O Fantasma do Natal Passado

E do futuro também

Sabe quando você está em um ambiente desconhecido, cheio de pessoas desconhecidas e por mais que tente, não consegue achar nenhum elo comum entre si e os demais naquele ambiente?

É exatamente assim que me sinto em natais desde que me entendo por alguma coisa. E por natais entenda-se toda essa época entre o 20 de dezembro e o 5 de janeiro onde as pessoas mudam seu jeito de ser e o mundo parece mudar um pouco sua forma de funcionar.


Quando Criança;

Minha mãe é testemunha de Jeová desde que completei 5 anos. Desde então não haviam festas de aniversário minhas ou da minha irmã, nada de comemorações no dia das crianças, nada de ano novo e ou natal. O único feriado válido era o que a própria religião chama de \”Comemoração da morte de Cristo\”, que é um evento onde eles se reúnem para celebrar o supracitado evento \”Não por ele ter ocorrido mas sim por seu simbolismo, apesar do nome ser dúbio e deixar tudo curiosamente contraditório\”, e apreciar uma bandeja com um pão e uma taça de vinho passando.
Sim, o cristianismo das Testemunhas de Jeová é tão chato que para 99 % das pessoas apenas é permitido ver a bandeja com a taça e o pão passar de mão em mão. Apenas membros superiores da congregação podem beber do vinho e comer do pão.
Sendo mais específico, dentro das testemunhas de Jeová existe um grupo chamado de \”Os 144 mil\”, que é teoricamente um grupo de pessoas que governará com Deus quando seu reino voltar. A estes são impostas regras específicas, padrões de vidas específicos e, bom, estes podem comer do pão e beber do vinho.
Normalmente reuniões da comemoração da morte de Cristo reunem todas as congregações de uma mesma cidade e ou distrito, e costumam colocar num mesmo ambiente coisa de duas ou 3 mil pessoas. Mesmo assim, e mesmo tendo sido frequentador da igreja por 9 anos e quase tendo ido parar nesse grupo aí, só em uma das reuniões houve alguém que comeu do pão e bebeu do vinho.

Sendo assim, não tenho as memórias comuns que as pessoas tem sobre fins de ano animados na casa de parentes, com muita comida na mesa e bebida nos cornos do tio que tira a camisa lá pelas 7 da noite, começa a falar putaria lá pelas 8 e jaz no sofá as 10 vencido pelas 34 latinhas de cerveja que bebeu.

Aí vieram as festas de escola. E bom, era uma chance do \”ainda Testemunha de Jeová Jonas\” dar suas escapadas. Mas bom, confraternizações da escola envolviam trocar presentes. E eu precisaria pedir dinheiro a minha mãe, que negaria. Eu então juntava todo o dinheiro que me era dado ao longo do ano, mas bom, eu era de família pobre, e não me era dado muito. E pior, durante quase toda minha vida escolar frequentei ambientes que eram compartilhados por pessoas de maior e muito maior poder aquisitivo. Então era uma vergonha desgraçada, sempre.
Aí lá pelos 13 anos comecei a só tentar fugir disso mesmo, não dava mais, os fins de ano já tinham me perdido.

Já quando jovem e já desfiliado das Testemunhas de Jeová, eu até poderia ir para a casa de amigos e passar a seia com eles, mas me sentia desconfortável porque bom, eram as famílias deles. Rolavam assuntos internos e, bem, eu me sentia lá como no primeiro parágrafo da newsletter. Isso sem contar que em quase toda a adolescência eu estudava muito longe de onde morava, então todo e qualquer tempo para soninho era preenchido com soninho.

Aí veio meu primeiro namoro sério que durou 8 anos, mas que bom, nos natais a família dela viajava e era quando ficávamos juntos, na casa vazia. Até havia algum esforço dela em produzir algo, mas normalmente virava só nós dois pelados e algumas garrafas de vinho. E acho que não é bem isso o tal do natal.

Se for me convidem.


A questão é que durante todas as fases iniciais de meus processos de formação natais nunca foram uma grande coisa. Era o momento em que meus amigos formulavam e viviam novas histórias e eu no máximo bebia com minha então namoradinha enquanto imaginava o que acontecia na casa dos vizinhos barulhentos que xingavam o tio que tirou a camisa as 7 da noite e que agora as 11 ocupava todo o sofá, se negando a ir deitar na cama como eles pediam aos berros.
E apesar de preferir ouvir os grunhidos e

gemidos da namorada, quando nos saceávamos daquilo a casa dos vizinhos parecia mais cheia,

mais animada.

E Aí vem o trabalho;

Como tudo o que há e por algum tempo há de haver no mundo, o capitalismo tem o tom de piorar quaisquer situações. Então, já no meu segundo ano de namoro, eu entrava também no meu primeiro emprego, e aí vinham as famosas confraternizações de fim de ano. Confraternizações entre pessoas que se odeiam, num ambiente que odeiam e numa vida que odeiam. Era a pior versão de cada um num lugar que se esforçava para ter o pior de cada um.

Como resultado, nunca fiz muita questão de disfarçar as decepções de ganhar roupas 3 ou 4 números menores que os meus ou presentes inúteis enquanto eu mesmo já cheguei a gastar metade do meu salário para dar algo que sabia que a pessoa precisava.
Se elas faziam pouca questão, bom, eu fazia menos ainda.
E isso sem contar nas armadilhas corporativas que eram as festas com bebidas, ambientes com muita bebida disponível e nenhuma bebida realmente podendo ser consumida. E nessas horas, o capacitismo de todo mundo aflorava, afinal, como poderia um cego beber, não é mesmo?


Como fruto disso e também de tudo o que descrevi anteriormente, fui me tornando ainda mais vazio para essas datas e para todo esse momento. E aí, óbvio, cometia meus erros próprios.


Ora: Pessoas gostam de pegar suas férias no fim de ano. É a época mais concorrida de qualquer empresa. Então, lá por novembro, alguns já começavam a gritar e choramingar por seus 10 ou 20 dias de paz do capitalismo em dezembro. Enquanto isso, julgando-se extremamente contraventor e bandoleiro, Jonas anunciava aos 4 ventos do RH que estaria disposto a trabalhar em dezembro. Afinal, em geral havia compensação financeira e, bom, mesmo se não houvesse, a mera percepção da empresa vazia, dos transporte públicos vazios e do mundo de São Paulo vazio de pessoas já me animava.

Só que:

Na prática, o que acontecia era que junto com pessoas de empresas, produtores de conteúdo também tiram férias no fim do ano porque bom, são seres humanos. E nessas, os 60 podcasts semanais do feed viravam 2 ou 3. E isso mal matava o primeiro transporte. As ruas sem som eram extremamente melancólicas. Alguns restaurantes fechavam e, dentre os que não fechavam, a comida parecia ser feita com muito menos vontade que o hhabitual. Pouco entretenimento, pouco alimento, poucas opções, muito vazio.

O mesmo vazio de quando era criança e ouvia os vizinhos se divertindo enquanto em casa jantávamos como se um dia comum fosse, o mesmo vazio de quando adolescente enquanto ouvia os amigos se divertindo e sentia o toque macio do travesseiro, o mesmo vazio do jovem adulto Jonas que tomava banho para limpar-se dos resquícios do coito sexual de a pouco, o mesmo vazio de quase sempre.


E foi nessas que em 2016 pela primeira vez em um 22 de dezembro fui para uma praça perto do trabalho, abri um bolo de prestígio que comprei na única doceria aberta na região, e pela primeira vez na vida chorei de ódio do natal. E bem, quem dera hoje chorar comendo um bolinho de prestígio.


De lá pra cá só piorou: Foram 5 natais sozinho \”Completamente sozinho\” e um muito legal bebendo com amigos, mas que jamais se repetirá pois dois deles casaram.

Até 2019 eu até tentava fazer alguma coisa gostosa, mas, bom, sou um só, e por mais que coma muito, não adianta preparar 3 ou mais pratos, não vou comer tudo isso. Então acabei aderindo só a opção mais deliciosa e autodestrutiva, que é muito churrasco e muito álcool.

Mas bom, 2022 segue sendo o pior ano de minha existência e até dia 24 estarei tomando um antibiótico fortíssimo, fato que me impedirá de consumir álcool até dia 26. Então mesmo nisso estarei para trás esse ano.

E como se já não fosse o bastante, já à alguns meses venho esgotando diariamente minhas opções de entretenimento. Quem diria que não sair de casa nunca e pra nada me faria ficar assim, né?


Então agora, quando todos os produtores de conteúdo começam a entrar de férias, bom, agora sim começa a voltar o silêncio, e com ele os questionamentos, e por sua vez o tal do vazio.

Talvez nunca ter tido os tais natais clássicos ou festas de fim de ano clássicas me torne uma pessoa pior. Mais vazia, pessimista, sem propósito. Afinal, imagine a alegria simplória de uma pessoa cuja única meta para o fim do ano é unir-se com amigos, beber e comer o máximo possível e rir de tudo e do nada. É uma meta simples, próxima e, bom, que não tenho em igualdade.

Mas talvez agora já seja tarde demais pra mim também. Não sei se posto num ambiente desses saberia me comportar como um deles. Não sei se saberia vestir minha máscara de festeiro e preparar drinks suspeitos sem camisa enquanto viro calmamente espetos em uma churrasqueira.

Independentemente de quaisquer conclusões que podem vir a ser tiradas desse texto, e que eu ainda não as tenho, gostaria de deixar registrado meu ódio público e grandioso pelo natal, ano novo e todo o clima de fim de ano que se promove desde já. Sou contra tudo isso que tá aí.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima