Para os Seus Dias Tristes, Record of Ragnarok

Nem todo remédio trás cura.

Dos muitos sonhos que não poderei efetivar por N motivos, ser um grande cinéfilo analítico é certamente um dos do topo.

Quase tudo o que é produzido em cinema possui referências visuais, pequenos segredos ovais \”Nada de anglicismos aqui\”, tudo é moldado pensando no trio visão, audição e compreensão, sendo que visão é sempre o mais predominante deles, e justamente o que menos tenho.

Pedir para que Jonas avalie de forma objetiva um filme ou série é pedir para que um fumante faça uma análise de um perfume com notas de tabaco. E eu não vou explicar a analogia, se vire.

A questão é:

Feliz e infelizmente para o mundo a internet encurta e quebra barreiras. Infelizmente porque opiniões que jamais deveriam ver o mundo o ganham, e feliz porque opiniões que jamais veriam o mundo o veem. No fim das contas, a internet é uma grande mãe que avalia o trabalho dos filhos com carinho, mais um mero pedaço de algodão dentro de um copo descartável com um grão de feijão germinando que é recebido com carinho e um \”Oinnnnnnn que lindo\”.

Na última semana recebi notícias e tomei notas de coisas que me deixaram extremamente triste. E como bom adulto disfuncional que sou, ao invés de lutar contra isso, pensar sobre isso ou me sentir adequadamente triste e enlutado por isso, acabei optando por um caminho já conhecido. Me isolei do mundo e da sociedade, enchi meus copos com grandes doses de autopiedade e consumi uma quantidade exacerbada de conteúdos diversos. E sim, consumi, com todo o peso ruim que esta palavra trás. Palavra que jamais deveríamos associar à arte, mas o fazemos porque vivemos no mundo do consumo e quem diria que regras macroeconômicas se aplicariam a cultura, não é mesmo?

Mas uma obra em especial me chamou a atenção e é sobre ela que falarei a seguir.

O texto ficou bem grande, então prepare seu café, faça o carinho das próximas meia hora no seu pet, e vamos lá.

Humanos contra Deuses e a Lógica


Record of Ragnarok ou Shuumatsu no Valkyrie é uma animação japonesa que nos conta a história de um mundo ficcional onde Deuses se reúnem a cada 1000 anos para decidirem se os seres humanos continuam vivos ou já chega de fazerem merda. E quando digo deuses não são deuses de uma mitologia específica mas sim deuses. T O D O S.
Ou pelo menos todos os das culturas já convencionalmente aceitas \”Indus, budistas, cristãos, gregos, nórdicos, Egípcios etc\”. Deuses africanos, na, não foi dessa vez que o Japão lembrou. Na última reunião, os deuses acabaram votando pelo \’Tá na hora GLR\” e foi decretado o fim da humanidade como um todo num geral da forma mais abrangente possível.


No entanto, uma das 13 Valquírias Brunhild ou Brunhilda (Pois é), bem ao estilo sereado advocatício dos anos 2000 \”Sim, eu vi muitos, inclusive Franklin&Bash\”, saca de uma lei que ninguém lembrava lá da página 430 do meio do livro constitucional dos deuses pra dizer que os seres humanos tem direito à um julgamento por combate onde numa batalha de 13 lutas em um pra um os humanos podem continuar vivos caso vençam 7 \”A famosa maioria\”.
Uma valquíria teoricamente é um ser criado pelos deuses, ierarquicamente um que os serviria. Mas bom, essa não muito.
Mas até aqui eu já tinha algumas questões:

  • O que faz essa Valquíria defender os humanos? Não sei.

  • O que justifica ela já ter isso planejado? Ninguém sabe.

  • Que chance ela achava que seres humanos comuns tinham contra deuses? Sei lá também.

  • O anime se preocupa em explicar isso? Na, jamais.

  • Isso importa pra trama no geral? Também não, a não ser que você seja chato como eu.

Questões minhas de lado, o anime segue criando sua justificativa para o que virá a seguir. Muita luta e falta de lógica.

Os deuses aceitam as tais condições, eles querem se divertir afinal. E bom, reina sobre eles o famoso sentimento de \”Já ganhou\”.

A Valquíria então vai atrás de seres humanos de todas as épocas para representarem nosso time. Nenhum critério especial, ela só pega uns aí que vão gerar bastante coisa legal pro Roteiro.
Tem o grande general chinês Lü Bu, Jack o Estripador, tem o inimigo do lendário espadachim Musashi (Kojiro Sasaki), tem Adão, Nicola Tesla, enfim, toda a grande salada que só o Japão sabe fazer tão bem.

Mas bom, eles ainda são humanos, ainda que tenham sido humanos \”Extraordinários\” em suas épocas. Mesmo contra a, sei lá, deusa do carinho na nuca, qualquer um deles seria fácil extremamente fácil pra você derrotado por qualquer mínimo cafuné no pescocinho.

Então, do mesmo lugar onde tirou a PEC dos porratórios do campeonato aleatório de deuses e humanos, Brunhilda tira uma ideia genial de sua cuquinha. Valquírias são criações divinas. E como tal, obviamente estas podem transformar-se em armas, todo mundo sabia disso. Da mesma forma todo mundo também sempre soube que é possível fundir a alma de valquírias e humanos, dando à estes seres humanos super poderes que convenientemente servem sempre para a troca de muquetas com seres divinos e de poderes ultra-planetários.

E já que tá aí, dessa forma nada conveniente para o roteiro, ela resolve que irá convencer suas irmãs à se fundirem com toda a lista seleta de seres humanos ali de cima e outros mais, e bom, com isso eles vão conseguir tancar e até quem sabe surrar os deuses, garantindo assim mais 1000 anos da torpe existência humana.
Sim, só mais 1000, afinal, daqui 1000 anos tem outra reunião. E, bom, na mais otimista das possibilidades, só 13 deuses a menos estarão lá. E deuses num geral costumam ser vingativos né. Mas óbvio, cá estou eu aqui pensando em coisas que os roteiristas do mangá e do anime jamais pensariam, pensaram ou vão pensar. Porque afinal isso não importa, da mesma forma que não importa que criações dos deuses deem à seres inferiores poderes suficientes para lutar contra eles.

Daí pra frente o anime entra no famoso ciclo de anime shounen.

Inicia-se a luta, ambos os oponentes revelam suas forças, porrada canta, esse não era todo meu poder, releva um pouquinho de poder, bastante flashback, o outro lado também revela todo seu poder, mais flashback, poderes se chocam, ambos reconhecem força um no outro, últimos esforços, alguém ganha.

E não, eu não estou exagerando ou sendo analítico demais, esse é o roteiro de todas as lutas do anime até agora. É exatamente assim. Já estamos na segunda temporada, já rolaram 5 lutas e exatamente todas as lutas foram iguais.

O anime é uma das coisas mais anime naquilo que um anime poderia ser. É como se você pedisse pra alguém que não gosta muito de algo definir esse algo e produzir algo baseado nesse algo.


Até aqui você deve achar que eu odiei Record of Ragnarok, que achei terrível, que é uma merda. E bom, você acertou. Mas você também errou.

Record of Ragnarok certamente não é um primor de roteiro, historiografia, lógica, bom senso, nem a animação visual é boa, dizem. Mas Record of Ragnarok existe, e isso por si só é lindo. E ele continua e pelo jeito continuará existindo. E isso é incrível.

A Lógica Contra Nós.


Como você deve ter notado acima eu tenho 1 trilhão de questões com Record of Ragnarok. Questões que em situações normais me fariam odiar tudo nele, dele e por ele. Mas isso não aconteceu. E bom, eu pensei muito sobre isso nos últimos dias.

Primeiro, o anime é genuíno. E nos dias atuais isso diz muita coisa.

É uma animação feita pra quem quer ver Jack o Estripador atirando facas em Hércules, pra quem se questiona se Kojiro Sasaki com seu dual espadinha seria capaz de parar o poderoso tridente de Poseidon.


Em nenhum momento o anime te promete mais do que isso, ele nem considera ser capaz de mais do que isso. É porradinha do início ao fim, é desculpas pra embasar isso do início ao fim, e tamo junto.


Depois, porque mesmo sem prometer, o anime acaba te entregando um pouquinho além disso. Mesmo contra a própria vontade. Mesmo sem nem perceber, mesmo talvez contra a própria natureza.

Os flashbacks são uma parte legal da coisa.

Ver a acenção de Lü Bu ao posto de general de grande guerra, descobrir o que \”Muito teoricamente\” motivava Jack o Estripador, ou apreciar a vida do segundo melhor em espadas do Japão fedal, tudo isso já seria divertido por si só. Mas a visão japonesa e especialmente dos roteiristas sobre esses eventos torna tudo mais especial.

Eu até poderia descrever coisas incríveis que o anime deixa escapar nesse aspecto, mas, bom, isso seria um spoiler, e a despeito de todas as bilhões de críticas, eu realmente acho que no seu próximo dia triste você também deveria ver os vinte e poucos episódios de Record of Ragnarok.

Apenas saiba que essas coisas estão lá, são legais e bastante inesperadas.

Mas, por fim, sobre tudo e como grande coisa, Record of Ragnarok é feito pra mim, pra você, pro mundo atual.

Pense comigo:

Somos uma sociedade cansada. Uma sociedade que não tem tempo para desprender em quase nada. Nós vivemos nossas vidas comuns com acontecimentos comuns e resultados comuns. Nascemos com delimitações muito claras do que somos e podemos ser e, a nãos er que um grande milagre ocorra, é dentro dessas cordas que vamos viver.

Por conta disso, passamos a acreditar que a vida de verdade está nas grandes emoções. Nas grandes paixões, nas grandes aventuras, nos grandes riscos. O que torna nossa existência mediana algo não tedioso é um grande feito, uma grande conquista, um grande mérito. E vivemos em busca dessa única chance, desse único tiro, daquilo que vai romper nosso cercado delimitador, daquilo que nos tornará mais do que somos.

E também por conta disso nos frustramos diariamente, nos despedaçamos, nos flagelamos sempre que algo grandioso da errado. E ora, porque seríamos nós o número que desafia a estatística?


Seja realista. Se você tem 25 anos, você já viveu 9125 dias.

Quantos dias desses foram realmente incríveis como num filme? Em quantos deles você se sentiu realmente feliz? Quantos desses você reviveria se pudesse?

Tenho certeza que seja lá quão incrível sua vida tenha sido, o seu total da menos de 1 % desses dias. E aqui estamos falando de 91 dias. 3 meses. Sim, toda a parte legal da sua vida, tudo aquilo de mais incrível, o ápice do seu melhor, tudo isso somado é menos de 3 meses.

Mas isso não exatamente é um problema.

Vivemos em busca de grandes ambições, grandes emoções, grandes coisas. Vivemos em busca daquilo que gostaríamos de viver. E aí está toda a questão.


Nós só vivemos a vida do jeito errado, sob as métricas erradas.

Record of Ragnarok é um anime que gentilmente te coloca no teu lugar de vida. É um amigo que te diz \”senta aí\”, te coloca no sofá e te faz assistir mediocridade, lidar com a mediocridade, aceitar a mediocridade e até gostar da mediocridade.

Record of Ragnarok não se importa se seu dia foi bom, ruim, ele nem liga pra você. Ele vai despejar 25 minutos de mediocridade na sua tela e você vai sorver de toda essa mediocridade. Por que precisa, por que quer, por que anseia. Por que embora você queira ler o próximo grande livro, apreciar o próximo e técnico filme do seu diretor favorito, chegar ao fim da conclusão épica da saga heróica do seu quadrinho amado, é com Record of Ragnarok que você está agora na sua noite de sábado.

A pessoa que você ama está agora olhando com olhos de lacívia pra outro ser que não você, seus amigos estão agora vivendo a vida deles onde não te cabe, a pessoa da internet que marcou aquela cerveja contigo sem nenhuma intenção de jamais cumprir nem lembra que você existe. Se você sumisse agora do mundo talvez ninguém fosse dar falta em menos de 24 horas.


Você é agora medíocre para o mundo onde não é aceita a mediocridade.

Mas Record of Ragnarok te aceita. Ele não se importa com você, talvez ele nem saiba que você esteja ali. Mas ele te aceita. Aceita porque mediocridade atrai mediocridade. Aceita meramente por aceitar, como se a existência de Record of Ragnarok tropeçasse na sua.

Seu sábado não será nada. Também não há grandes planos pro amanhã então, bom, seu domingo também não será nada. Mesmo assim, você tem o mínimo de previsibilidade do que há ou poderá haver.

Você ainda poderia se iludir, planejar o seu grande dia, o grande evento da sua vida pra amanhã. Mas pensa bem. Qual é a chance do amanhã ser o seu nonagésimo segundo dia incrível? Faz sentido?

Ciente do que você é, do que o mundo é e do quão irrelevante tudo é você da o play no próximo episódio de Record of Ragnarok. E olha só, tem um lutador de Sumô saindo no braço contra Shiva.


Record of Ragnarok é um anime que não diz nada, não te agrega em nada e provavelmente em alguns meses pós consumo não deixará memória alguma. É alguns dos 9034 dias irrelevantes dos seus 25 anos.


Mas para esses dias, Record of Ragnarok é tudo.

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