Carta Aberta ao Mundo

Por vezes é preciso apontar alguns dedos. As vezes até para si próprio.

Sim, eu sei, mais de um ano sem texto. Vamos fingir aqui que eu já te pedi todas aquelas desculpas que as pessoas pedem quando revivem um projeto. E vamos fingir que você as aceitou também. Não que essa newsletter seja agora ou em algum momento anterior tenha sido algo importante, mas, regularidade foi a única coisa que prometi e que estive longe de entregar.

A verdade é que mais do que outrora, mais do que qualquer momento ou mais do que nunca eu estou cansado. Mas um cansado diferente.

Não é que agora eu precise de 20 dias de férias. É que preciso de uns bons 20 ou 40 dias de férias, vivendo em estado vegetativo, sem ter que pensar pra sequer dar um passo. Periclitando por aí tal qual uma geleca humana.

Em geral evito me vitimizar, já que as pessoas não gostam disso e também por que isso gera perguntas, várias delas. Mas o que a vida tem sido cruel comigo nos últimos anos me faz até pensar que Deus exista sim, e ele me odeia muito.

Agora que você já sabe de tudo isso, já aceitou minhas desculpas e já ficou intrigado com que tipo de desgraça e desastre se abate sobre minha vida, vamos a um assunto nada relacionado.

O Fim Das Coisas:



Hoje é o trigésimo primeiro dia sem Twitter no Brasil. E, para o meu temor, as coisas estão indo exatamente como eu imaginava.

Não digo isso dum ponto de vista bom ou ruim, é só um fato. Eu imaginei coisas e elas estão ocorrendo como imaginei. O que pra uma pessoa pessimista não é bom sinal.

Primeiro de tudo, poucas são as pessoas que efetivamente sentem falta do Twitter. O que importava lá eram as pessoas, então cada par escolheu pra onde ia migrar e, por lá, tentou achar os teus. Alguns poucos dos que eu conhecia foram pro Threads, o que sinceramente me faz pensar se eu os conhecia de fato. Outra parte, que ao menos no meu círculo de webamigos é maior, acabou indo para o BlueSky mesmo, inclusive eu, ainda que aquela ferramenta social seja um remendo em termos de usabilidade e acessibilidade. No fim das contas uso menos, falo menos, consumo tal qual uma droga nova para moderar o vício da antiga.

Isso nos leva ao segundo ponto que é:

Ainda que seja igual, é um pouco diferente. Para o bem e para o mal.

As formas de interação são diferentes, raramente você se sente em casa. É como morar num local novo e uma vez por dia abrir uma porta errada pensando ser o antigo layout da casa antiga. É só um fato.

E por fim;


Pessoas não querem mais ser bobas e fúteis. Tudo hoje em dia precisa ter um propósito e, ainda que não monetariamente, todo mundo tá tentando se vender o tempo todo. E Isso me irrita muito.

Houve um tempo no Twitter em que pessoas postavam o que ia comer, como foi o seu dia ou quais seus planos para as próximas duas horas. Tudo da forma mais informal e as vezes até expositiva possível.

Em qualquer outra rede social, incluindo mas não se limitando ao BlueSky, muita gente tenta o tempo todo vender uma projeção de si. Pessoas \”engraçadas\” tentam ser o tempo todo engraçadas, pessoas profissionais falam o tempo todo de seus trabalhos e, meu favorito, a moça que transa tenta demonstrar muito que transa. Sério, ela tenta bastante. Quase tudo dela é sobre com quem ela já transou, com quem pretende transar ou com quem não transaria, que é um não tema da não execução.



Esses dias tinha um maluco fazendo uma análise tecnológica num sábado as 9 da noite. Sério. E pra piorar tudo ele ainda tava falando várias coisas erradas, só take off, só chute tortaço memo.


Embora muita gente ache que sim, não, nós não éramos assim até 2 anos atrás. Quem tentava o ser era achincalhado e chapiscado com requintes de crueldade e zombaria pública. Mas, estando num lugar novo, muita gente viu a chance de se reordenar, e coincidentemente quase todo mundo foi nesse caminho.

Meu maior medo é que eu mesmo esteja nessas aí, então tenho tentado ser o mais aleatório possível por lá, ou seja, a mesma merda de sempre. E aí se é bom ou ruim o mundo decide.

Mas, se quando um bobo brinca com outros bobos temos uma brincadeira, quando um bobo brinca sozinho temos um bobo servindo pra outros apontarem e rirem. E mais de uma vez me senti assim por lá. E olha que só estou usando a 30 dias.

De todo modo, se por algum motivo você está aqui e não sabia, eu estou lá no BlueSky, é só clicar aqui.

Não Aprendi Dizer Sim:

Um dos maiores clássicos de qualquer infância , sobretudo quem teve infância pobre, são os pais ou responsáveis te dizendo pra não aceitar nada no evento ou festa em que você vai. Talvez na tentativa de demonstrar algum orgulho, talvez visando parecer menos pobre do que se é, o que honestamente não faz muito sentido.

Duas vezes na vida inclusive minha mãe me fez comer em casa antes de ir à uma festa de aniversário, pra que eu não comesse lá e não \”desse vexame\”, segundo ela.


Assim sendo, tendo tido eu tal criação, poucas foram as vezes em que pude dizer sim no começo da vida. Em geral a cena se desenrolava com alguém me oferecendo algo, eu dizendo não \”enquanto quase esticava as mãos pra roubar da pessoa\” e logo depois recolhendo-as como se fosse um ninja, e a pessoa repetindo a pergunta a um já cabisbaixo Jonas que repetia o não, agora com um pouco mais de eloquência, lembrando-se das promessas de surra e das que também já foram cumpridas.

Obviamente isso se reflete no Jonas adulto que, embora tenha aprendido a dizer sim pra quem lhe oferece uma bala, um salgadinho ou um drink, ainda não sabe dizer sim para outras coisas mais complexas. 

Ainda sou horrível em aceitar elogios, ainda sou horrível em aceitar ajuda e ainda sou horrível em admitir que preciso de ajuda. E por mais que odeie dizer isso, foi nesse momento que entendi o que motivava minha mãe a me pedir coisas como aquelas ou me pedir pra não dar vexame por aí.

Na eterna tentativa de vender-se, tal qual abordei no tópico anterior, todo mundo tenta projetar o melhor de si e parecer melhor ou menos pior. E eu não sei fazer isso. Só aprendi a olhar pros meus defeitos, a criticar tudo o que faço com o maior rigor possível e a me encarar com muito mais julgo do que encaro outras pessoas. Sim, sou eu literalmente não aceitando eu mesmo, me dizendo não o tempo todo.

Ter esse diagnóstico foi libertador, mas, também foi uma das coisas mais doloridas da vida. Tanto que até hoje não marquei a segunda consulta naquele psicólogo.

Perceber o quanto se deixou de viver, o quanto se perdeu pelo caminho, o quanto ficou pra trás pois eu estava pensando e agindo da forma errada doeu muito. Muito mesmo.



E aí entrei naquela conclusão teórica de que minha vida talvez fosse melhor antes de eu saber disso, daquele dilema de ter uma doença que não se sabe e, portanto, não ter a doença.

De todos os sins possíveis, o mais difícil tem sido dizer sim ao Jonas. Sobretudo as dores que ele sente, as mágoas que trás de quem o magoou, aos medos que lhe foram gerados por outras pessoas. Mas, como você pode ver, eu to tentando.

Escrever essa newsletter hoje foi um desses passos de tentativa. Antes de hoje já tinha escrito 4 outras que apaguei lá pelo vigésimo parágrafo. Sempre achava que tudo o que eu escrevesse era pessoal em demasia ou inútil em demasia, o que embora gere resultados parecidos, vem de lugares diferentes. Mas, se pretendo lutar contra a descaracterização das pessoas online, preciso fazer meu próprio esforço. E aqui está.

Todo mundo que lê isso aqui interage cotidianamente comigo por aí. Então, se você me vir contradizendo esse parágrafo, puxe minha orelha. Se possível fisicamente, a dor ensina mais. As vezes.

PS: Escrever na terceira pessoa é horrível, mas vicia.

Flechas, em 2024?


Num tópico bem menos sério e menos importante, aviso-vos pois que voltei aos apps de comer gente. E isso tem sido uma experiência muito esquisita.


Vejam bem: Das outras duas vezes que estive por lá já tinha sido esquisito. Tudo é muito superficial, as pessoas escolhem meramente por beleza \”Embora absolutamente todas aleguem o contrário\”, e tudo tem um tom meio esquisito, um peso no ar, um certo sentimento de que se você está lá algo deu muito errado.

E deu de fato.


Para pessoas da minha idade, o mais normal é relacionar-se com amigos de amigos, conhecidos de conhecidos, etc. Mas, alguns dos meus amigos não conhecem ninguém, outros mal consigo tempo para vê-los e, outros só não me veem dessa forma. A tal da solidão da pessoa cega gorda atípica etc. Nem vamos entrar nisso aqui.

Inclusive, certa vez, um webamigo veio me contar que num almoço com uma amiga dele viu meu perfil no aplicativo dela e, considerando fazer o certo, recomendou que ela desse não, passasse pra esquerda, not today, etc. E ele me contou isso feliz, alegre, sorrindo até.

O que eu fiz pra merecer isso, bom, até hoje não sei.


Então, dadas as minhas possibilidades, fui lá e criei um perfil em 2 apps.

Até agora tem sido uma experiência deveras antropológica.

Num deles, por exemplo, dei match com uma moça que parecia legal, incrível, legal mesmo. Conversamos por uns 2 dias, nos divertimos, trocamos figurinhas, etc. E, quando julguei que chegara o momento, convidei pro passeio, o date, a efetivação de nosso propósito em estar ali. A moça no entanto não apenas não topou, como brigou comigo.

Segundo ela, ela estava ali apenas procurando amigos e, como todo homem, eu estraguei tudo. O que me deixa deveras curioso já que esse app em questão tem um modo para amizades e um modo para dates \”Encontros\” e ela estava no segundo, assim como eu. Então, expliquei pra ela da tal função e, logo em seguida, desfiz o match.

O grande plot da história é que nas nossas conversas ela me contou dos encontros que tinha conseguido graças ao aplicativo. Ou seja, aparentemente o problema era eu mesmo e ela só não sabia como dizer.

Tenho tentado me convencer de que estou apenas tendo azar ou conhecendo o lado ruim das  pessoas de forma antecipada, mas, de forma tão repetitiva assim é muito suspeito. E bom, um dia acabam os matchs né, aí sei lá.

De todo modo fica aqui o alerta aos solteiros que me leem. Se vocês tiverem amigos normais ou que gostam de você, tentem conhecer pessoas pelos métodos tradicionais mesmo. Tende a dar bem mais certo.

Música pra quem gosta de música.

Uma de minhas maiores desconexões nos últimos anos foi com a música. Podcasts, vídeos, séries, tudo acabou tomando o lugar e, com exceção dos eventos quase semanais em que amigos vem aqui em casa pra comermos e bebermos algo, eu praticamente não ouvi nada, exceto em momentos muito específicos.

Por tanto decidi que faria algum esforço e buscaria conhecer artistas novos, sobretudo brasileiros.


Nessa busca acabei encontrando um pianista clássico brasileiro chamado Franz Ventura, cuja técnica de piano é não menos do que assustadora e em alguns momentos humilhante. E tamanho foi o buraco profundo pra encontrá-lo que tive que cavar que, só depois de ouvir tudo o que ele produziu por várias vezes descobri que ele tem um canal no Youtube.

Então ficam aqui as indicações.


E é isso por hoje.


Prometo tentar voltar menos pessoal e mais divertido na próxima newsletter. Que certamente não será daqui um ano.

Se você tiver quaisquer feedbacks, é só responder ao e-mail ou comentar aí em baixo, a sua escolha.



Obrigado e desculpe.

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