Memórias de Outro Eu

Se é que ainda sou aquela pessoa.

Mais uma noite de trabalho tinha fim. Como sempre, mais uma noite de trabalho muito mais longa do que seria aceitável à qualquer um, especialmente alguém que inicia seus trabalhos logo pela manhã.


Normalmente durante os dias faço algum esforço pra manter a mente sempre ocupada.

Se estou trabalhando deixo algo rolando no Youtube. Se estou trabalhando em algo muito sério o Twitter em segundo plano serve como distração. Se vou almoçar ou fazer exercícios ou preparar o almoço, podcasts. Se vou ficar com os gatos, bom, gatos. Sempre fazendo algo, sempre com a atenção em algo.


Por tanto, naquela noite queria tentar algo diferente. Fazer algo que à muito já não fazia e, ou se fiz, fiz menos do que deveria,afinal, nem me lembrava mais.

O cabelo ainda molhado do banho me caía os ombros quando desliguei a última luz. O cheiro de produtos de banho ainda invadia meu nariz quando desliguei o último eletrodo-doméstico que poderia fazer algum som. Agora era só eu, a fonte dos gatos, um mínimo ruído do computador e fim. De forma curiosa até os gatos se aquietaram e se ocuparam longe, com suas formas e sons silenciosos.

Sentei no puff que à tanto não sentava que nem lembrava do quão confortável ele era. Apoiei as mãos ao lado do corpo. Fechei os olhos para que nem minha pouca visão atrapalhasse.

Respirei fundo.

Mais uma vez

E veio:

1. Lembrança daquilo que não sou.


Naquele dia havia marcado com uma amiga de ir à um bar. Quase não saía de casa e, se não fosse por esses passeios sairia menos ainda. A pandemia me desacostumou a ser só, me fez ter medo, vergonha. Então usei aquela oportunidade.

As 9 nos encontramos, uma hora depois um ex namorado dela nos encontrou. O clima era amistoso. Fizemos piadas, dividimos cervejas, migramos de bar quando nos demos conta de que pagávamos caro demais por uma bebida digna de menos.

Caímos num bar extremamente simples cuja trilha sonora era só o regae jamaicano. Não atoa, o cheiro de mato queimado também era facilmente notável no lugar apertado, inclusive nos garçons, atendentes e nas mesas. Rimos daquilo tudo, nos confortamos com litro de cerveja à 10 reais e porção gigantesca de batatas fritas por 25. Afinal, a fome também fazia parte daquele lugar, era uma consequência de tudo o que lá havia.

O ex casal no entanto começou a se estranhar. O clima foi ficando pesado e, já imaginando o que poderia vir, tentei usar de todo meu poder de pacificação.

Aproveitei idas no banheiro para conversar individualmente com cada um, usei o velho e falho truque do amigo abandonado na noite com ambos juntos, apelei para todas as táticas conhecidas e viáveis. Mas o anúncio do fechamento do bar rompeu a fina fita que eu usava para tentar amarrar minhas companhias da noite. E bom, maconha também da sono, então até entendo porque é que fecharam o bar uma da manhã.


Já na rua as indiretas do ex casal viraram diretas, acusações mútuas, uma quase briga.

Em vão tento propor um novo bar, o que me é negado.


Faço então o papel do amigo sensato e chamo um Uber para ambos. Teoricamente ele iria com ela até a casa dela e de lá iria para a dele. Na prática não sei o que aconteceu, nunca soube, fiquei magoado demais pra perguntar.


Uma e 20 da manhã, eu sozinho numa das mais animadas ruas da noite paulistana.

Sem dignidade pra procurar algum outro amigo ou conhecido que por lá estivesse, sem coragem de voltar pra casa e dar por perdida a noite.

Passei um dos meus melhores perfumes, arrumei o cabelo, hidratei-a pele. Aquilo não poderia ser assim.

Num ato impensado começo a descer a rua Augusta em busca de um refúgio. Um bar não tão lotado como aqueles do alto, mas não tão vazio ao ponto de eu não poder beber por medo de perder órgãos para um homem rico do Sudão.

Primeiro quarteirão e nada, segundo e nada, terceiro também nada.

Na cabeça já me vinham lembranças de outros tempos em que descia aquela rua cheio de companhias, cheio de esperança. Na época, imaginava que se parasse num bar e pedisse um drink um dia receberia um cortejo de uma mulher, um bilhete e um drink, coisa de filme. Quem sabe talvez conhecer meu parceiro de negócios lá, ter uma conversa intelectual com alguém aleatório ou engajar numa canção desordenada com um grupo desconhecido. Coisas que efetivamente nunca fiz.


Amigos do meu grupo eram cortejados, um deles até fez uma parceria de negócios.

Nós só cantávamos entre nós mesmos e, mesmo sendo bem afinadinho, eu era tímido demais pra me destacar até dentre os meus. Traumas antigos.

Já ali eu notava que a noite sempre era diferente pra mim.



Agora eu era um homem sozinho, nem os amigos e colegas da época eu tinha. Já não tinha mais o vão sonho de ser cortejado, ficava contente se o garçom viesse sem eu precisar levantar a mão.

Até que de canto de meu único olho avistei o sonho. Um bar parcialmente cheio, mas com mesas visivelmente vazias. Um som de bilhar lá dentro, cheiro de porção e cerveja. Decidi que era ali.

Me aproximei de um funcionário da entrada, perguntei até que horas o bar ficava aberto e, tendo como resposta que até o nascer do dia, entendi que aquilo seria meu sonho.

Entrei, procurei a mesa mais isolada possível e me sentei.

Escolhi alguém que à minha pouca visão pareceria um atendente e, olha só, acertei. Pedi uma dose de vodka com gelo e só. Até o fim daquela noite beberia outras 11 ou 12 daquelas.

Dadas minhas possibilidades da noite até me permiti ter um fio de esperança.

Seria ali que eu seria cortejado num bar?

A parceria de negócios talvez?

Ou será que alguém se disporia em ouvir minha teoria sobre a impossibilidade matemática de viagens no tempo.

Sem me dar conta os pensamentos invadiram minha cabeça. Eu já havia pedido outra dose de vodka, e mais outra.

Numa vã tentativa de fazer parte do ambiente decidi me levantar e ir para perto de uma das mesas observar o jogo. Fiquei de uns 6 metros olhando, vendo a habilidade com que as pessoas acertavam a bolinha. O jogo era de um rapaz contra uma moça. Ambos esguios, ágeis, ambos competentes. O rapaz ganhou.

Quando voltei a mim me dei conta de que eu era um cabeludo esquisito de 1,90 olhando fixamente pra uma dupla que só queria jogar sua sinuquinha.

Dei uma tentativa de gole no copo de vodka já vazio, virei lentamente e voltei à minha mesa isolada, onde meus pertences ainda jaziam intocados.

Nem para ser roubado eu servia ali.

Sequei copo atrás de copo enquanto pensava em muita coisa. Na vida, nos sonhos, nas frustrações, naquilo tudo que eu não era. Em como eu era diferente daquelas dezenas de pessoas que ali estavam.

Em uma de minhas idas ao banheiro passei por duas moças que combinavam quem elas beijariam. Quase esbarrei num rapaz que se movia ao redor de sua mesa para tentar angular seu acerto à bolinha, causei espanto num outro jovem que disse ter notado quantas doses de vodka eu havia bebido, nem eu sabia naquele momento.


Na outra ouvi um casal convidando amigos pra sua casa, fiz uma finta engraçada ao redor da mesa \”Foi bem patético\”, cumprimentei um garçom que limpava uma mesa recém abandonada por seus ocupantes. Já era pra eu estar ébrio, e talvez eu até estivesse, mas não satisfatoriamente. Eu ainda notava o quão inadequado eu era naquele lugar.

De repente notei que só havia eu no bar. Eu e minha última dose de vodka, e uma garrafa de água gentilmente posta por uma garçonete. Sequei a vodka, sequei a água, fui até o caixa e paguei. Subi a rua até o metrô debaixo de chuva enquanto alguma música tocava nos fones. Fui atropelado na calçada pro um carro que saia de uma vaga no estacionamento, minha máscara caiu em algum momento no caminho, cheguei no metrô sem máscara. Nada daquilo parecia importar.

Eu só parecia não fazer parte do mundo.

Ganhei uma máscara de um dos funcionários do metrô, máscara que obviamente era pequena demais. Não importou muito. Voltei pra casa com algo que não me cabia no rosto me sentindo parte de nada, digno de me ligar à ninguém.

2. O Parque das Lamentações:


Ser criança tira quaisquer possibilidades de escolha. Onde seu(s) responsável(s) forem você também vai. Ainda mais quando se é uma criança que vem com um bilhete que fornece gratuidade no transporte público. E esse era eu.

Sempre que minha mãe precisava sair de casa eu ia junto. Mesmo que o assunto nada tivesse comigo. Mesmo que fosse algo estritamente pessoal dela. Pra ela eu era uma forma de economizar 5 reais de transporte, não importava se pra isso eu não passaria tempo com os amigos na rua ou em casa dormindo.

Como tentativa de compensação as vezes eu ganhava uma coxinha e uma tubaína. E as vezes uma ida no parque mais próximo. Nada de os dois juntos. Nada de ela me balançar. E se eu caísse do trepa-trepa \”Brinquedo de escalada\” apanharia depois.

Mesmo assim eu me contentava.

Meu parque favorito era o Chico Mendes em São Caetano.

Primeiro porque era um parque grande, com bastante brinquedos e vazio. Depois porque pra ir pra ele precisava passar por baixo da estação de trem, pela galeria do centro que tinha fontes d\’água e por ruas com calçadas largas. Por algum motivo eu gostava daquele caminho. Mesmo que morasse bem longe de São Caetano.

Numa tarde dessas de passeio eu estava brincando quando duas crianças se aproximaram.

Não sei que idade elas tinham, mas eram menores. O menino perguntou meu nome, a menina já foi apontando pro meu olho.

Eu que só tinha 6 anos já estava acostumado com aquilo. Expliquei da melhor forma que uma criança de 6 anos poderia, eles fingiram entender, começamos a brincar juntos.

Nos alternávamos no balanço, fomos no balanço conjunto, competimos no trepa trepa e eu me diverti empurrando eles escorregador à baixo. Corríamos de um lado pro outro.

O sol baixou, o vento diminuiu, nos cansamos.

Encostamos debaixo de uma árvore pra tomar fôlego.

A menininha tentou vir por trás de mim e tapar meu olho esquerdo com uma das mãos.

Como um boneco à erguie e a joguei no chão.

O irmão se indignou, veio pra cima de mim e muito facilmente também o derrubei.

Fomos afastados pelos pais deles. Ao longe ouvi a tentativa de bronca da mãe deles, enquanto eu era surrado pela minha.

Eu não parecia em nada com aquelas crianças.

Eu só tinha 6 anos e já sabia o que era ser cego, ouvia em casa que se me ofendessem ou me humilhassem deveria bater. E foi o que fiz. Não sabia o que estava errado nem o motivo.

Eu gostava dos meus amigos novos, não queria que eles tivessem feito aquilo. Eu ia naquele parque raras vezes, mas, quem sabe, eles pareciam ser dali, talvez numa nova ida eu os encontrasse, talvez repetíssemos aquela longa tarde de brincadeiras. Talvez.

Enquanto isso minha mãe me arrastava de volta pra casa.

Primeiro pelas calçadas largas, depois pela galeria com as fontes, depois túnel da estação de trem abaixo, depois no trem.

Eu me distanciava do mundo que construí nas últimas horas.

Eu não era parte dele.

3. Vazio:


Durante a semana eu trabalhava. Aos sábados via a namorada. Aos domingos normalmente descansava pra retornar ao trabalho durante a semana.

Naquele dia no entanto me sentia estranhamento disposto. Mas não sabia bem o que queria fazer ou como faria.

Mandei uma mensagem pra namorada convidando-a pra fazer algo, e fui recebido com uma negativa. Ela havia marcado uma tarde das meninas.

Consultei um ou dois amigos e, diante de suas negativas, decidi nem consultar os demais.

Vesti uma roupa leve, passei um perfume de sair e fui ao shopping.

Já ouvia tanto falar de bater perna, queria saber como era.

Eu tinha tempo livre, poderia comer na praça de alimentação, tomar um sorvete de casquinha.

Quem sabe parar em alguma loja e comprar algo legal, divertido, roupas até.

Entrei no shopping vazio.

Fiz a primeira volta tentando usar de minha pouca visão pra descobrir do que era cada loja.

Parei numa vitrine olhando pelúcias, até descobrir que eram bolsas femininas. Fiquei alguns minutos encarando joias de uma famosa rede joalheira que acho que nunca poderei comprar, até ser cutucado por um segurança que quis saber se estava tudo bem \”Acho que ele pensou que eu poderia estar ali planejando um roubo\”.

Entrei numa loja de móveis de gente rica e fiquei observando os móveis ricos de gente rica. Casualmente testei alguns sofás, pensei em me jogar numa cama também, mas fui interrompido por outro funcionário que sem quaisquer disfarces solicitou que eu me retirasse.

Dei voltas e mais voltas no shopping naquela tarde.

Passei por lojas de perfume, até comprei um.

Fiz amizade com funcionários de uma loja Samsung, testei a novidade da época, um fone de ouvido que fui comprar 1 ano depois, até hoje um dos meus favoritos. Pena que o modelo não tanca meu cabeção.

Com a união de visão pouco capaz e audição competente até demais mapeei toda a praça de alimentação. Ou pelo menos as coisas que me importavam. Almocei 2 lanches do burgerking, tomei de sobremesa vários sorvetes do Bobs.

Mas algo me incomodava, me soava estranho. Parecia que eu não deveria estar ali.

Ouvia crianças correndo, casais trocando piadas, amigos gargalhando alto de algumas coisas ou mesmo de mim que tentava equilibrar duas bandejas de lanche enquanto andava todo torto procurando uma mesa vazia.

Eu também não era dali.

Shopping no domingo demandava felicidade, companhia, família.

Eu não tinha nada disso.

Me dei conta disso quando mordi os lanches que mal tinham acabado de ser feitos mas já estavam frios. Ou quando provei os sorvetes e eles nem pareciam tão incríveis assim.

Porque me faltava esse tempero.

Companhia faz o hambúrguer genérico quase morno ficar bem mais gostoso. O amor de casal torna o sorvete bem mais docinho e cremoso, quem sabe até dividido posteriormente num beijo.

Crianças correndo tornam o andar menos vergonhoso.

Família se divertindo faz o tempo parecer não passar.

Despejei o lixo da bandeja na lixeira mais próxima, abandonei a mesma vazia em qualquer mesa, eu não tinha ideia de onde ficava a devolução.

Me forcei a ir embora do shopping em passos largos e rápidos. E só quando saí dele e senti os cheiros e sons da rua me dei conta de que o shopping me estava sufocando.

Fui embora pra casa observando a cor dos carros que passavam, o andar mais urgente das pessoas, as cores das fachadas dos prédios pelos quais passava.

Cheguei em casa, me desfiz da roupa, sentei no chão e chorei.

E Agora?


Todas essas lembranças me vieram em instantes em que me coloquei no puff, de mãos ao lado do corpo.

Todas lembranças que parecem distantes demais.

Tão distantes que nem parecem minhas.

Agora eu trabalho 14 ou 15 horas por dia, mal saio no portão pra receber delivery.

Não tenho 1/10 da confiança que mesmo o mais frágil desses Jonas já teve.

Tiro as mãos do puff, me coloco à levantar.

Já é quase hora de dormir, tenho que estar minimamente disposto amanhã, mesmo que só vá dormir 4 horas, de novo.

Miro na alma uma última vez essas lembranças.

O gosto de cada drink na noite solitária, a sensação de correr pela areia no parque, o cheiro das lojas de shopping.

Me vejo incapaz de repetir qualquer uma dessas coisas.

Limpo uma lágrima que casualmente rola meu rosto enquanto nem noto outras tantas que já vem pelo outro lado.

Não vejo nem possibilidades de ser a coisa falha que já fui.

Nem tenho motivos pra tentar o ser.

Nem sei o que gostaria de tentar, pra ser honesto.

Mas enfim, é hora de dormir.

Boa noite.

Quem sabe amanhã eu me encontre em alguma outra fraqueza passada.

E quem sabe talvez alguma dor mundana me tire do estado de dor etérea constante em que tenho vivido.

Quem sabe.

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