Olá pessoas. Relembrando os tempos de newsletter esse post não terá apenas uma temática em específico, só uma pá de coisas que eu gostaria de abordar de forma mais detalhada do que 20 threads numa rede social. Se você quiser pular por assunto fique à vontade, mas recomendo que leia o todo pra entender o todo. Ou algo assim.
Não se esqueça que você pode sempre comentar aí embaixo (aproveita que é de graça), enviar suas perguntas ou críticas anônimas e, se quiser, compartilhar o post. Em nome de uma eventual quem sabe futura talvez internet orgânica.
isto posto;
Robôs que imitam humanos
Livros de ficção científica que abordavam o futuro sempre o fizeram com base na teoria de que criaríamos robôs humanoides. Talvez por falta de criatividade ou talvez porque escritores sejam mesmo mais sensíveis e entendam que o fato de um humano ter escrito que Deus nos fez à sua imagem e semelhança diga mais sobre nós do que sobre o tal Deus em si. Afinal, se nos consideramos à imagem e semelhança de Deus, repetiremos os passos dele nas nossas próprias criações. E se somos a imagem e semelhança de Deus, nossas criações perfeitas também serão à nossa imagem e semelhança, nos tornando também Deuses. Sim, humanos são patéticos assim.
Seja como for, cá estamos em pleno 2026, criando robôs humanoides.
O Japão, por exemplo, criou esse bicho aí do vídeo pra fazer o carregamento de malas no aeroporto de Tóquio. O que até pode fazer sentido já que por lá seres humanos de verdade não buscam esse tipo de emprego, mas há um porém.
Não há um motivo pra que o robô seja humanoide. Não existe uma melhoria no desempenho, nem uma vantagem óbvia. Ele só é humanoide por o ser, por gerar mais empatia nas pessoas.
Já na China, a Oppo (sim, aquela dos smartphones) venceu uma competição de corrida atlética de robôs, competição essa que tinha outros 14 robôs corredores e um robô guia de prova. E como se não soasse distópico o suficiente, o robô vencedor bateu o recorde humano por 7 minutos e 31 segundos, terminando assim a meia maratona com 50 minutos e 21 segundos.
A grande questão aqui é: até existem bons motivos para que se tente criar um robô que imite a forma de movimento humano, sobretudo para a criação futura de próteses e membros autômatos. Porém, colocá-los em corridas ou simular obstáculos já me parece ir um pouco além, e tem um cheirinho delicioso de humanos deslumbrando-se de suas criações. O que também não tem problema nenhum, só soa um tanto quanto esquisito.
Me parece claramente que as empresas supõem que, ao tornar essas máquinas mais humanas, seremos mais empáticos com elas. O que é um fato. Somos empáticos com animais que demonstram ações levemente próximas às nossas e comemos ou atiramos nos que não se importam tanto com isso. Ainda que os instintos deles sejam bem próximos uns dos outros.
E não me entendam mal, já tive 3 cães e agora tenho 7 gatos. E sei que o carinho deles é real em certa medida. A questão é que por vezes os tratamos como humanos e esperamos deles respostas que sejam humanas, ao passo que ficamos decepcionados por dar um brinquedo ao pet e ele brincar com a caixa do brinquedo ou quando ele decide fazer xixi ou cocô em algum lugar da casa que não a caixa de areia por birra.
Por outro lado, aos robôs que não têm aparência física, as empresas tentam dar-lhes personalidades humanas. Novamente na tentativa de gerar empatia e, claro, novamente obtendo sucesso. É por isso que a OpenAI tentou criar um modo adulto para o ChatGPT e logo após acabou desistindo da ideia por razões puramente financeiras, sem qualquer fina sombra de ética ou moral. Apenas as empresas notaram na época que o dinheiro de verdade estava na programação e não em simulação de flerte e sexo com usuários que, em sua maioria, não pagariam pelo recurso e cuja finalidade corporativa seria nula, tendo em vista ainda o fato de a gigantesca maior parte dos pagantes de recursos de IA serem empresas.
Note, no entanto, que esse recurso era apenas uma exacerbação. As empresas de LLM ainda tentam aplicar camadas de personalidade em seus modelos para que os usuários sempre se sintam recompensados e felizes ao usarem seus modelos. Nada de resposta fria, a ideia é elogiar as perguntas do usuário, elogiar suas respostas, elogiar tudo, ainda que discordando depois, como bem explica esse artigo.
E é aqui que reside minha maior preocupação com esse processo. Humanizar um carregador de aeroporto ou um robô que faça hambúrgueres é ruim, mas é ignorável o suficiente pra que eu consiga lidar com isso. Agora, humanizar uma ferramenta com a qual as pessoas deveriam interagir com senso crítico e sempre questionarem ao primeiro sinal de erro é especialmente perigoso. Porque tendemos a ser empáticos com o que nos soa familiar, a aceitar pequenas distorções, e mais do que tudo a humanizar as lacunas que faltam. O grande estrago não virá na nossa geração, apesar de já termos pessoas namorando ou casando com modelos de linguagem. O grande estrago virá nas gerações subsequentes, quando tal comportamento for basilar da infância. Quando não existirem mais brechas para que os pequenos desenvolvam senso crítico e ético. Ali sim começará a grande distopia. Nesse contexto, não é muito difícil vislumbrar que daqui a 20 ou 30 anos os jovens vivam uma vida inteiramente baseada em sugestões ou apontamentos de LLMs; provavelmente criarão alguma que sirva como guia pessoal ou algo assim.
Particularmente sou contra qualquer uso de modelos de linguagem, seja pra gerar um simples texto ou pra salvar a vida de um panda fofinho que está engasgado. Tal tecnologia é fundamentada na exploração e expropriação do conhecimento humano sem que nada nos seja dado em troca. E servirá apenas como forma de aglomeração do capital financeiro; afinal, teremos algumas poucas empresas que prestarão tais serviços a um mundo inteiro. O que fará com que países que não sejam o topo tecnológico do mundo sejam cada vez mais esvaziados de recursos e movidos mais pra dentro da periferia do capital.
Mas, quem sou eu pra prever qualquer coisa, né?
Humanos que agem como Robôs
Se por um lado temos robôs humanoides, por outro temos humanos cada vez mais robóticos que cada vez mais vivem no automático, sem apreciar quaisquer aspectos orgânicos da vida ou o mínimo possível deles. Foi o que concluí ao ler essa pesquisa que, embora tenha alguns exageros, traz alguns números assustadores. Pensemos por exemplo no fato de que, segundo a pesquisa, a média semanal nacional é de 12 horas e 19 minutos em redes sociais e 11 horas e 20 minutos em streaming. Isso significa que nem mesmo os streamings, que são moldados para capturar e reter nossa atenção, estão tendo mais sucesso. As pessoas não conseguem mais parar em algo, ater-se em um único meio; tudo precisa acontecer o tempo todo, de forma constante, num fluxo de informações ininterrupto.
E novamente, não me eximo dessas estatísticas. Na verdade, eu até estou acima delas. Estou diariamente no Bluesky entre o momento em que começo a trabalhar e o momento que paro, já que o app fica ali, no cantinho, minimizadinho, à espera de qualquer pensamento bobo que eu queira compartilhar ou qualquer momento de tédio durante o trabalho. E como toda mente presente no século XXI, tais momentos não são exatamente tão raros.
A grande questão é que quando notei esse comportamento mais agudo em mim há cerca de um ano, iniciei uma tentativa extrema de mudança de hábitos. E hoje posso dizer que obtive algum sucesso.
Passei a dedicar mais tempo para minhas pausas do café e da água, me forço diariamente a ficar pelo menos 30 minutos no sol com os gatos, passei a comprar e praticar vários tipos de flautas e mais recentemente mudei o horário dos meus exercícios diários para as 17 h, bem no pico do meio do meu horário de trabalho.
Os resultados sinceramente foram bons. Não tenho mais tantas crises de humor como tinha antigamente, tenho me divertido pra caramba aprendendo coisas novas e até minha média de sono aumentou, de 4 horas e 11 minutos em 2025 pra 4 horas e 41 minutos em 2026. Sim, eu sei, eu sei.
Meu ponto aqui é propor que com pequenos ajustes podemos lutar contra essa tendência de nos mecanizarmos a passar o dia todo deslizando os dedos numa tela pra direita ou pra esquerda, ao menos um pouco, o suficiente pra mantermos viva a nossa vontade de viver e presenciar o mundo real. Sem aquela coisa toda de pisar e sentir grama, quase ninguém gosta disso e geralmente a grama está cheia de formigas. Mas sim para que, dentro das nossas realidades, ainda que em luta constante, preservemos nossa real humanidade nos hobbies, gostos ou em simplesmente passar o tempo não fazendo nada, o mais absoluto nada.
Se você chegou até aqui nesse texto já fez um bom progresso, está de parabéns.
Para humanos orgânicos, recomendações orgânicas
Sim, você não leu errado. Essa semana tenho várias coisas legais pra recomendar. Porém, como precisarei explicar várias delas e entrar em várias tangentes, cada uma terá seu subtópico. Porém, não queria parar só nisso, então escrevi esse bloco de texto só pra pedir que, se você quiser e puder, deixe também uma recomendação pra mim e pros demais leitores aí nos comentários. Em tempos de algoritmos cada vez mais refinados, é difícil achar algo que seja verdadeiramente desafiador e diferente. E essa semana eu literalmente chorei de raiva por isso em certo momento.
Som No Sebo, Bemti
Quem me segue nas redes todas já me viu elogiar e indicar várias vezes o projeto Som no Sebo. Sendo mais um dos clones de Tiny Desk que surgiram recentemente, ou, como eu carinhosamente os chamo (Tiny Desk-like), o Som no Sebo é o projeto que mais traz artistas médios e pequenos e onde eu mais descobri coisas legais. Por exemplo Getúlio Abelha e suas músicas completamente caóticas e divertidas, Nomade Orquestra e suas músicas instrumentais cheias de detalhes e lindamente executadas, dentre tantos outros projetos que lá descobri e que só não vou linkar aqui agora por preguiça mesma. Entra lá no canal dos caras e prestigia tudo, PÔ!
Mas, como o tópico diz, tô aqui pra te vender o peixe da edição com Bemti, então é o que eu farei. O moço simplesmente uniu uma guitarra a uma viola caipira de 10 cordas e criou um instrumento novo pra dar vazão à sua musicalidade. E em um tempo em que produtores usam IA pra gerarem beats e samples, isso por si só deveria te convencer. Mas não é tudo. As músicas são absolutamente lindas, complexas, e têm uma ambiência de dar inveja. Claro, há o mérito dos instrumentistas nisso, mas as músicas do moço produzidas em estúdio também são lindas, então vá lá prestigiar.
Chega de Futuro, vamo pro Passado! Nippon Sangoku
Outra coisa da qual eu já falei lá no Bluesky, mas posso elaborar melhor aqui. Nippon Sangoku (A Guerra das 3 Nações) é um anime que conta a história de um mundo pós-guerra nuclear em que tudo foi pro caralho de vez. Deu ruim nos recursos naturais, todo mundo saiu na mão, humanidade foi pro caralho. Mas não apenas foi pro caralho de morrer muita gente ou foi pro caralho de destruir tudo: basicamente a tecnologia foi obliterada da Terra e voltamos a viver tal qual na Era do Bronze. E nesse contexto o mundo deixou de ser globalizado como hoje é.
Dado esse contexto, o mundo esfriou pra caramba, alimentos se esvaíram (“boa parte da nossa produtividade alimentar atual depende de tecnologia”, por culpa da falta de incentivo ao plantio orgânico, não por necessidade), e o Japão em si foi dividido em 3 grandes nações.
Quem fez isso? Por qual motivo? O que acontece com o resto do mundo? Não sei. E o anime não se propõe a contar também.
O que o anime nos conta é a história de Aoteru Misumi, um jovem agricultor do interior que acabou de se casar com uma jovem extremamente esperta e sonhadora e que só queria viver uma vida pacata com sua esposa, mas que é forçado a sair dessa situação por razões diversas que eu não vou te contar, pois você vai descobrir por sua conta assistindo ao anime.
Além da temática, o grande charme do anime está na forma como ele se baseia nos livros de guerra escritos por grandes sábios da humanidade. Aoteru é um grande fã da literatura pré-ruína do mundo, sobretudo A Arte da Guerra de Sun Tzu e as 36 Estratégias (San Shi Liu Ji). Ao longo da obra existem até menções a frases de Tucídides e Xenofonte, algo que eu não esperava de um anime tão japonês, mas que dá charme à história.
O anime está disponível no Prime Video, que você provavelmente já tem e, se não tiver, deve ter aí em promoção com alguma coisa que você já tenha.
Sei que pra muita gente é difícil romper a barreira da linguagem visual e textual de um anime, mas se tem um que eu acho que valeria o seu esforço é esse aí. Vá lá, assista, é rapidinho, são só 12 episódios. E se não gostar, reclame comigo depois nos comentários.
E por hoje é só;
Como me propus a escrever isso aqui em forma de newsletter, não posso simplesmente fechar o artigo sem me despedir. E novamente peço o seu feedback. Se tiver gostado do formato, se tiver odiado, se tiver discordâncias, se quiser concordar, não importa. Qualquer feedback é válido e bem-vindo, e apesar de os números de leitura do blog serem expressivamente maiores do que eu imaginava, não ter nenhum feedback é meio esquisito.
Aproveito ainda para agradecer às 8 pessoas que clicaram no botão que deixei no final do último post. Confesso que ainda fico meio sem jeito, mas talvez seja o caso de me acostumar. Se você quiser juntar-se a eles e também me pagar um cafezinho, basta clicar aqui e enviar o valor de sua escolha.
No mais, muito obrigado a vocês pela leitura, bebam água, usem camisinha e vivam intensamente.
