Tímidas Conclusões

Com muito extrovertidas observações:

A primeira newsletter do ano deveria ter coisas legais, ser legal, falar de coisas legais. Mas bom, logo na primeira semana do ano nosso país já foi pro buraco e quando eu estava pronto pra escrever algo bom aqui, bem, eu fui pro buraco. Então a newsletter de hoje vem domais profundo, escuro, frio e solitário buraco.

Espero que o eco chegue aí em cima:


O que Nos Define Socialmente?


Se eu te perguntasse agora se você leitor é tímido ou extrovertido, o que você diria?


Eu senti que tinha essa resposta até 4 dias atrás. Aí eu me coloquei em uma situação \\na qual nunca estive antes e diante de 4 ou 5 negativas saí correndo pra baixo da minha cama tentando nem ouvir o eco do que eu mesmo disse.

Daí eu decidi ir estudar e, bom, como o resultado de quase qualquer estudo teórico, não há uma definição exata. Mas há um caminho.


Primeiro de tudo é preciso entender uma questão importante: Timidez não é o oposto de extroversão. O oposto de extroversão é introversão. E timidez não tem um oposto.


A timidez se da no geral por uma escolha própria. Diante de uma interação social a pessoa opta por preservar-se, seja exibindo uma imagem diferente de si própria, ou seja preservando-se ao máximo afim de evitar julgamentos.


Já a introversão se da pelo julgamento de desnecessidade da interação. Não há a preocupação com quaisquer julgamentos, tampouco uma escolha inconsciente. É apenas um ser humano poupando-se daquilo e julgando-se pouco entusiasmado com o que quer que saia dali.

Por tanto, uma pessoa tímida não é uma pessoa introvertida, e da mesma forma uma pessoa introvertida não é uma pessoa tímida. Já que o tímido opta por o ser, e o introvertido tá pouco se fodendo, sou velho demais para esta merda, etc.


E já o extrovertido, bom, ele não tem medo nenhum de ser feliz. Tal qual o introvertido ele não liga, só que não tem a preguiça e a ideia de poupar-se. Ele tá pra jogo, vem pra cima, é 7 jogadores no ataque aos 11 do segundo tempo da merda da pro.. Desculpe, me exaltei.

E aí se da a grande quebra de paradigma da coisa.

Diante de uma situação de extrema timidez, o tímido pode optar por fingir não o ser, em busca da aprovação social que tanto deseja, chegando ao ponto de modificar aspectos do próprio comportamento.


Eu li uns 4 PDFS de faculdade e 2 textos no Google, você pode conferi-los aqui e aqui. Se você quiser os pdfs me manda mensagem ou comentário e eu te mando, mas já aviso, o menor tem 344 páginas, psicólogo é um pessoal bem empolgado.

Quando li essa merda algum apitinho tocou lá no fundo do meu cérebro.
Lembrei imediatamente dos meus primeiros dias de aulas que tive em diferentes escolas, lembrei da vez em que me meti sozinho num grupo de teatro, , lembrei do dia em que tentei puxar papo com uma moça que achei muito bonita na grande composição da linha 7 da CPTM. E eu que só tinha 14 anos me deixei levar pelo cheirinho de jasmim dela.

E aí múltiplas lembranças foram vindo e cada vez mais, até que o grito se tornou silêncio. E com o silêncio eu finalmente consegui ouvir algo que vinha gritando dentro de mim à algum tempo.

Eu me tornei tímido.


Veja bem, eu não era tímido, eu não fui, eu me tornei, simples assim. Alguma coisa mudou em mim e eu me tornei uma pessoa que tem medo de interações negativas, que tem medo de repreensões, que tem medo de discordâncias extremas.
Afinal, se a pessoa discordar tanto de mim ela vai me achar burro e bom, que interesse ela terá em alguém consideravelmente mais burro do que ela?

Aí minha cabeça entrou naquele modo de buscar os diferenciais.

Na escolinha eu me apresentava sem medo algum, dane-se. Na aula de teatro eu até dancei quando me pediram, e bom, eu danço tão bem quanto o Monark fala de política. Aos 14 anos eu galanteei muito bem a moça do trem, e bem, ela não me beijou porque tinha uns 20 anos, mas não me mandou pra puta que pariu, que é o que ela faria com o Jonas de hoje.
Ah, o Jonas de hoje. O que fez o Jonas de hoje?.


O JONAS DE HOJE É ALGUÉM QUE CONVIVE COM PESSOAS MAJORITARIAMENTE PELAS REDES SOCIAIS. Movimento esse que se deu lá em 2015 quando ele entrou no que parecia o emprego dos sonhos e que só lhe deu um burnout, cabelos mais finos e quebradiços e um dos piores sonos da humanidade. O Jonas de hoje é alguém que passou por 2 relacionamentos amorosos com traumas seguidos, alguns por culpa do próprio Jonas e outros NÃO. E isso fez o Jonas de hoje. Os traumas, as dores, o medo.


Falar de si mesmo na terceira pessoa é bastante patético, mas foi isso que fiquei fazendo por uns 40 minutos hoje enquanto segurava o queixo com as mãos. Eu afinal sou agora uma pessoa tímida e, ao menos por enquanto, não sei como deixar de o ser.

E pra piorar, todos os espaços que ocupei, amizades que fiz, coisas que vivi, tudo isso fui capaz de o fazer antes por que não era tímido, não tinha o enorme medo da rejeição que tenho agora. Por que sempre que olho pra cada uma das situações em que já me enfiei, sinto que jamais seria capaz de sequer considerá-las novamente.

E bom, 2023 era o ano da minha reconstrução. Era pra ser o ano de começar a sair novamente, encontrar pessoas, respirar o pútrido e intoxicado ar de vida urbana. E agora me pego pensando se sequer deveria mesmo puxar papo com o entregador que trouxe 2 baldes de frango pra um ser humano de 1,87 e 130 KG numa casa toda escura.

Eu sou tímido. Mas para o meu próprio bem, eu não posso o ser.

Porque se for eu tímido, os espaços que me são negados não serão automaticamente abertos. Se for eu tímido ninguém fará esforço de esperar o amiguinho que está 2 passos atrás. Quase ninguém é tão importante assim e, bom, dos muitos ninguéns eu não sou o mais relevante.

Mas ao mesmo tempo não é uma escolha. Eu não consigo não ter medo do julgamento, da rejeição, do abandono. Eu me tornei incrivelmente carente e, bom, meu gato mais carinhoso amassa pãozinho em mim até minha barriga ter arranhões médios.

Eu vejo o problema, eu sei qual é, eu até sei como resolvê-lo. Só não tenho ferramentas, condições, ambiente, ajuda.

E aí, bom, aí eu desabei.

E enquanto desabava eu simplesmente abri esse editor de texto e escrevi da melhor forma que pude tudo isso. Por que no atual momento é só o que posso fazer.

Ouça com o Coração:


A tv dos anos 2000 era algo muito específico na periferia. Saem os canais a cabo, entram programas nada infantis em Globo e SBT. Mas principalmente sai MTV e entra o Canal 52.

O canal 52 era basicamente um grande Youtube em modo aleatório. Clipe o dia todo, o tempo todo, sem parar, bombardeando a região metropolitana de São Paulo, Jundiaí e até um pouco pra lá.

E claro, com as boas restrições de um canal local que aparentemente pagava direitos autorais eles tinha uns, sei lá, 500 clipes, que se revezavam ao longo dos dias, meses, anos. Lembro-me de ainda acertar a ordem do canal em 2010, e a primeira vez que o sintonizei foi em2001.

Enfim:

Graças ao Canal 52 conheci Linkin Park, Live, Biquini Cavadão, Timbaland e outros hits dos anos 200. E dentre eles, Essa música aqui.

Então deixa eu te contar a história dela:


Esse rapaz aí participou de um reality de cantoria aos 11 anos, e ganhou. E como premiação, recebeu um álbum inteirinho, gravado e mixado em estúdio pelo enorme Quincy Jones, aquele que produziu nada menos doq ue todos os maiores de todos os tempos, de Michael Jackson a Madonna, de Timbaland &Magoo à James Brown.

14 faixas, um sonho, 12 anos. Essa aí era a música de divulgação do álbum, a que ficou mais famosa por sinal. Junto com Jordy era chamado de o cantor sensação.

Só que o álbum não vendeu o esperado e, bom, não renovaram o contrato do jovem Sammie.

Aí ele sumiu por uns anos, voltou com um álbum independente em 2006 \”que apesar de não ter ido bem é um bom álbum\” (Tem falhas graves de mixagem que suspeito que ele mesmo quem tenha feito), desistiu novamente e aí viveu só de mixtapes por uns 10 anos.

Até que em 2017, já aos 30 anos ele lançou seu terceiro álbum de estúdio Coming of Age, que você pode ouvir no Spotify, no Deezer, ou em alguma outra plataforma de sua escolha, só pesquisar pelo nome.

Ah, no youtube não tem, só tem faixas soltas.

Esse álbum é uma mistura enorme de sentimentos. Tem love songz, tem sensualidade, tem músicas mais divertidas, mas acima de tudo e entremeando tudo, uma enorme melancolia. A melancolia de um homem que tentou o quanto poderia, não chegou exatamente onde se esperava que ele chegaria e, pior de tudo, de um homem que se questiona o tempo todo.
Mesmo nas músicas menos óbvias, Sammie deixa escapar seu eu lírico questionador e se pergunta se tudo aquilo é de fato o que ele deveria estar vivendo.

Embora o sucesso de sua carreira seja discutível, afinal sua música mais famosa foi lançada no hiato de sua carreira solo Kiss me thru the phone, Sammie também é o autor de outras canções famosas do R&B contemporâneo. E mesmo suas Mixtapes são muito coesas e bem produzidas, só não são albums.

Sammie era até então o exemplo perfeito do quase chegar lá, do arranhar o céu.

E é exatamente isso que esse álbum transborda.

E bem, estando eu na situação atual, prestes também a completar 30 anos e, bem, sendo dono de muitos méritos a menos do que Sammie, esse álbum caiu como um meteoro. E é um bom álbum. Então, esteja você triste ou não, eu realmente lhe recomendo este álbum. São 48 minutinhos, da pra ouvir enquanto faz o almoço.

Só cuidado pra não esquecer de temperar a salada, com lágrimas não fica legal.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima