Os 4 Cavaleiros do apocalipse em nova edição, agora num papelãozinho
Olá querido leitor. Sentiu minha falta?
Calma, calma. Antes de você responder, lembre-se que essa newsletter é uma via de comunicação individual e quase única. Ou seja, não, não precisa ser sincero. Eu sei que não sentiu, deves até ter estranhado esse e-mail aí hoje na sua caixa de entrada. Mas para todas as finalidades recreativas fingiremos que sim daqui pra frente ok?
E eu sei que você pode me responder que não sentiu, mas não precisa. Sério.
Eu adoraria ter uma boa desculpa pra todos os meses sem newsletters. Pra alguém que escrevia quase quinzenalmente é um mural da vergonha redigir este texto enquanto lembro que o último texto foi com o Dólar a R$5,20. Mas a verdade é que só não houveram mais textos porque o autor desta porcaria intermitente andou ousando viver.
Sim, eu vivi. 4 dias. E para cada dia em que me ausentava de minha rotina hercúlea de trabalho tinha que compensar em 2 ou 3 a mais de trabalho. Ou seja, justamente os dias da newsletter.
Esse é o resultado de um homem com medo de seus empréstimos.
Enfim, dadas as explicações, vamos à aventura de hoje:
Prólogo:
Fui uma criança pobre. Posteriormente um adolescente pobre e durante algum tempo um adulto pobre. Na verdade ainda sou pobre. Mas andei subindo alguns pequenos degraus na escada cruel do capitalismo.
Justamente por isso demorei à ter contato com coisas que para a maioria das pessoas com quem convivi eram comuns.
Ainda não sei quais são todos os chocolates por nomes, embora saiba muito bem o que é um moranguete. Vez ou outra me confundo ao pensar em alguma marca de moda e, sobretudo, quase sempre que busco provar ativamente algo dito \”chique\”, sinto que estou olhando o sol pela primeira vez.
Mesmo assim, nada me é tão estranho quanto o micro-ondas um dia foi.
Meu primeiro contato com um foi aos 7 anos, na casa de um amiguinho de escola. 2 anos depois minha família herdou o do meu avô, que veio a falecer.
Uma máquina furiosa de 30 litros da Brastemp com 9 botões físicos e duas opções de pratos giratórios, algo que até onde sei era exclusividade daquele modelo. Um aparelho possante que como todo bom aparelho possante dos anos 2000 era dominado pela criança da casa, vulgo eu.
Sim, mesmo sendo cego eu era o mestre do micro-ondas.
Decorei todos os menus, os layouts, as funções, as interações, os tempos de preparo.
Sabia certinho quanto tempo levava para que a lasanha de 1 KG da perdigão formasse casquinha, aprendi a derreter as barras de cobertura para bolo de chocolate que minha mãe comprava e nos dizia que era o mesmo chocolate da Nestlé só que maior \”Não era\” sem deixar gosto de queimado, e tive como meu maior feito adaptar a receita de bolo de mandioca com coco da minha mãe que no forno levava 45 minutos para 17 minutos e 30 segundos de micro-ondas em iguais proporções.
Tudo mediante muitos testes e o rigor de qualidade que uma criança de 9 anos que comia tudo o que via e ouvia pela frente teria.
Não raras foram as vezes em que fui interrompido em alguma brincadeira na rua para que eu próprio fosse por algo no micro-ondas para a família. E lá ia eu, com o espírito de um herói que domina uma besta implacável.
Os anos se passaram, as pessoas se acomodaram com só apertar o botão redondo e branco da besta e fui escanteado da minha função. Eu mesmo me escanteei. Não gostava mais de ser interrompido nas brincadeiras, não tinha tempo, estava pouquíssimo me fodendo. O que outrora cheirava como novidade cheirou como queimado num dia pela manhã. Lá se foi a besta possante.
Posteriormente o Brastemp foi substituído por outro Brastemp, só que menor, menos capaz, menos possante. Um equipamento que não inspirava curiosidade ou orgulho. Que não tinha 9 botões grandes e táteis, mas sim um painel touch que demandava força no pressionar e não funcionava com as mãos molhadas.
Foi-se o encanto, veio o utilitarismo. O capitalismo venceu mais uma vez.
Mesmo eu foquei apenas em decorar qual era o botão que acionava a máquina por 30 segundos e, bom, os preparos que se danassem, era pra ser prático, não bom. Optou pelo micro-ondas, o que lhe espera não é o bom, é o bom o suficiente.
Findou-se a era.
A saga:
Tenho por hábito sempre que vou fazer compras online de Mercado dar uma passada na aba das promoções. Algo que talvez tenha herdado de minha mãe, talvez até de forma inconsciente.
Os itens lá presentes quase nunca são coisas que preciso, na maioria das vezes são sequer coisas que conheço ou para as quais ligo. Mesmo assim, é algo que faço.
Hoje, em mais uma compra online, fiz o mesmo ato acima descrito.
Shampoos vagabundos cheios de sais e parabenos, sabonetes horríveis, uma carne que provavelmente estava lá pra vencer. Tudo era e parecia ser ruim, inadequado. Talvez barato pra quem precisa, mas, bom, eu não precisava daquilo.
Até que me deparei com um item especial.
Pipoca para Micro-ondas Yoki \”MANTEIGA DE CINEMA\” 100 G, R$3,17
E vejam bem:
Isso me despertou alguma memória antiga. Lembrei-me de um dia em que vi uma dica no programa da Ana Maria Braga de usar o famoso saco de pão para estourar pipocas comuns no Micro-ondas. Não lembrava exatamente como funcionava, só me lembrei disso. E logo em seguida muitas dúvidas vieram à minha cabeça.
Será que é a mesma coisa?
Qual a diferença da Manteiga de cinema pra comum?
Dado que um saco de milho de pipoca custa 5,34 500 G, porque tão cara esta bosta?
Vale a pena eu, que nem gosto de pipoca, comprar isso?
E quando dei por mim já era tarde demais.
Pipoca para Micro-ondas Yoki Manteiga de Cinema 100G foi adicionadoao seu carrinho
Eu tinha que fazer isso, eu tinha que descobrir isso. Eu não podia ter dúvidas. Eu precisava de clareza, de elucidações, não de dúvidas. E 3 reais, vejam bem, 3 reais. Quem dera ao menos todas as minhas dúvidas fossem resolvidas à 3 reais cada uma.
E senhores, eu fiz:
O Confronto:
Como sempre faço quando recebo compras de mercado, lá fui eu tentar desfazer os malditos nós desumanos que os embaladores dão nas sacolas. Sério, eu sei que sou burro pra abrir coisas que tem aquelas aberturas anti-crianças, mas esses nós são sacanagem. E não vou também inutilizar uma sacola novinha, não da.
5 ou 10 minutos depois Lá estava eu com 8 sacolas abertas sobre a mesa. Sim, eu demorei tudo isso.
Tirei os itens de forma ordenada e, quando jurava já ter tirado tudo, dei de cara com algo meio dobrado, parecia um envelope dentro de um plástico de embalagem. Não lembrava o que era aquilo, nunca tinha visto, menos ainda comprado.
Como sempre desembalo coisas com o Google Lens ao lado, apontei para a embalagem e logo recebi a afirmativa:
Pipoca para Micro-ondas Yoki
Ok, ela de fato existia, era real. Ela estava ali. E aquilo realmente ia acontecer.
Cuidei primeiro de guardar tudo, organizar tudo, colocar as sacolas recuperadas no saco de por sacolas. Daí fui pro computador responder uma notificação e deixei a pipoca lá, um tempo.
Quando me lembrei novamente dela fui para o confronto.
Primeiro li todas as dicas da embalagem. Eu nunca tinha feito aquilo, era necessário. Eu não queria pipocas queimadas. Embora não goste de pipocas, eu já as tinha comprado, tinha por obrigação comer tanto quanto possível. Assim aprendi, assim sou.
Depois fiz os devidos preparativos. Preparei uma limonadinha e coloquei pra gelar, coloquei uma música animadinha e peguei uma tesoura para cortar o pacote de … Ops!
Só aí que lembrei que a Ana Maria dizia que o papel de pão fazia as vezes do papel do pacote de pipoca lá em algum canto de 2003, e aí me dei conta do erro que estaria por cometer.
Na dúvida, fui na internet pesquisar se tinha um modo de preparo correto, e de fato tinha. Quer dizer, tinha um pra pipoca doce da Yoki, mas me baseei nele. E tendo em vista que a pipoca doce tinha de derreter algumas coisas, tirei 30 segundos dos tempos.
Ficou assim:
Abra as duas abas do envelopinho, colocando a parte central no devido centro do microondas, com uma cetinha que tem lá pra cima. \”Eu coloquei pra qualquer lado e foda-se\”.
Coloque para estourar durante 1,30 a 3 minutos, dependendo da potência do seu aparelho. \”Bora de 2, na dúvida\”.
Desfrute (É, difícil.).
E lá fomos.
Os primeiros estouros demoraram bastante, só foram ocorrer lá pros 35 segundos. Imediatamente minha cozinha foi tomada por um cheiro de produtos químicos diversos e malignos com os quais humano nenhum que viveu durante os tempos da bíblia teve contato. Pensei em me arrepender, mas já era tarde.
Nos próximos 50 segundos o som que ecoava pela cozinha era o do ploft ploft dos milhos dentro do saco. Numa atitude burra e desesperada interrompi o ciclo do Micro-ondas com medo de que o saco tivesse arrebentado lá dentro. Que nada, ele tava infladinho. Coloquei mais uns 20 segundos e deixei o mundo seguir seu rumo.
Eu já estava entregue.
Fim do ciclo, tiro o pacote, deixo esfriar por uns 2 minutinhos.
Munido de um copaço de 600 ML de limonada, alguma disposição e 0 fome causada pelo cheiro químico ofensivo lá fui eu, ao ataque do pacote.
Primeiro de tudo é preciso admitir. O negócio é realmente prático.
Em uma época onde pessoas tem cada vez menos tempo para o lazer, é curioso pensar que até isso se pode otimizar. Abrir o negócio não levou mais do que meio segundo, e já estava tudo devidamente acomodado numa embalagem que servia também como pote, ou envólucro, ou contenção, sei lá. Óbvio, o cheiro esquisito e o gosto esquisito são parte do preço que se paga ao capitalismo por uma pipoca que fique pronta em 2 minutos e não em 5, como qualquer outra de panela. E claro, o capitalismo não te conta, mas ele também te rouba o prazer do preparo. Afinal, a vida não é sobre os fins, mas sim sobre as jornadas.
Deliberações a parte, continuemos.
Ainda meio reticente com o cheiro esquisitíssimo, tiro a primeira unidade de milho estourado do saco. Para, o cheiro, o cheiro estranhamente não é o mesmo do cheiro que está na cozinha. Eu sei lá.
Pior ainda, ele estourou por completo.
Como já lhes disse, nunca fui fã de pipoca. E parte disso se deve ao fato de que quando era criança a pipoca em casa era feita numa panela comum, com óleo. E embora já cozinhasse, demorou muito até que eu tivesse permissão para usar o óleo. Eu poderia refogar, chapear, cozinhar. Óleo eu tinha que pedir. E eu odiava pedir. E bom, para além disso, no óleo muitos milhos não estouravam. Queimavam, carbonizavam, mas estourar nunca.
E esse milho estava inteiro. Um grandioso exemplar de milho de pipoca estourado.
Mordi.
o gosto não era ruim. Um pouco melhor do que o que me lembrava de já ter comido, muito melhor do que o cheiro da cozinha indicava.
Veja bem: Não era bom, mas não era ruim.
Assim segui comendo milho a milho da embalagem, em quantidades cada vez maiores sobrepostas nas mãos. E sem perceber cheguei ao fim do pacote.
Não feliz, não satisfeito, não contente. Apenas resoluto. Eu definitivamente tinha comido uma pipoca.
Aquilo definitivamente não tinha gosto de manteiga. Muito menos de manteiga de cinema, seja lá o que quer que seja uma.
Na verdade pouco era diferenciado de qualquer tempero da pipoca além do excessivo e onipresente sal. Minha língua quase ficou cortada, como a de uma criança que se afoga em salgadinho por duas horas e fica com o céu da boca parecendo um caminho de rato. Mas eu só comi 100 G de uma pipoca.
O gosto da pipoca se esvaía a cada novo gole na limonada, mas o cheiro químico satânico abissal continuava na cozinha, continua mesmo agora, 3 horas depois que fiz a pipoca. Já abri janelas, liguei o ventilador lá, e ainda tem um fundinho de enxofre do submundo no ar.
E isso é tudo o que pude concluir da pipoca de micro-ondas Yoki. Ela existe, ela funciona. Com o mínimo possível, da forma mais preguiçosa possível, como tudo no capitalismo.
Eles pegam o mesmo milho de pipoca do pacote de 500 G e separam uns 95 G,afinal tem os temperos. Criam o tempero mais artificial e simples possível, colocam isso num saco de papelão que não deve custar mais de 3 centavos e lá está, o capitalismo em sua forma tutorial.
Imagine-se na seguinte situação:
Você tem 3 horas de folga do seu trabalho. Sim, só 3 horas, afinal, o restante vais ter que usar pra lavar, cozinhar pra semana toda, fazer qualquer outra coisa que não trabalho.
Nesse tempo, não da pra ir à um cinema, comprar um ingresso, pegar uma pipoca inflacionada, ver um filme e voltar pra sua casa. Então você parte pra pior economia que existe, a de tempo.
Troque o ir ao cinema por ficar em casa. Troque o cinema em si por um filme vagabundo do Netflix cujo maior percentual do roteiro é gerado por uma IA com o único objetivo de gastar o seu tempo, não fazer algo dele. E você troca a pipoca inflacionada mas com algum tempero do cinema por uma pipoca de micro-ondas que lhe custou 3 reais e o trabalho de descer para buscá-la das mãos do entregador subempregado que teve de te esperar por 2 minutos na chuva.
Pronto, lá se foram suas 3 horas.
Você até dirá pra si mesmo que fez algo do seu tempo. E de fato, parecerá ter feito. Mas nada ocorreu de fato. O filme não tinha sabor, a pipoca não tinha roteiro, tudo cumpria um papel finamente específico. Te fazer parecer estar menos cansado, menos entediado, e não o deixar de fato menos cansado e menos entediado.
E mais uma vez a rotina de trabalho chega. E por conta da pressão, da adaptação, do esgotamento, você torna à sonhar com as 3 horas em que poderá novamente dispor de uma pipoca de micro-ondas, um filme genérico e quem sabe dessa vez a diversão venha até você.
Enquanto isso, quem paga seu salário está lá no cinema as duas da tarde na cadeira que joga aguinha, saboreando uma pipoca gigantesca que custou o seu dia inteiro de trabalho, junto com dois copos colossais de refrigerante que tornar-se-ão chá antes do meio do filme.
Perco eu, perde você, vencem eles.
Pipoca para Micro-ondas Yoki é literalmente a derrota embalada num papel bonitinho.
Pra Tirar o Gosto Ruim
Todo ano, em Junho, o pessoal do Tine Desk Music (Um canal de música e suas derivações) faz um conteúdo especial para o Youtube, apenas com bandas e artistas negros.
O desse ano foi bem especial, mas nos outros anos a coisa também foi bem boa.
Você pode Conferir tudo aqui.
E por agora é só. Vou lá espirrar alguma coisa na cozinha pra me livrar desse cheiro tenebroso enquanto reouço o Tine Desk do Tank.
