Guerras Imaturas

Dois lados de um só Jonas entraram em conflito e um deles perdeu feio:

Escrever introduções pras minhas newsletters tem sido por muitas vezes mais trabalhoso do que escrever as newsletters em si. É preciso introduzir um assunto deixando curiosidade suficiente pra que haja a leitura mas sem expor o bastante pra não justificar os próximos 19 parágrafos, é confuso.
Especialmente em uma tão variada quanto essa.

Então vou lhes deixar aqui um resumo da minha última semana:

  • Saí de casa duas vezes em dois dias distintos pelas duas primeiras vezes no ano. Aliás, é engraçado quantificar as coisas assim. Nada parece ter de fato a importância que teve. A primeira coisa tem 200 % de importância, mas, se forem as duas primeiras, já vai ali pruns 12 %. A língua é um negócio doido.
    De todo modo, não foi nada grandioso. Na sexta deu bem errado e no sábado deu bem menos errado, quase certo até. Ainda preciso melhroar umas coisas, me adaptar em outras, ser menos eu talvez, o que apesar de dicotômico mostrou-se ser necessário dados os contextos sob os quais ainda não falarei aqui, acho que nunca talvez.

  • Essa semana fiz duas coisas pela primeira vez. Uma boa e uma esquisita. Mas ambas eu deveria ter feito antes na vida. Não deveriam ser nada de mais para um adulto comum, mas, como notarão texto à frente, eu talvez não seja um adulto comum .

Inclusive:

O Que É Ser Adulto?

Quando criança eu tinha quase que um fetiche por ser e ou parecer adulto. Parte da minha infância foi vivida dentro do Salão do Reino \”Nome dado ás igrejas das Testemunhas de Jeová\”, e eles são bem rígidos quanto ao que se deve vestir ou à como se portar. Então eu era uma criança que andava por aí de terninho, gravata de nó e até colete algumas vezes.

Eu gostava daquilo. O sapato fazia um barulho engraçado ao pisar no chão \”Eu tinha 10 anos e calçava 37\”, as roupas eram macias e molinhas e a coisa que mais me incomodava era usar a camisa pra dentro, algo que até hoje me incomoda.
Pelo menos graças à religião minha mãe me dava perfumes, algo que ela jamais faria se não fosse isso. E usar perfumes fazia eu me sentir melhor, mais bonito, mais pronto
.

O textual da religião também corroborava essa ideia. Crianças de 10 anos não deveriam saber o que significam palavras como benevolência, paradigma ou dubiedade. Mas eu sabia. E sabia várias outras legais. À aquela altura eu já tinha lido a Bíblia Sagrada em braille 3 vezes. Eram 235 volumes que equivaliam aos 66 livros, fora os livros suplementares como as revistas Despertai e A Sentinela e o livro O Conhecimento, nomes que eram bem pouco criativos assim como seus conteúdos.
Mesmo assim eu os lia. Gostava do reconhecimento das pessoas sobre como eu falava bem pra minha idade, era inteligente ou seria um futuro jovem ancião, o que é um feito bem raro lá dentro.

Aí veio o ateísmo, a escola, o álcool, o sexo, as meninas e, bom, aos poucos me descolei completamente desse mundo. Não me importava mais em parecer adulto, as vezes nem em ser.

Me orgulhava de sair por aí com mancha de milkshake na camiseta, fones gigantescos na cabeça ou apoiados no pescoço, bermudas curtas e de tecidos que quase remetiam á praia. Num ponto alto de muito amor próprio até usava camisetas regatas, mesmo já sendo gordo e ostentando uma enorme cabeleira.



Depois o tempo passou, vieram os trabalhos cada vez mais corporativos, voltou a necessidade de usar ternos. Mas agora eu só usava a camisa pra fora da calça, o terno porcamente alinhado, quando usava gravata era uma borboleta, simplicidade.

Eu queria parecer adulto mas não tanto. Não queria perder de novo. Usar roupas que prendem movimentos, restringem golpes. Porque nunca se sabe quando vou precisar reviver meus conhecimentos de luta de 16 anos atrás.


Por fim saí desse emprego e passei os últimos anos trabalhando com não mais do que uma peça de roupa, as vezes nem isso. Não é necessário. Sou um homem oculto no fundo de uma caverna quase figurativa, quase. Então tanto faz o que eu visto, como me visto. Preciso apenas estar cheirozinho, é meu lembrete de que ainda sou humano, ou pareço ser.

E no meio disso perdi contato com o que é ser adulto, ou com o que te faz parecer adulto. Tudo fica menos adulto quando feito de cueca em casa. Se não te percebem como adulto você jamais se sente como um. Porque pra maioria das pessoas esse é o grande dilema.


Ser adulto não é sair por aí carregando o mundo nos ombros e sentir o peso das grandes responsabilidades. É sair por aí parecer estar carregando o mundo e demonstrar estar sentindo o peso das grandes responsabilidades.

Da uma máquina de fliperama pra qualquer adulto ou solta ele numa pista de patinação artificial, ele vai se soltar. Joga um algodão doce na mão dele, obrigue-o a segurar um sorvete de casquinha e segundos depois, por trás de uma maquiagem sóbria ou uma barba cheia haverá uma criança sorridente, feliz com o gostinho do sorvete e o crocantinho da casca.

Somos adultos porque nosso meio nos obriga. Temos que zelar dos nossos e dos nossos menores. E pra isso precisamos parecer ser o que não somos ou não gostaríamos de ser afim de nesse jogo de enganação contínua tomar decisões que pareçam certas.


Isso foi o que pensei nos 2 ou 3 minutos em que fiquei parado esperando um Uber pra voltar pra casa no sábado as 3 da manhã. Haviam pessoas à minha volta, mas, todas elas envoltas em conversas próprias, nenhuma que me envolvia. Todos se despediam ou tentavam marcar novos passeios, novos encontros. Eu só tinha meu par de fones do qual só um lado e 1/2 funciona agora e pela primeira vez um medo genuíno de não parecer adulto.


Não pela primeira vez em meses, anos ou décadas. Pela primeira vez, mesmo.

Já contei em versões antigas dessa Newsletter como quando minha mãe me soltou na rua aos 4 anos de idade e achou que me perderia no caminho pra estação de trem da Mooca. Me senti vitorioso em conseguir chegar sozinho. Tenho certeza que quem me viu chegando lá naquele dia deve ter visto a mais patética das caras de crianças tentando fingir serem adultas. Mas o Jonas de 4 anos, bom, ele se sentia bastante adulto naquele momento.

Também me sentia muito adulto em todos os dias em que aos 13 anos de idade pegava o segundo trem. Não o segundo da hora, o segundo da tarde, o segundo, mesmo. Entrava no trem na estação de Franco da Rocha as 4 h 20. Duvido que houvesse alguém com menos de o dobro da minha idade naquilo. As vezes ia a filha do senhor que vendia café e leite no vagão, e umas duas vezes nós trocamos indicações musicais. Mas ela devia ter uns 16, sei lá.

Me senti bastante adultaço quando fui pela primeira vez pro meu primeiro emprego. Me sentia o mais executivo e formal dos adultos quando ia de terno pro meu último emprego corporativo. Me sentia ainda mais adulto quando chegava em casa, jogava o terno de lado, sentava no sofá e soltava o famoso som \”Ai ai\”.

A questão é que em todos esses momentos, em todos esses contextos, eu estava sozinho. Era eu por mim e contra o mundo. E não importava se na minha cabeça eu estava mentalmente calculando quantas pessoas estavam no vagão do metrô ou cantarolando a abertura do desenho dos Duck Tales, por fora parecia só mais um adulto com problemas de adultos.

Só que na minha nova fase não posso mais ser sozinho, não ainda. Não posso sair por aí fingindo não olhar pra nada e ninguém, por que preciso tanto da ajuda do nada quanto do ninguém.

E essa readequação é a parte mais difícil da minha nova vida adulta.

Pessoas cegas são autônomas e muitas delas são e parecem ser adultas. Mas eu não sou e não sei mais parecer ser. Porque todos aqueles medos dos quais por tanto tempo corri agora me alcançaram. E ainda que eu tente ignorá-los eles gritam o tempo todo as coisas que nunca antes pude parar pra pensar.

Serão longos períodos até que não me sinta uma criança segurando nos cotovelos de um adulto pra receber guia, ou recebendo ajuda pra achar minha mesa, ou errando por alguns centímetros um cumprimento de mão.

E até lá não sei mais o que sou. Sou talvez a mais funcional das crianças de 29 anos, mas para por aí também.

Não vejo a hora de poder carregar o mundo nos ombros novamente.

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