Até sobre coisa séria minhas Newsletters são tristes
Ual, quanto tempo faz desde a última newsletter, né
Confesso que não houveram novas pela minha mera eterna síndrome de impostor. Normalmente escrevo bilhões de rascunhos, acho todos ruins e os apago numa noite qualquer em que esteja me sentindo pra baixo. Tem havido bastante noites assim, aliás.
Mas, como essa newsletter não é só um lugar pra falar do Jonas, hoje vim falar sobre algo que ocorreu bem debaixo do seu nariz, ao longo dos últimos 10 anos, e que nos prejudicou e acima de tudo nos prejudicará muito.
A Morte da Internet
Mas como assim a internet morreu
Calma, meu nobre internauta, calma. Não morreu a conexão a internet, não a interação de computadores através de redes e suas dezenas de protocolos, não aquilo que lhe permite enviar e receber dados. O que morreu foi o conceito de internet. Aquilo que entendemos como um lugar separado de nossas vidas pessoais, um lugar onde podemos encarnar personas, ir para além daquilo que o mundo nos permite ser.
Mas, para que eu te explique melhor, vamos dar uma voltadinha lá no passado.
No início da internet, tudo era sobre compartilhamento. Compartilhamento de conhecimento, de arquivos, de ideias, de mensagens, de experiências. Desde as redes internas acadêmicas como a arpanet, passando pelas promissoras redes interligadas como o Projeto Ciranda da Embratel, os primeiros ambientes de BBS, chegando até mesmo às primeiras redes sociais, tudo sempre era sobre compartilhar, fazer parte, misturar-se com iguais e diferentes.
Compartilhavam-se jogos, músicas, textos, mensagens, roteiros de viagens, ideias. Tudo de forma espontânea vinda de cada usuário.
Nos anos 90, se o usuário tinha um álbum musical, ele podia extraí-lo, convertê-lo para o formato digital e postá-lo na rede. E mesmo que de forma lenta outras pessoas o baixariam.
E não falo isso apenas baseado em nostalgia. Essa era a ideia por trás da internet. Essa era a ideia por trás dos softwares que forneciam conteúdo na internet. Pelas pessoas que distribuíam esse conteúdo, pelas que consumiam e compartilhavam, um verdadeiro efeito em cadeia que invadiu a sociedade.
Contraculturas como o Open Source e o software colaborativo só existem graças a internet e sua simplicidade de integrar repositórios, pessoas, forças de trabalho. E os resultados desses projetos são usados até hoje por milhões de pessoas.
Foi inclusive a internet que houve outrora que permitiu que haja a de agora. Soluções comunitárias são grande parte das infraestruturas usadas por milhares de empresas atuais. Linguagens de programação, frameworks, protocolos, integrações, adaptações e correções em geral. É literalmente uma estrutura fundamental baseada em colaboração e compartilhamento.
Mas isso tudo nos foi roubado nos últimos 10 anos. E mais do que roubado, nos foi ocultado.
E não apenas pelas regras de negócios das empresas que agora coordenam e regem a internet, mas também por suas novas formas de interações e integrações sociais.
O compartilhamento livre de ideias deu lugar ao individualismo do reconhecimento de mérito. Os espaços públicos igualitários foram trocados por pseudo status atribuídos com base em número de seguidores, interações, pseudo influência social. Quantas vezes você aí que está lendo este texto não teve medo de interagir com alguém pelo número de seguidores que a pessoa tinha, ou mesmo não imaginou que jamais seria respondido?
Sai de cena o altruísmo de alguém que escrevia tutoriais de 5 ou 10 páginas sobre algo, entram em cena as plataformas que cobram dezenas de milhares de reais por cursos de horas que são estendidos apenas para que se encha o máximo de linguiça possível e se atribua um suposto valor agregado.
A internet deixou de ser um espaço democrático e tornou-se um espaço meritocrático. Status são atribuídos a quem tem méritos, e méritos são obtidos através de conquistas, conquistas essas que são quase todas vazias, sem qualquer significado, e sempre despidas de qualquer coletivismo.
Poucos projetos se iniciam na internet sem que haja um propósito de torná-lo um negócio. Tudo gira em torno de economias, sejam elas o próprio dinheiro ou a economia da atenção. Se algo não render dinheiro ou likes o suficiente, morre. Deixa de existir. como se jamais tivesse sido algo um dia.
A proximidade e a conexão contínua à internet nos tornaram dependentes dela. Ninguém mais se conecta à internet, se está conectado 24 horas. Não há um horário específico para o acesso, acessa-se o tempo todo, de todos os lugares, por múltiplos dispositivos. É uma sobrecarga constante que nos torna competitivos, temerosos e nos deixa em eterno estado de alerta.
E mesmo o convívio online mudou. Antigamente traziam-se para o mundo real as conexões da internet. Marcavam-se eventos de grupos ou espaços, pessoas estreitavam suas relações, criavam-se vínculos físicos. Hoje em dia tenho certeza que sua lista de amigos online é maior que a de amigos offline.
Temos até mesmo uma nova doença, o F.O.M.O, que nada mais é do que o medo de não estar na internet e perder algo importante. E claro, quando tudo é importante, nada o é de fato.
A internet é hoje em dia um lugar talvez menos igualitário do que a própria sociedade. E tudo isso é promovido pelas 10 ou 20 empresas que a regem. Ao invés de um grande mar de informações, pessoas vivem em grandes ilhas e dedicam tempos específicos à cada uma. X minutos de Instagram, X minutos de Tiktok, X minutos de youtube. Ninguém mais experimenta um site novo, uma nova ideia, toda a nossa atenção é dividida e competida entre esses e outros grandes players do mercado. E simplesmente mais do que nos acostumamos com isso, aceitamos até com alguma alegria.
E tudo isso para que empresas que não nos pertencem difundam ideias que não nos pertencem afim de gerarem um lucro que também jamais nos pertencerá.
A verdade é que a internet morreu e, para além deste doido que vos escreve, poucos se deram conta disso. Aquilo que crianças nascidas hoje experenciarão será de fato um mundo online, mas jamais será a internet, os valores jamais serão os mesmos. E mais do que triste, isso é desesperador.
Esse é o momento em que eu deveria propor alguma saída, alguma opção, alguma forma de contornar esse diagnóstico. Mas sinceramente não vejo nada assim. Não há mais qualquer competitividade possível.
A Guerra dos Navegadores que foi estendida pela primeira década deste século tornou-se um massacre. Os navegadores nativos vencem com muita folga soluções como o Firefox, e, se considerarmos o fato de que o primeiro, terceiro, quinto, sexto e sétimo lugar na Lista de Navegadores Mais usados em maio de 2023 são baseados no Motor de renderização Chromium, aí a coisa fica ainda pior e ainda menos variada. Softwares gratuitos e de código aberto são descontinuados um por um, seja por falta de uso ou baixa rentabilidade para os desenvolvedores.
Projetos que dependem de manutenção voluntária tem cada vez menos atualizações e atualizações cada vez menos contundentes. E os que permanecem firmes são os que são absorvidos por empresas, normalmente na ideia de absorção de conhecimento daqueles que mantém o projeto. E mesmo no espaço da pirataria a conveniência tem vencido a disponibilidade e a gratuidade de conteúdo. A Morte do Rar-BG, o Esvaziamento do The Pirate Bay e a grande diminuição do uso do protocolo de Torrents em si, tudo isso são sintomas de uma internet mais monetarizada, menos colaborativa e mais individual.
Quem tiver uma grande história na internet recomendo começar à escrevê-la agora. Livros póstumos vendem bem logo após o funeral.
Pra te desentristecer;
Todas as reflexões que compartilhei contigo aí acima vieram dos momentos em que passei ouvindo o podcast Primeiro Contato, podcast esse que lhe recomendo muito. Produzido pelo Rique o podcast está na sua segunda temporada e, dessa vez nos conta a história completa da internet no brasil. Desde os primeiros de interação aos dias atuais, o podcast vai abordar tudo o que a internet foi, é, e talvez possa ser, sei lá, tá no terçeiro episódio ainda. Se você gostar do formato do podcast (\”Duvido não gostar\”, tem a primeira temporada aí também, que é sobre Jogos e computadores no Brasil, e essa ficou bem foda. O link acima te leva pro site do Podcast, onde vais encontrar o link pro Spotify \”Não ouça podcasts no Spotify e não mate a internet\”, pro feed e pros outros players aí num geral. Vai lá, vais curtir.
E por hoje é só pessoal.
Abraços do seu amigo da internet, e até a próxima newsletter. Se a ilha do Substack assim permitir.
