Coisas Quebradas e um Edvaldo

Eu não tenho que fazer sentido, me deixa.

Essa semana quero compartilhar várias coisas da minha vida com vocês. Não com tons melancólicos, como na semana passada, mas, como um almoço de amigos que se reencontram depois de uma semana e um deles fala o tempo todo sobre tudo o que aconteceu em sua vida, enquanto o outro se pega preso em um dilema definido por ter só mais duas balas no bolso e não saber se oferece uma ao amigo ou chupa duas mais tarde e mantém esse pequeno prazer restrito apenas á si.

Mas, como estamos no mundo online, você tem balas infinitas. Então se por acaso desejar, os comentários estão abertos pra você me contar o que quiser. E eu juro, vou ler, responder, refletir sobre e talvez até te julgar.

O Verdadeiro Fim.


Semana passada eu já tinha falado sobre o fim do Twitter e sobre a estranhesa das coisas. Mas, coisas mudaram.

Primeiro de tudo, o Twitter voltou. Tal qual uma ex namorada vinda da balada triste que para na sua porta as duas da manhã te chamando pra conversar, mas, voltou.

Porém;

No meu décimo quinto aniversário de Twitter eu me fui.

Sim. No momento em que publico essa newsletter minha conta está sendo deletada lá. De forma definitiva. E ao contrário do que imaginava antes, não fica um sentimento ruim ou triste, mas sim uma gratidão imensa por todos os amigos e conhecidos que lá encontrei e por todo o carinho que lá recebi e, sobretudo, que tenho recebidonas últimas semanas.

Quase todo mundo que aqui está veio de lá, então fica aqui mais um dos meus repetidos agradecimentos públicos. Obrigado por ter feito parte da minha vida. E que isso se prolongue por muito tempo.

A Quebradeira:


Essa semana calhou de tudo quebrar aqui em casa.

Primeiro foi minha cadeira de trabalho que, embora não seja exatamente uma Hermann Miller, é uma cadeira robusta e que sempre me atendeu bem.

O motivo foi uma falha no piso, problema este que será tratado em breve, mas enfim.

Dado que passo mais de 10 horas por dia nessa desgraça, precisei solucionar o quanto antes. Então fui a caça do que seria o melhor par de rodas possível pra substituição e, bom, achei um kit incrível.

Basicamente são as rodas mais resistentes, confortáveis, silenciosas e de melhor rolamento que já vi. Quase me dão vontade de fazer uma corrida de cadeira numa ladeira.

Então, se você tem uma cadeira com rodas e quer, precisa ou gostaria de trocar as suas, O kit está neste link. Não é nem de longe o mais barato mas, eu, um ser humano de 1,90 e 3 dígitos de peso atesto sua qualidade.



Depois da cadeira foi a vez do teclado me dizer um lento adeus.

Basicamente as teclas começaram a quebrar. Uma por uma. Gradualmente.

Lá pela quinta ou sexta finalmente entendi que talvez usar algo que ficou mal guardado por 4 anos num armário e que estava sendo usado apenas como substituto \”Já que outro teclado melhor quebrou 2 meses atrás\” não seria realmente algo definitivo.

Então como solução temporária comprei Este teclado que sinceramente é uma baita porcariazinha, mas vai aguentar os dias que precisarei \”poucos\” até que eu possa comprar Este teclado que aí sim é o que espero que solucione meu problema de teclado pelos próximos anos.

Nota: Clicando nos links acima você estará dando seu dinheiro diretamente para as lojas vinculadas. Eu mesmo tenho preguiça de criar link de afiliado e só estou te indicando coisas que comprei e que julgo minimamente úteis. Mas, se você comprar algo dessa lista aí, me conta depois o que achou.

A Quebradeira Virtual:


Para além das coisas físicas que estão se esfacelando por aqui, a Microsoft e o Mercado Pago decidiram que também vão tornar minha vida menos fácil.


Primeiro de tudo, o Outlook:


Quem instalava o Windows 10 ou 11 contava até o começo de outubro com um aplicativo simples de e-mail chamado \”Mail&calendar\”, que nada mais era do que uma versão simples do Outlook, tal qual era o Wordpad perante o Microsoft Word.

A questão é que, diferente do irmão processador de texto, o Outlook simplificado era realmente bom. E simples. E leve. Então, na preguiça, foi o que usei nos últimos 9 anos.

Quando a Microsoft decidiu que devia coletar mais dados de seus usuários e empurrar nelas um software desnecessariamente burocrático e pesado \”Finalizando o Outlook simplificado e forçando a instalação de seu novo aplicativo Outlook\”, vários usuários pelo mundo \”incluindo eu\” decidimos lutar contra.

E foi assim que, compartilhando conhecimentos em fóruns públicos, mapeando e detalhando chaves de regedit, arquivos json em pastas excusas do Windows e outros truques comuns a qualquer usuário de pc dos anos 2000 nós nos mantivemos usando o Outlook até ontem.

Porém o inevitável chegou e, no estado atual, não é mais possível fazer o Rollback do novo Outlook para o Mail&Calendar. Perdemos mais uma vez

Isto tudo posto, tal qual um bom micreiro em 2007, estou novamente testando clientes de e-mail. Em pleno 2024. Não vou ficar na porcaria do novo Outlook, tampouco sou jovem ou maluco pra usar e-mail na Web. Por enquanto parei no Thunderbird, mas, para além das 9 coisas que terei de testar ainda hoje, aceito dicas e sugestões de quem é velho e não maluco assim como eu.

Se você usa algum cliente de e-mail pra Windows, indique aí nos comentários, por favorzinho.

Já o MercadoPago decidiu que vai acabar com o plano de benefícios deles. Plano esse que uso a já 6 anos e que me evitava uma série de custos por me dar automaticamente o nível 6, já que recebo boa parte dos meus pagamentos por lá e obviamente gasto boa parte do meu dinheiro lá.

E apesar de não parecer, ambos finais são motivados pela mesma causa. Domínio de mercado.

É um pouco assustador que só percebamos o quanto estamos nas mãos de certas empresas quando estas param de se importar em oferecer o melhor produto possível, uma vez que já tem domínio suficiente do mercado para que o moldem, ao invés de moldarem-se à ele.

Então no meu próximo período de alguma folga dedicar-me-ei a rever todas as empresas das quais dependo hoje e, numa antecipação catastrófica, farei a melhor migração possível para serviços que dependam só de mim.

É um esforço hercúleo quase injustificado, mas, a cada dia que passa é menos quase.

Eu Me Tornei Edivaldo:


Quando eu era criança as coisas em casa eram muito apertadas. Basicamente toda a renda familiar advinha da aposentadoria da minha mãe, que, aos 41 anos, se aposentou pra me levar pra escola, segundo ela.

Então grandes luxos eram raríssimos. E poucas coisas eram tão luxo quanto pizza para uma criança dos anos 90.

A exceção era quando Edvaldo, um amigo da minha mãe, vinha nos visitar.

Até onde sei Edvaldo era um antigo amigo de um irmão dela que faleceu nos anos 90 e, por algum motivo, ele gostava dela e de nós, os filhos. Então as vezes ele saía lá de São Caetano e ia com sua motono tunada até Franco da Rocha, do outro lado de São Paulo. E sempre que el ia, passava numa mesma pizzaria e levava 3 pizzas pra casa. Duas pra comermos no jantar e uma pro café da manhã no dia seguinte.

Quase sempre Edvaldo vinha na companhia de Diney, seu caótico porém divertido irmão. E duas vezes veio acompanhado de moças, namoradas pontuais.

Então, em geral, as vindas de Edvaldo significavam noites de pizza, alguém tocando violão, cantoria até tarde da noite, sorrisos e muita alegria.

O exato oposto do que era minha família em qualquer outro dia sem Edvaldo.

E como Edvaldo só vinha umas duas vezes por ano, ao longo da infância pude contar as famosas noites de Edvaldo, o que só as tornaram ainda mais especiais em meu imaginário pueril.


Foi assim que cresci e, também, assim que descobri aos 13 anos que Edvaldo casara-se com uma moça Angolana e ambos pretos retintos decidiram ir morar em Angola. O Jonas de 13 anos não aceitou isso muito bem, mas, o Jonas de hoje acha isso incrível.

Diney até foi em casa mais umas duas vezes, e também levava pizza, mas não 3, só duas.

Na última vez que foi eu já fazia sites e dessa vez pude eu pagar uma pizza e uma Cocona pra ele. Me senti a pessoa mais orgulhosa do mundo.

Duas semanas depois ele foi assassinado, alguma coisa sobre estar comendo a mulher de um traficante. Pois é, ele era bem safadão.


A questão é que o contraste desses dois em minha vida sempre me facinou. E sempre tive como vislumbre no horizonte o dia em que poderia ser o Edvaldo de alguém.

Foi assim que em 2015 comecei a fazer parte de forma recorrente do projeto Correio Noel, o que sinceramente é um dos pontos altos do meu ano.

Ainda assim nunca consegui me sentir exatamente um Edvaldo.

Até porque ler uma criança pedindo um sapato pra mãe trabalhar e não um brinquedo te da muitos problemas de ninjas com cebolas e, ainda que o mundo cruel seja factível, lidar com sua brutalidade por vezes machuca mais do que deveria.

Porém outro dia tive uma ideia enquanto bebia as 4 da manhã e, apesar de não parecer, a ideia mostrou-se correta.

Esse ano presentearei 5 crianças de uma família de duas conhecidas minhas que são mães solteiras \”primas\” e que duvido eu que fossem ter algum dia das crianças.

Não é nada tão grandioso quanto eu gostaria, mas, bom, é até que grandinho pra alguém nada modesto como eu.

E pela primeira vez na vida experencio o que é ser um Edvaldo.

Uma vez, quando tinha uns 7 anos, perguntei pra ele como ele nunca esquecia das pizzas.

E ele me respondeu mais ou menos o seguinte:

— É que eu saio já lá de São Caetano imaginando você pulando feliz quando sabe que sou eu chegando. E aí não da pra esquecer.

«Na época tomei bronca da minha mãe, que disse que aquilo tinha haver com eu mostrar ser muito \”pidão\”. Ainda que mais do que as pizzas as noites de cantoria e risada fossem minha parte favorita\”.

Então só pedi desculpas pra ele e fui chorar algum canto enquanto ele, minha mãe e Diney conversavam broncas aos sussurros.

Hoje, enquanto escrevo esse texto da forma mais imbecil possível e seguro lágrimas de ansiedade pra ver as crianças abrindo seus patins e os docinhos, concluo que finalmente talvez entenda o que ele sentia e o quão fui bobo em pedir desculpas em 2000.

Conversando com várias pessoas ao longo da vida descobri que Edvaldos são raros. E até por isso decidi tentar me tornar um. Ainda que isso signifique postergar meu teclado de trabalho em uma semaninha.

Sinceramente não sei se as crianças ou as mães vão gostar dos presentes, ninguém sabe ainda da minha ideia.

Mas precisava compartilhar isso tudo aqui da forma mais humana possível, com todos esses erros de escrita que só alguém que digita sem parar pra não perder o fio da meada cometeria.

Se vocês tiveram um Edvaldo em suas vidas, e se puderem, agradeçam-no. E, se não tiveram, se possível for, sejam um.

Apesar de não parecer, a alegria maior é estar do lado de cá.

Por hoje é só. Infelizmente não tive tempo de ouvir nada de música, então sem indicações nessa newsletter por enquanto.

De todo modo, obrigado por sua leitura e tenha um bom fim de semana.

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