares por onde passou. Parecia ser bem querido pelo pouco que se pode achar na aba de menções do Facebook.

Mesmo assim, a coisa que mais me fez ter sentimentos esquisitos foi achar no meio dos posts do perfil dele um compartilhamento de um vídeo, um vídeo que quase todo mundo que tá lendo isso aqui conhece, que basicamente sou eu dando uma entrevista após comer 7 hambúrgueres em 10 minutos.

Ele só compartilhou o vídeo de um outro perfil também do Facebook e escreveu o seguinte:

\”Já estudei com esse MLK. A gente disputava em tudo. Mesmo assim gostava muito dele. Mas esse tanto de lanche não consigo não. Mas um dia acho o perfil dele e bora competir quem toma mais sorvete\”.

Nos comentários, há alguém que não conheço mas que diz me ver quase todo dia perto de um lugar onde realmente trabalhei entre 2013 e 2015. E ele pede pra essa pessoa quando me ver dizer que era pra eu procurá-lo. Isso obviamente nunca aconteceu.

Há um coeficiente cruel em envelhecer. Progressivamente vamos perdendo mais pessoas ao longo de nossa jornada e isso vai se tornando comum. Mas, saber que ele não está mais vivo foi um pouco diferente.

Eu ainda lembrava dele às vezes, especialmente nesses momentos ruins em que tudo parece dar errado. Sempre ficava imaginando o Jone lá com seu terno, ocupando algum cargo gerencial numa empresa grande, por algum motivo ainda com a camiseta de manga laranja por baixo da roupa. Na minha cabeça, ele combinava com ambientes com carpetes e cadeiras de couro. E pensar nele assim me dava certo alento, certo conforto. Afinal, se eu o tinha vencido na lendária batalha da segunda série eu também poderia chegar lá um dia. Ou sonhar em chegar lá, talvez.

Sinceramente não sei se seríamos grandes amigos, nem mesmo se ele se tornou alguém bom, ruim, ou sequer compatível com meus pensamentos ou estilo de vida. Haviam poucos posts dele. De todo modo, parecia alguém querido pelos amigos, a namorada dele era doida por ele e o pai dele marcava ele publicamente sempre que podia em posts aleatórios.

Saber dessa história toda foi meio esquisito demais, e sinceramente ainda não cheguei em grandes conclusões, exceto uma.

Estar vivo significa carregar o peso de todas as vidas que já esbarraram com a sua e perpetuá-las. E infelizmente jamais serei capaz de contar o tanto de histórias incríveis de pessoas incríveis com quem já estive. E não saber contar histórias nessas horas me dói muito.

Eu não saber contar sobre o dia em que eu e ele descobrimos uma brecha nas raspadinhas da festa junina da escola me dói muito.

Eu não saber narrar com exatidão o emocionante dia em que andamos num caminhão de bombeiros num passeio da escola, e do duelo de água que os bombeiros nos deixaram fazer com as mangueiras, nem de nós dois molhados torcendo camisetas em cima do caminhão me machuca.

Esse é um dom que eu não tenho. E, embora Jone não fosse nem o meu segundo melhor amigo naquela época, são histórias que eu adoraria saber contar melhor, escritas da forma correta, com o foco nas emoções adequadas,dignas dos grandes momentos que dividimos.

É por isso talvez que memórias são tão incríveis, por que elas são histórias contadas do jeito certo, com o timing certo. As vezes com algum ou outro exagero, que acaba sendo imprescindível para a boa narrativa.

Então ficarei com pelo menos essa certeza. Na minha cabeça sempre lembrarei dessas histórias. E vou recontá-las sempre que puder.

Fragmentos:

Fazia tempo que eu não deixava dicas musicais aqui na Newsletter, então como tentativa de ser alguém melhor hoje tenho uma, o álbum Pálido Ponto Azul do raper Kant. É um álbum esquisito, diferente, como se duas mentes estivessem em conflito. De um lado parece o tempo todo que há um artista querendo emergir, cantar sobre suas dores e seus problemas, e do outro há um artista que produz 5 músicas que tem que estar ali pois afinal todo álbum de rap em 2024 precisa ter um trap, precisa ter uma música quente sobre sexo, precisa ter várias outros signos que são igualmente repetidos. Mesmo assim, em meio a tanta dicotomia, ainda é um bom álbum e tem excelentes rimas e momentos. Bom pra você ouvir naqueles dias em que puder chorar um pouquinho.


E por hoje é só pessoal

Agradeço sua leitura, seu tempo, seu espaço, tudinho.

E até a próxima

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