Um Ensaio sobre Aniversários

Seria isso um ensaversário?

Aniversários me são confusos. E sim, é exatamente assim que vou começar essa newsletter.

Sempre tive um apego grande aos aniversários das pessoas. Cresci num lar onde não se demonstrava muitos sentimentos e onde não se declarava amor, fosse ele materno, fraterno ou de qualquer outra natureza. Então, como não tinha muitas demonstrações, não sabia eu mesmo demonstrar às pessoas, especialmente as que não eram da minha família, o restante nem fazia questão.
Mas os aniversários eram justamente essa data em que eu podia me fazer feliz pelas pessoas, causar um verdadeiro rebuliço, ou aos 8 anos erguer outro amiguinho de também 8 anos na altura dos meus ombros e sair correndo pela escola gritando \”Parabéeeens!\”.
E vejam bem, eu ainda era falho em demonstrar carinho.
Aos 9 anos de idade dei para o meu atéhoje melhor amigo um cachorro quente de presente de aniversário. Foi juntando o dinheiro de 15 dias que minha mãe me dava, foi deixando ddde me dar o meu próprio cachorro quente, foi patético. Ainda assim, naquele dia ele ganhou um dogão especial com 3 salsichas e uma vocalização de \”Feliz aniversário ae tio\”.
Sei que talvez ele saiba que era o máximo que meu jeito permitia ser naquela época, mas não consigo deixar de ter vergonha por essa passagem da minha vida.



Ao mesmo tempo, tenho uma completa desconsideração pelo meu próprio aniversário. Quando criança só tive duas festas, uma aos 4 e outra aos 5 anos. Aos 6 minha mãe já era testemunha de Jeová e, bom, testemunhas de Jeová não comemoram aniversários, ou natais, ou dia das crianças, ou dia do índio, ou qualquer outra coisa.
Então nunca tive memórias de cheiro de bexiga, ou sopro de vela com pessoas em volta de uma mesa, ou mesmo daquele cheiro de refrigerante e pão com carne louca que toda festa de aniversário tem \”Ou deveria ter\”.
E bem, a minha festa de 4 anos só tinha adultos e eu brincando com um carrinho que ganhei de um deles sentado debaixo da mesa enquanto eles conversavam coisas de adultos.
E a dos 5, bom, a dos 5 começou com minha mãe fazendo um bolo surpresa e terminou com ela expulsando eu e meus 6 amiguinhos que cooptei da rua para a tal \”festa surpresa\” porque eles ousaram correr em volta da mesa enquanto ela nos servia bolo. E é exatamente só disso que lembro daquela festa. Dela nos expulsando aos berros enquanto meusamigos saíam naquele silêncio sepulcral que toda criança faz quando está na casa de outra cuja mãe dispara a dar broncas.


Desde então, só tive duas festas, ambas promovidas por namoradas, ambas com ninguém além de eu e elas próprias. Nunca nada de refrigerante ou mesa com balinhas de coco ou Fanta laranja.


Isso tudo fez com que ao longo do tempo eu me desapegasse do meu próprio aniversário.


Lembro até de uma situação curiosa:

Meu aniversário de 15 anos caiu numa sexta-feira, e como toda boa criança, eu estava na aula escolar. Um professor entrou na sala e soltou o papinho mais fajuto da história, dizendo saber que era aniversário de alguém mas não se lembrava quem já que a lista de chamada completa havia ficado na sala dos professores. Perguntou então quem era e obviamente não respondi. E como não era aniversário de mais ninguém, igualmente nenhum dos outros alunos respondeu. O professor até tentou ser mais direto e soltou um \”Acho que é o teu, né Jonas\” e eu só disse um seco e duro \”não\”.


Claramente eu ligava e obviamente eu estava triste por estar numa sala de aula convivendo com pessoas à um ano e nenhuma delas lembrar da data do meu aniversário, coisa que havia dito pra quase todas elas. Mas também obviamente eu sentia que aquilo era só parte do problema. Eu era mais pobre que todas aquelas outras pessoas, eu vinha de muito mais longe do que elas, eu vivia outra vida. Enquanto aqueles 36 alunos acordavam as 6 da manhã pra estar na escola as 7 e 13 horas já estavam em casa almoçando, eu acordava 4 da manhã e teria sorte se conseguisse ficar acordado pra jantar, se o cansaço me permitisse o fazer antes de desmontar na cama.
Aquela era a primeira sala de aula da minha vida escolar da qual eu não levaria grandes amigos. Conheci pessoas boas, fiz alguns conhecidos com quem ainda tenho um mínimo contato, até tive uma paixonite. Mas foi só. Eu era um estrangeiro pra eles e eles me eram igualmente forasteiros.


Daí veio outra escola igualmente fria, daí outra data de aniversário que nem fazia sentido ligar, até que fui criando uma casca sobre isso.


Nos empregos formais que tive ao longo dos anos o RH até sabia da data, e vez ou outra até rolava aquele constrangedor parabéns público que todo mundo só quer que acabe pra voltar pra sala com arcondicionado. Mas nada muito além disso. Eu não ficava feliz nem infeliz, só envergonhado por atrapalhar o trabalho das pessoas.

Posteriormente as coisas foram só piorando, até que em 2020 tive meu efetivo pior aniversário da vida.

Pandemia no talo, eu sem férias a 3 anos, desesperado por uma pausa e algum repouso. Uma ex namorada se reaproxima e acabamos combinando de passar a data juntos. Em questão de dias organizo tudo e lá vou eu para a viagem. Planejamento aprofundado, meios de viagem com mínimo contato, rotas extremamente pensadas, tudo meticuloso.

Por conta de uma briga passo a data em si comendo pizza ruim enquanto buscava modos de antecipar meu retorno pra casa já que aquela viagem não tinha mais condições. E bem, ao invés do tal sexo de aniversário, durmo a noite me apertando no extremo canto de uma cama depois de 5 horas de silêncio.


Quando cheguei em casa prometi a mim mesmo que jamais iria sequer tomar nota de quando seria meu próximo aniversário. Não havia tido repouso, não havia tido aniversário, não tinha nada. E assim seria.

Como reflexo de tudo isso, em 2021 decidi 30 dias antes desativar as datas de aniversário em todas as redes sociais. Eu queria ter certeza de uma coisa, e bem, tive.

Tirando meu melhor amigo e o irmão dele, exatamente ninguém mais lembrou. Nem amigos próximos, nem amigos distantes, nem pessoas que se convalesceram da história anterior. Ninguém lembrou.

E como eu estava em uma fase nada boa, tomei aquilo quase que pro lado pessoal. Não que não seja mas, bem, entendi de forma pior do que talvez o fosse.

A questão é que sempre me lembrei da data de aniversário de cada pessoa. Como também me lembro dos telefones delas, como também me lembro dos gostos, manias, como faço com qualquer pessoa com quem me identifico e nutro carinho. E bem, sei que as pessoas tem um desapego completo por memórias ou só não tem uma memória efetiva tão boa, mas eu não conseguia dissociar uma coisa da outra. Não conseguia sentir que eu próprio era mais amigo delas do que elas me eram amigas. Pareceu que todas as relações de amizade que eu tinha eram não equivalentes.

E levou um tempinho até eu me consertar dessa porrada, até entender que bem, talvez seja isso mesmo e, sei lá, tudo bem também.


A questão é que esse é mais um evento que absorvi, processei e, não sei se pela casca criada ao longo dos anos ou por mero condicionamento interno, nem dói mais.


Agora estou aqui sentado em frente à um editor de texto tentando pensar no que farei no meu aniversário. Estou me recuperando de uma doença que desencadeou outra doença, meus dois amigos que se lembram da data vão trabalhar ferrenhamente no dia, não há outras pessoas com quem comemorar. Não haverão festas, balas de coco, bexigas, músicas da Xuxa ou cantos de com quem será.


Pra esse ano eu até reativei os lembretes, mesmo sabendo que as parabenizações de 95 % das pessoas que os vão ver será aquele mais genérico possível. Mas bem, de uma casca a-sentimental eu me descobri a mais interpolar das cebolas sentimentais, então sei lá, quero tentar sorver a mínima alegria de cada um que tirar 12 segundos do próprio dia corrido pra me mandar uma mensagem de 100 caracteres que seja.


Esse ainda não será um bom aniversário. Será meu primeiro aniversário verdadeiramente quase cego, o terceiro em isolamento, o quarto da vida em que passarei doente ou quase doente. Com sorte consigo me recuperar pro domingo pra sei lá, ir num Burger King enquanto processo que pelos próximos 11 meses terei de dizer pra todo mundo que tenho 29 e não mais 28 anos.

Ainda assim, sinto que esse talvez será um bom aniversário.

Pretendo tirar umas duas horinhas pra ficar com os gatos no sol vendo eles causarem o caos, talvez preparar um pratão de moela, que ando com muita vontade de comer inclusive, quem sabe até ousar não responder clientes por alguns minutos enquanto murmuro baixinho \”hoje eu posso\”.


De todo modo, acho que uma das partes mais importantes do meu aniversário vindouro está aqui. Escrever esse texto me fez reprocessar todos os eventos acima e tantos outros que nem foram citados. Além é claro de sei lá, eu ter dito isso pra alguém. Pessoas diferentes já ouviram partes diferentes dessas histórias, ou cada um ouviu uma ou duas. Mas é a primeira vez que penso e reflito de forma coesa sobre todas essas coisas.


Talvez eu nunca tenha aniversários como as pessoas comuns tem. Talvez nunca haja uma grande mobilização na data ou talvez eu sempre caia nesse tom de melancolia.

Mas tendo eu passado por tudo o que passei esse ano, pela primeira vez na vida sinto que se eu acordar vivo no dia 18, eventualmente terei o que comemorar.

Ainda não sei bem como é que se comemora, mas, vou tentar.


De todo modo, te agradeço por ter chegado até aqui. Seja lendo essa ou outras edições da newsletter, seja ao longo de nossas eventuais interações ao longo do último ciclo, seja nas próximas que virão.

Todo o meu processo nos últimos 12 meses tem sido de reconstrução. E saiba que de algum ou de vários modos você fez parte disso.

Se há algo pelo que comemorar amanhã, você é parte integral disso.


Como Sempre, Música!

Novembro já tem aquele climinha de fim de ano. Os mercados começam a ter panetones nas prateleiras, o bacalhau já vai ficando mais caro, vinhos e espumantes tem aquela boa e velha inflação de sempre, viagens ficam mais caras e hotéis mais absurdos. Tudo tem cheiro, gosto e tons comuns. E claro, é a época de festas, época em que pessoas se preparam pra confraternizar como nunca antes e como só ano que vem depois. Mas novembro também costuma ser a época de mesmas músicas, mesmos cantores, mesmos filmes.
Então, pra te ajudar a dar uma variada nisso, que tal uma Mixtape de fim de ano com um dos maiores grupos de R&B de todos os tempos.

Estou falando da Mixtape Christmas In Baltimore do grupo Dru Hill, que você também pode ouvir no Deezer, no Spotify, ou até no Apple Music, além de qualquer outro serviço de música que você assine e que tenha um acervo, eu linke a maioria aí vai.

Sisqó e Tao nos entregam ótimos vocais e uma excelente variedade de sons. Tem Love Song, tem música pra amigo, tem musiquinha pra tudo aí. Uma baita mixtape que é coerente do início ao fim, além de ter ótimos picos.

E dessa vez tem recomendação extra. Quer dizer, não é bem uma recomendação, é só, um factoide.

O Drake \”Sim, aquele que da nossa água não bebeu\” tem Essa música aqui e eu gostaria de um dia ouví-la no meu aniversário enquanto desfilo por aí num Jipe gigantesco e bebo um drink absurdamente gelado.

É só isso mesmo.

Até a próxima newsletter, na qual já serei mais velho.

Beba água!

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