Reflexões Fragmentadas

Esteja pronto para uma surra de ideias malucas.

A edição de hoje da newsletter tem um pouco de tudo. Tem comentários rasteiros sobre coisas que posso arriscar dizer que domino, tem comentários ainda mais rasteiros sobre coisas que certamente não domino, tem críticas alimentícias e tem muito mais.

Mas antes de tudo é preciso que ela tenha um agradecimento a vocês, queridos leitores e amigos.

As últimas duas edições desta bagaça dobraram meus números de inscritos e interações. E isso tudo aí é culpa de vocês.

Obrigado a você que leu, se divertiu, chorou ou só olhou. E, se você quiser comentar algo, falar sobre algo, pedir um comentário sobre algo, o espaço é todo seu. É por vocês que eu paro uma horinha do meu dia pra escrever. E também pra não ficar maluco sozinho.

Ouça a Voz da Razão: E ela é flácida e já um pouco falha da idade.


Desde que comecei a estudar invasão de redes usando Backtrack 18 anos atrás me deparava com um mesmo nome nos fóruns e sites de tecnologia por aí.

Linus Torvalds.

Em geral o nome era citado com algum temor, raiva, inveja, ódio e por vezes uma pitada de desdém. Mas sempre com algum nível de reconhecimento e admiração.

E foi assim que tive contato com meu mais longevo herói da área em que atuo. Sim, eu era uma criança de 13 anos que adorava Linus Torvalds.

Fazia um esforço imenso pra ler seus livros e escritos, seguia o usuário dele nos fóruns em que participávamos em conjunto, entrei pruma lista de discussão em Inglês onde novos usuários eram aceitos apenas como \”readers only\” (sem o direito de escrever tópicos ou réplicas) e acompanhava seus eventos promovidos lá nos idos de 2005. Era uma baita aventura e insanidade, mas eu me sentia parte de algo e estando do lado certo.

O tempo passou, comecei a observar erros e falhas em Torvalds, entendi que parte do que o faz tão admirável o torna insuportável e, bom, continuo o admirando.

Ao longo do tempo Torvalds criou uma enorme fama na internet com seus clássicos Rants \”ataques de ódio\” em listas de discussão, forums, comentários de blogs e onde mais houvesse um espaço com caixa de texto que ele pudesse escrever. Há inclusive um redit dedicado só pra isso.

Mas, ao fim de tudo e no final do dia, Torvalds criou a mais perfeita execução de algo público baseado em código open source que temos a 30 anos e teremos pelos próximos 100.

O Kernel Linux.

Se você é da área de tecnologia entende o peso que a frase destacada acima tem. Se não é, aqui vai uma breve explicação.

Kernel é o nome que damos ao conjunto básico de software que fará a intermediação entre seu hardware e seus programas. Podemos dividir da seguinte maneira:

  • Hardware = Os componentes eletrônicos do seu dispositivo quais sejam. Roteador, smartphone, computador, uma televisão, o que quer que tenha um processador, memória RAM e algum tipo de armasenamento contínuo.

  • Kernel = Conjunto de instruções básicos que permitirá o controle de todo o sistema sobre o hardware;

  • Sistema Operacional = camada de interface carregada sobre o Kernel que lhe fornecerá todas as janelas, eventos e meios de interação com o Kernel e com o Hardware;

  • Aplicativos = Conjuntos de instruções em código feitas para interagir com o sistema operacional, o Kernel e o hardware para executar funções específicas no seu dispositivo. Por exemplo, um aplicativo de foto ou um aplicativo de música que roda em seu smartphone.

E agora um exemplo:

Imagine que você queira tocar uma música em seu smartphone. A seguinte cadeia de eventos acontece:

  • Seu dedo toca na tela, que recebendo o sinal, envia-o ao Kernel, que o repassa ao sistema operacional. Assim o sistema repassa ao aplicativo e, finalmente, todos sabem onde você tocou.

  • O aplicativo, sabendo que aquela região é responsável pelo botão play, envia o comando ao sistema operacional, seguido do arquivo que deve ser executado e de sua localização. Tais instruções são processadas pelo sistema, resumidas em instruções em linguagem de máquina, que são enviadas ao Kernel para que sejam processadas, convertidas em sinal digital ou analógico se necessário, e então saiam do seu smartphone via Bluetooth, P2, USB ou seja qual conexão for.

  • A música toca em seus ouvidos.

Tudo isso em questão de 3 a 5 milissegundos, em média.

Espero que não tenha sido tão complexo mas, se foi, deixa aí nos comentários e tento explicar melhor.

O ponto é:

Este velhinho raivoso e perfeccionista criou o que é de longe o melhor e mais complexo Kernel de sistemas operacionais que temos hoje em dia. Capaz de atender a roteadores, dispositivos inteligentes, presente em todos os smartphones Android, além de embarcados em inúmeras tecnologias por aí as quais nem temos ideia. Afinal, o Kernel Linux é leve, estável, funcional e amplamente compatível, então é usado para tirar uma infinidade de projetos do papel e dar-lhes um destino. Tem vending machines, brinquedos, impressoras complexas, máquinas industriais, tem até Carro. E óbvio, é o que roda por debaixo de todas as distribuições Linux do mercado, que são até o momento as melhores opções de sistemas operacionais gratuitos que se pode usar.

Então, sempre que ele aparece pra dizer algo, o que com o passar do tempo tem se tornado mais raro, paro pra prestar atenção e aprender um pouco.

E sua última aparição foi nessa Entrevista no Youtube para um canal aparentemente focado em tecnologia e programação. O vídeo tem cerca de 50 minutos e, sendo bem honesto, é um deleite poder ouvir alguém tão importante para o nosso mundo atual falar de forma tão espontânea sobre o que faz e sobre o que acha do futuro.

Se você puder, e recomendo que possa, tire uns 10 minutinhos do seu dia pra acompanhar o começo dessa entrevista. Eles já lhe fisgarão pelo restante.

E assim como tenho como meta de vida ser um Edvaldo, tenho também como meta de vida deixar um legado sequer próximo da importância do de Torvalds.

É encantador vê-lo animado e disposto, ainda atuante no código de seu maior projeto e mantendo com linhas firmes aquilo em que acredita.

É revigorante ver e saber que Linus entende o mercado de tecnologia e, justamente por isso, não embarca em promessas furadas como foi o tempo das criptos e como é agora a era da IA.

E é reconfortante saber que ao menos enquanto ele viver o Linux seguirá sendo a primazia da tecnologia moderna. Tudo isso de forma gratuita e com níveis de segurança e performance que nem mesmo as big techs conseguiram atingir até o momento.

Veja a entrevista, entenda, aprenda e, se quiser conversar sobre depois, tamo aí.

Cervejas, Presunto e Filmes Ruins:


Você adulto que já bebeu cerveja há de concordar comigo que intuitivamente o gosto não é dos melhores. Cerveja é amarga, um pouco rançosa e, dependendo da qualidade do produto que você puder pagar, ainda vem um retrogosto muito esquisitinho. Mas, ao longo da vida adulta aprendemos a nos acostumar com seu sabor, a gostar dele, a apreciá-lo e, em vários casos, desejá-lo ao longo do dia quente ou cheio de trabalho.

E é assim que substituímos nosso paladar infantil por um desejo ardente de uma cervejinha ao longo da vida. É também assim que aprendemos a comer pimenta, jiló, a beber café e a desafiar nosso paladar com coisas que vão além dos agradabilíssimos doce e salgado.

Tal movimento, entretanto, não parece ocorrer nas demais áreas de nossa vida. Nelas, sempre preferiremos aquilo que for meramente bom, linear e, se possível, doce o suficiente para que nos agrade.

Tudo isso desaguou num novo fenômeno, que ousarei aqui batizar de \”presuntoqueijatização das coisas\”.

Vem comigo:

Com exceção de quem não gosta ou não come carne de porco e quem não gosta ou come queijo \”Pouca gente\”, presunto e queijo é um dos sabores mais universais dos nossos dias atuais.

Está na pizza, no pastel, na lasanha, na tapioca, na salada russa, na coxinha, no risole, no taco do pseudo restaurante mexicano \”que na verdade é TexMex\”, no macarrão caótico de 39 reais, no misto quente, sério, tem até panetone.

Independentemente de onde você more, o presunto&queijo lá estará. Seja com seus nomes clássicos, ou seja com suas variações como bauru, misto, namorados, etc.

E, se não fosse o bastante, coisas sabor presunto e queijo são extremamente simples de fazer. Em geral, basta colocar os dois elementos e, se muito, tomate e orégano. Mas não raras são as exibições da dupla em que apenas eles aparecem, sem esforço nenhum do restaurante ou estabelecimento responsável por essa desgraça desencadeada.

Então, além de ser apreciado pelo público, presunto&queijo também são apreciados pelos restaurantes, que terão menos trabalho em agradar seu público que, por acaso, exigirá menos. É um ciclo que se retroalimenta.


Esses dias, no entanto, voltando de Belo Horizonte, parei com minha carona em um posto de beira da estrada que vendia 3 opções de iguaria especificas.

Pão de queijo com presunto e queijo, pão de queijo com linguiça e queijo, e pão de queijo com pernil e queijo.

Lá, pedi uma unidade do segundo \”pão de queijo com linguiça\” e uma unidade do terceiro \”pão de queijo com pernil\”. Enquanto minha companhia temporária pediu duas unidades do primeiro \”Pão de queijo com Presunto&queijo\” , que por sinal custava a mesma coisa das minhas duas escolhas.

Quando o questionei se ele não gostaria de trocar sua escolha, já que aquela era bem genérica, recebi a seguinte resposta:

  • Presunto e queijo não tem erro.

Rebati: Mas, nem um pernilzinho?

E ele:

  • Eu sei lá como esse pernil foi feito. O presunto e o queijo eu sei como as indústrias fazem.

E assim morreu ali nosso diálogo.


O rapaz, totalmente desmedido de seu direito de escolha e de pensar, apenas escolheu o que parecia ser mais fácil. E eu, bom, eu queria nadar naqueles 2 pães de queijos recheados incríveis e cheios de sabor. O de linguiça vinha com uma linguicinha da casa que era temperada e refogada. E o de pernil, bom, aquele pernil provavelmente foi cozido nos restos mortais de um anjo que entregou sua vida ao rei porco. Nada justifica aquilo ser tão incrível.

Voltamos então ao carro, seguimos viagem e, 4 horas depois, nos separamos, provavelmente pra nunca mais nos encontrarmos.

Eu voltei pra casa tendo comido um dos melhores alimentos de minha vida num posto de beira de estrada, e ele voltou pra casa tendo comido mais uma vez presunto&queijo. E a vida as vezes é isso.


Tá, mas o que isso tem haver com filmes?


Essa manhã estava como sempre procurando algo pra assistir enquanto preparava meu café e minhas omeletes. Daí caí num review do filme Coringa feito pelo Youtuber Gaveta. Que quer você goste ou não, é alguém que considero entender bastante de cinema \”Até por já ter trabalhado com\”, e, cujos gostos batem com os meus.

E aí, embora não tenha visto o primeiro filme, não pretenda ver o segundo e, acima de tudo, ligar 0 pra essa onda de filmes baseados em quadrinhos, decidi que aquela seria uma boa forma de perder 20 minutos do meu dia.

Como já sabia o quanto as pessoas tinham odiado o filme, imaginei que veria 20 minutos de espinafração, então achei que seria divertido.

Qual não foi minha surpresa ao descobrir que sim, o filme era ruim, mas, poderia haver beleza e até propósito nessa ruindade.


Ao longo do vídeo somos apresentados a 5 possíveis teorias do Gaveta que, pesquisando depois, descobri que já reverberam pela internet, talvez até precedendo o próprio Gaveta. E conforme as teorias vão avançando, fica mais claro que há uma chance grande de mais de uma se aplicar ao resultado final. Isso é claro, lembrando,que não vi e não verei o filme e tenho 0 interesse por ele.

Mas, ainda que todas as teorias estejam erradas e que seja só um filme insuportavelmente ruim e sem graça, não é melhor que ele seja isso, ao invés de ser mais um enlatado 2.0 da DC ou Marvel igual os últimos 50 e os próximos 50?

Não deveria haver beleza apenas em ser algo diferente, novo, que se propõe a envolver algum trabalho?

Esses dias resolvi rever a trilogia do Hobbit no Prime Video. Tava sem nada pra fazer, tinha terminado a segunda temporada da série Rings of The Power, então preparei um suquinho de poupa de 2 litros e taquei o play.

Na minha cabeça os filmes eram inexoravelmente ruins, chatos e arrastados. Mas, no mundo real, isso só acontece de fato no terceiro filme. Até a metade do segundo, Peter Jackson conseguiu dar um bom andamento a obra, que não era das mais incríveis do mundo mas, era bem legal, era no mundinho de Senhor dos Anéis e, acima de tudo, tinha bastante anãos, com suas personalidades individualizadas e bem definidas. Era bom. Não incrível, mas bom.

Aí vem a metade final do filme e desanda um pouquinho e, bom, no terceiro filme aí sim vai tudo pro caralho mesmo e fica lento, arrastado, chato, desnecessariamente longo e imensuravelmente repetitivo.

Tenho certeza que pelo próprio diretor o andamento do filme seria diferente e daria pra acertar as coisas. Transformar-se-iam os 3 filmes em 2, reduzir-se-iam alguns trechos e, bum, um excelente filme nota 8.

Mas, na época em que o filme foi feito precisavam vender uma tecnologia de projeção, precisavam produzir 3 filmes em 3 anos, então ficou isso aí mesmo.

Ainda assim, pude tirar coisas boas do tempo em que passei vendo o Hobbit. Existem pontos altos e, a jornada é inesperadamente divertida até certo ponto. Foi como provar o fígado com Jiló do mercado de BH. O fígado sempre amei, Jiló eu odeio. Mas, jiló naquele contexto, molhadinho na gordura e no tempero do fígado, fica suportável e aceitável. E até já tive vontade de voltar lá e provar mais, acompanhado é claro de outra boa cervejinha como a que lá tomei.

Você pode ver o review de Coringa do Gaveta Aqui, o que eu recomendo bastante. E também pode ir a BH provar o fígado com Jiló, o que também recomendo bastante.


Permita-se provar os outros sabores da vida, há muito de surpreendente por viver. E diga não ao Presunto&Queijo.




E por hoje é só.

Sei que estou devendo indicações musicais, mas, a verdade é que a vida anda um caos e quase não pude ouvir música nos últimos dias. Mas fica aqui minha promessa de dar uma arrumada em minha vida e, na próxima edição, trazer indicações.

No mais, obrigado por sua leitura, beba água, use camisinha e, prove do mundo.

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