Lugares comuns

Ou pelo menos alguma coisa parecida com isso.

Imagine que aqui não há uma introdução que foi reescrita 11 vezes nos últimos 6 meses.

Bom, só que esse não é o caso. 11 vezes foi o total de vezes que abri o Editor do Substack tentando encontrar uma forma de comportar minhas ideias bem formatadas e bem organizadas. Afinal, se pessoas que enxergam conseguem, porque é que eu não conseguiria?

Simples, porque pessoas que enxergam não dependem do recurso de acessibilidade. E eu sim. E é aqui que começa toda a brincadeira de Lugar Comum.

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Como Explicar algo Tão Complexo?

Eu sempre tive dificuldades em explicar minha condição pras pessoas. Primeiro porque tecnicamente eu sou cego. Fui alfabetizado como pessoa cega, vivo como pessoa cega, sofro das dificuldades de uma pessoa cega. Infelizmente não posso praticar tiro ao alvo, arqueirismo ou aviação amadora. Ou melhor, até posso, mas longe de quaisquer outras pessoas, animais, plantas ou coisas que possam devolver os projéteis ou explodir. Por outro lado, eu nunca efetivamente fui cego. Os poucos 15 % de visão que teimavam em me acompanhar me diferenciavam de uma pessoa cega o suficiente pra que eu não me reconhecesse na maioria das maiores dificuldades de uma.
Eu conseguia me locomover sem ajuda, usar de transporte público sem ajuda, atravessar ruas, enfim, toda uma miríade de coisas para as quais pessoas realmente cegas precisam de auxílio.

E justamente aí eu esqueci qual era efetivamente o meu lugar. Não raras foram as vezes que eu me sentia um pedaço de algo flutuando, jogado de um espectro ao outro sem que nada me confortasse ou tivesse cheiro de lar. .

Um muito grande Off Topic:

O ano era 2007. Eu estava no auge da puberdade no alto de meus 13 anos. Estava na porta da escola que ficava a 2 quarteirões de casa onde nos anos anteriores eu havia feito os dois primeiros anos do chamado segundo primário, no caso as boas e velhas quintas e sextas séries. Eu havia ido fazer a já comum rematrícula, tão comum que eu nem precisava da presença oficial da minha mãe, bastava levar os documentos devidos. Mas naquele dia eu saí com um gosto mais amargo do que o comum daquela calçada. Eu havia sido negado na escola por questões de comportamento.

E as questões de comportamento, bom, dar porrada em tudo e todos que tocavam no meu material de estudo, especialmente em uma máquina Braille que à época custava 3 mil reais, que foi quebrada duas vezes no ano de 2006 e que me rendeu duas grandes surras da minha mãe, enquanto ela explicava nada calmamente que não tinha de onde tirar o dinheiro pra pagar, enquanto eu explicava calmamente que não havia sido eu a quebrá-la.
Como resposta, óbvio, decidi distribuir o dobro de porrada que recebia em quem ousasse tentar mexer na máquina. E como eu era uma coisa disforme de 1,65 e 74 KG
aos 13 anos, bom, foi bem fácil.

3 semanas depois eu iniciava minha jornada em uma escola onde todos os alunos eram cegos. A ideia, segundo o que me disseram \”minha mãe e as diretoras\”, era que lá eu me adaptaria melhor.

E bem, foi muito longe de ser assim.

Eu havia estudado 8 anos em escola pública. Eu era o retrato da escola pública. E aquela escola, bom, aquele era o primeiro ano em que eles aceitavam alunos externos, normalmente os alunos chegavam lá crianças, viviam 10 ou 12 anos na escola em regime de internato e só saíam de lá com o primário completo. É como colocar um porco-espinho em meio à filhotes de coelhos. E bom, eu espetei, mais do que me orgulharia de admitir.

No dia 4 de abril de 2007 houve uma reunião de todo o segundo primário da escola.

9 alunos da quinta série, 7 da sexta, 16 da sétima “Minha sala” e 5 da oitava.

A Pauta? Jonas.

Durante mais de 3 horas eu ouvi reclamações de todo tipo sobre meu jeito, minha personalidade, sobre tudo. Reclamações mais ou menos lógicas. Provavelmente as 3 piores horas da minha vida. Afinal, ali era onde disseram que me cabia. E eles estavam me rechaçando por completo.


Dentre as reclamações, a maioria eram sobre coisas comuns. Por exemplo, eu enxergava um pouco e vinha de uma escola onde todos corriam. E como resultado, eu também corria. Sim, eu simplesmente saía correndo por aí. E isso incomodava eles, por que eles não podiam ou não sabiam poder correr também. Então eu correr incomodava aquelas pessoas.

Também de outro modo, nos recreios eles gostavam de ficar dando voltas ao redor de uma quadra esportiva enquanto conversava. E na minha cabeça aquilo era simplesmente imbecil. Era caminhar sem propósito. Então quando meus novos amiguinhos me chamavam pra aquela atividade imbecil, eu os respondia da forma que eu aprendi. Afinal, aquilo era imbecil. E se eles não sabiam, eu tinha que lhes dizer o quão aquilo era imbecil.

Após as 3 horas de humilhação, os professores finalmente entenderam que as reclamações daquelas crianças e adolescentes não eram motivos pra uma exposição pública. Ficou conversado de que tentaríamos nos entender, um ou outro colega mandou o famoso “Papinho” e fomos liberados. E bem, nunca foi tão pesado caminhar aqueles 100 metros entre o pavilhão da biblioteca e o pavilhão das salas. Acabei aquele dia sem falar com ninguém.


Ao longo do tempo eu me acertei com aquelas pessoas, até aprendi a girar na quadra, até fiz amigos lá, quem diria, até ajudei alguns a correr comigo.
Mas nunca mais consegui sequer imaginar fazer parte de algum lugar. Nem mesmo outra escola. Nem fazendo amigos. Nem antes ou depois de lá.

E até hoje tenho memórias físicas daquelas 3 horas.

Mas o que isso tem haver com a Newsletter?

Excelente pergunta. Na verdade, tudo.

Quando decidi ter uma Newsletter eu busquei pelos serviços onde seria mais fácil publicar, e logo caí no Substack. Entretanto, bom, o editor deles não é acessível à leitores de telas, não de todo. Então foi uma guerra até que eu conseguisse alguma forma de resolver isso. Até que me lembrei dos bons e velhos Markdowns

E daí, ao lembrar dos Markdowns, eu me dei conta do quão fui imbecil nos últimos 6 meses. Eu jurava que o Substack fosse só mais um lugar incomum, um lugar que não me comportava. Até que eu lembrei de algo que só aprendi depois, adulto. E algo que ainda tenho que me esforçar constantemente pra lembrar.

Eu também sou parte daqui.


É um processo muito complexo se convencer disso. Primeiro porque quem é de fato parte faz questão de te demonstrar o tempo todo que você não é como eles, não fala como eles, não age como eles. Depois, por que convencido do argumento deles, você passa à achar que é de fato diferente. Que aquele é mais um lugar que não te cabe. Desiste sem nem mesmo tentar, sem nem mesmo dar a chance de ver outro argumento. É tão comum ser expulso e rejeitado de lá que você simplesmente aceita, da meia volta e se põe à ir embora. E é nesse ímpeto inicial que 90 % das vezes você desiste.


Se passar por essa fase, aí você tem que vencer o estranhamento. De fato, para o bem ou para o mal, você não é mesmo como eles. O seu mundo seus referenciais, suas noções, tudo difere, diverge, discorda. E aí vem a luta de tentar achar o ponto em comum. E bem, quase sempre há um. E se não houver, você tem de criá-lo, ali, na hora.

E foi assim que as duas da manhã de uma segunda-feira eu criei uma ferramenta que exporta meus textos em Markdowns pra essa plataforma e os torna legíveis. Afinal, se o Substack não responde mais minhas solicitações de suporte, não lê mais meus e-mails e me ignora no Twitter, bom, eis mais um lugar que eu vou tornar comum na base da força. Ou quase isso.


Daqui pra frente vocês podem esperar textos meus aqui de vez em quando, na boa e velha ordem incomum de publicações

que já sigo a quase 15 anos na internet. Mas as vezes vai ter, prometo.

E por Fim, Minha Dica da Semana:


Roteiro Pra Aïnouz, Vol. 2


Esse álbum do Don L está na minha cabeça já a alguns dias. Da primeira vez que o ouvi ele me marcou mas não foi tanto assim. No último sábado decidi o ouvir novamente por completo e, bom, num mundo justo ele seria um dos melhores e mais hypados discos de 2022. Coloque seus melhores fones de ouvido, sente no seu canto mais confortável da casa e se permita ouvir esse álbum do início ao fim. E me agradeça depois.

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