Futebol, Decidas e um 7 X 1

Era algum dia do ano de 2001. Eu sempre fui um menino de brincar na rua, então lá estava eu, na rua.

Era horário de almoço, e por algum motivo eu era capaz de ignorar aquele horário, tudo em função de me aperfeiçoar no futebol para fazer parte do time da rua e ser escolhido.

Não, ser cego nunca me atrapalhou a jogar futebol com os demais meninos, no máximo me impedia de cabecear cruzamentos, o que eu sempre compensei sendo um excelente cobrador de faltas.

Um mito antigo conta sobre um evento chamado Agita SP, que aconteceu anos depois na escola onde eu estudava. A época rolou um campeonato de Pênaltis e quando alguns pais e irmãos de aluno viram este cego que vos escreve se dirigindo da arquibancada para a grande fila cobrar suas batidas de direito deram algumas gargalhadas. 
Poucos riram quando este que vos escreve acertou 19 pênaltis seguidos.

Eu não era bom, não fazia dribles espetaculares como a maioria dos garotos fazia, nem era um grande marcador, no máximo razoável. Isso sempre me rendia xingamentos quando pela falta de visão no olho direito eu deixava algum passe muito bom passar ou batia errado na bola.

Mas por mais incrível que pareça esses xingamentos não me ofendiam, só me incentivavam. Afinal, quando você é um moleque cego no meio dos adultos tem que lidar com a pena, a falsa demonstração de reconhecimento e também a preocupação dos adultos, então acaba curtindo que os moleques da rua te tratem como um igual, te xinguem como um igual.

O que eu tirava disso é que eu tinha que ser bom, eu ia ser bom, eu não ia ser o último a ser escolhido pro jogo.

Então lá estava eu, de frente pra uma subida, enquanto todos os outros meninos almoçavam.

Aquele era o meu momento de treinar.

De frente pra uma subida relativamente íngreme eu chutava a bola pra cima, sempre tentando controlar a direção e a força de modo a que a bola voltasse exatamente no meu pé.

Tentava uma, duas, muitas vezes até conseguir uma sequência de dez acertos. Dez acertos é o que me permitia ir almoçar.


Em dado momento ouço de um portão a minha direita um chamado de um menino perguntando se eu poderia brincar com ele.

Não conhecia aquela voz, não reconhecia aquele rosto. Era um menino bem tímido que parecia muito querer jogar bola, então eu topei. Ele abriu o portão da casa dele e eu entrei com a bola debaixo do braço.

Só saí de lá depois das 6 da tarde praticamente expulso pela mãe do garoto que não aguentava mais os sucessivos gritos típicos de futebol jogado entre crianças.

Perguntei o nome do garoto e descobri que era Davi. Descobri também que a mãe dele conhecia a minha, e que eu já tinha visto aquele menino, 3 anos antes, quando ele ainda era praticamente um bebê.


O ano agora é 2005. Mais especificamente é dia 4 de novembro de 2005.

Eu, Davi e outros muitos amigos nos apertamos em uma Kombi extremamente precária para irmos jogar em um campo de terra um pouco distante de onde moramos.

Em comum a todos os garotos estão camisas piratas de seus times. Alguns Palmeirenses, outros SãoPaulinos, mas a maioria dos 14 moleques é de corinthianos. Só Davi, isolado, com sua camisa original do Santos do campeonato de 2002.

Em algum momento ele me lembra que dentro de dois dias nossos dois times vão jogar e diz que acredita em um 3 a 0 para o time dele, com 3 de Basilho. Eu, de forma reativa apenas digo que vai ser 4 a 0 Corinthians, e todos os gols de Tevez.


Passaram-se 3 horas desde que entramos na Kombi para irmos ao campinho de terra jogar nosso futebol. Agora estamos todos imundos voltando com nossas camisas praticamente irreconhecíveis fazendo todos os comentários que crianças fazem sobre o jogo passado.

Alguns meninos ousam me elogiar pelos dois gols de falta que marquei. Outros me criticam pelo maldito cruzamento que fizeram e para o qual eu obviamente não pulei, dizendo que eu consigo ver sim a bola e deveria deixar de ter frescura.Eu apenas consigo me sentir feliz. Finalmente fui aceito na porra do futebol, caralho. Fui o terceiro a ser escolhido.


SEIS DE NOVEMBRO DE DOIS MIL E CINCO, DEZOITO HORAS.

Saio pra rua pra comemorar a mais nova goleada do Corinthians sobre o Santos.

Encontro vários amigos surpresos e até um pouco incomodados com a minha gritaria e minha euforia.

O placar extremamente elástico de SETE A UM me empolgou demais naquele domingo

Não via o Davi desde que voltamos do futebol na sexta, então fui chamá-lo pra, é claro, devolver todos os anos de pedaladas de Robinho que ouvi desde que o conheci.

Após algumas várias tentativas noto que a casa está vazia.

Noto também que a porta está totalmente trancada.

Então me lembro de algo que o pai do Davi tinha nos dito enquanto nos levava na Kombi em direção ao campo de terra.

Naquele fim de semana eles iriam se mudar e aquela era a despedida da molecada do bairro, e como eles iriam pra longe, não teriam como nos visitar tão frequentemente.

Subo pro quintal, pego minha bola

semi oficial “Um bom adjetivo pra mais barata possível mas com algum peso” e volto a chutar a bola na subida para que ela dessa em direção aos meus pés.

Executo o movimento com perfeição uma boa quantidade de vezes antes de ficar escuro o suficiente pra eu parar.

Nunca pude zoar o Davi por aquele jogo, nunca mais o vi.

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