Sério, tá uma baita confusão essa edição da Newsletter
A Newsletter de hoje é um compilado de momentos que vivi ao longo das últimas duas semanas. Momentos diferentes porque bom, eu estava doente e quando se está doente boa parte do tempo se passa dormindo ou em repouso. Exceto é claro se sua doença afetar sua capacidade de dormir ou de repousar, o que é cruel mas existe.
De todo modo, não há muito nexo entre os tópicos.
Eu abria meu editor de Markdown, escrevia 20 ou 30 linhas e salvava pra depois. Aí voltava, escrevia outra coisa e dormia mais 3 horas. E nesse fluxo escrevi várias coisas desconexas mas que talvez lhe digam algo. Agora pouco, por exemplo, duas frases na Newsletter de uma amiga me fizeram publicar toda essa desconexão aqui. As vezes é só disso que nosso cérebro precisa, empurrões porcionados.
Doentinho
Finalmente aconteceu. Depois de 1 ano e 9 meses contrariando as estatísticas brasileiras contraí a tal da Covid. O que de certa forma foi um alívio por finalmente eu ser parte do grupo, mas meio triste porque bom, fiquei de fora do grupo cada vez mais restrito dos que nunca foram visitados pelo vírus maldito. E é estranho que pertencimento me preocupe até nisso. Sei lá, tudo é muito estranho.
Os sintomas em mim foram bem moderados. Também pudera, além da vacina em dia tenho o costume de beber quase 4 litros de suco de laranja por semana. E como a maioria dos sintomas tem haver com questões nasais, bom, aí não rolou.
Entretanto passei 3 dias seguidos com febre. E foram 3 dias de grande calor. E é muito esquisito sentir febre no calor. Você sente ao mesmo tempo calafrios e o corpo pegando fogo, você busca o gelo e fogo, e aí na dúvida você coloca o climatizador virado pra sua cama e dorme torcendo pra acordar só geladinho e não com uma baita duma pneumonia. E aí tudo o que vem em seguida é consequência. De todo modo, passada a febre e os sintomas gerais da pra dizer que o saldo foi ok. Não perdi paladar ou olfato \”que na verdade é o que mais me assustava na covid\”, minha memória tá normal \”Que é bem acima da média\”, meio que tudo se saiu ok. A questão fica na minha cabecinha pelos dias não trabalhados, pelo julgamento autoimposto de quase não sair de casa pra não pegar essa merda e acabar efetivamente pegando essa merda, pela ironia de sentir febre no verão. Mas isso eu abordo mais pra frente.
Anyway, , continuo não recomendando a tal da covid. Use máscara em ambientes de convívio comum, tome as vacinas, mantenha seu sistema respiratório em dia. E beba muito suco de laranja. Não pela covid em si, só é uma delícia mesmo.
Reflexões Febris
um dos hábitos mais saudáveis que adquiri esse ano foi o de usar meu smart watch pra medir meu sono. Você coloca o celular pra carregar ali do lado do travesseiro, deita na cama e no dia seguinte tem uma série de dados e estatísticas que vão justificar todas as suas escolhas ruins e todo o seu esgotamento que é constante, mas você jura que poderia ter sido resolvido se a noite de sono não tivesse sido uma merda.
É quase como a ciência dos signos só que baseada em sensores e microfones.
E um dos recursos mais legais de aplicativos que medem seu sono é que unindo seu smartwatch ao seu smartphone eles podem gravar ronco e demais sons durante sua noite de sono. E aí você pode ouvir isso depois, numa grande biblioteca cringe de sons que você não quer ouvir nos dias comuns. Eu também acabo usando isso pra registrar sonhos, algo que fazia anteriormente com o próprio gravador. Mas o mero ato de pegar o smartphone, abrir o app de gravação e começar a falar já me fazia perder algum detalhe, então ter um aplicativo que me de meu sono, justifica meus erros, grava meus sons de bronca nos gatos as 3 da manhã e também engasgos eventuais e também flatulências e também gatos dando bronca em outros gatos que querem novas posições na cama, que faz tudo isso de forma automática e ainda me permite gravar os sonhos de forma mais fácil, bom, é uma enorme mão na roda.
Uma expressão dialética que aliás não faz sentido já que se você coloca a mão na roda é porque o terreno não facilita sua rolagem ou porque ela não tem um motor que a coordene ou porque um caminhão passou na sua mão. E nada disso é bom.
Enfim:
Outra questão da qual sofro é que sempre que tenho febre acima dos 39,5 acabo tendo delírios. Isso só ocorreu 4 vezes em toda a minha vida, mas ocorreu. E isso é um fato.
Assim sendo, nos últimos 3 dias de febre que vivi eu tinha gravações extremamente claras dos meus delírios febris, momentos em que por vezes eu esquecia estar vivendo um sonho e falava coisas. Coisas ainda mais desconexas que um sonho já que bom, seu cérebro tá literalmente fritando e tem coisas ali com as quais ele não está acostumado.
E foi estranho ouvir tudo isso. Eu poderia simplesmente não ouvir mas, eu queria saber como era, queria entender o que eu pensava, já que quando esses delírios passam, eu só lembro das sensações, nunca dos detalhes como em um sonho. E bem, não há nada de especial aqui.
Num deles eu delirava que estava em uma panela de pressão. O mundo era uma panela de pressão. E nela as pessoas precisavam nascer, existir e tomar todas suas ações importantes antes de ficarem completamente cozidas. Tudo como num grande timeout adventurer do Playstation.
No outro eu acho que alguém em dava um bolo de prestígio. A gravação quase não tem sons mas, durante minutos eu falei 3 vezes \”bolo de prestígio\”. E bem, eu amo bolo de prestígio.
E no último eu acreditava fielmente que tinha transmutado em um dos meus gatos. E que agora eu era um gato e viveria uma vida de gato. Nesse em específico eu ficava mexendo as mãos pela cama, acho que como se fosse um gato, os sons não deixam claro. A gravação de voz só tem 2 registros que dizem \”agora eu sou um gato\”.
To contando tudo isso aqui porque é esquisito perceber como o corpo humano pode se tornar rapidamente disfuncional ao ponto de nos esquecermos da realidade vigente. Isso é, supondo que algum dia tenhamos existido nela. Talvez nem eu mesma exista. E nesse caso, culpe sua mente por ter elaborado uma newsletter tão ruim como algo parte do factual. Embora, é claro, se a elaboração fosse muito boa, você talvez desconfiasse. Enfim, voltando.
Tudo aquilo que ouvimos, falamos, pensamos e vemos é controlado por um sistema que é quase que infalível. Mas quando ele falha fica uma sensação bizarríssima. É como quando minha retina descolou e eu ficava vendo pontos luminosos flutuantes. Ora, a luz é resultado de outros processos químicos. Não tem como haver luz no meu olho, a não ser que AH, ual.
É nessas que nós percebemos que nós somos literalmente pequenos construtos imaginativos. Nada de fato nos prende ou é definitivo. Se houver força de vontade, podemos adotar outra personalidade em um, 2 meses. Obviamente, fatores que dependem de vivências não são tão maleáveis, mas, tudo o que somos é em parte por escolha. E as vezes escolhemos mal.
O Bom, O Mal e o Óbvio
Ficar tantos dias na cama me fez procurar coisas pra me entreter enquanto estava acordado. Mas não poderiam ser coisas do entretenimento comum, já que eu precisava lembrar que estava doente pra não simplesmente pegar 2 freelas e trabalhar caindo da cadeira enquanto reconhecia minha hipocrisia e imediatamente a aceitava sendo hipócrita com minha própria hipocrisia.
Aí num dos raros momentos em que abro a Netflix no ano achei lá na home na aba dos já assistidos Seinfeld. E aí dei play. E aí matei duas temporadas de Seinfeld enquanto meu corpo tentava se reconstruir. A grande questão na minha cabeça ficou pela primeira temporada de Seinfeld, onde nos é mostrado o processo de aceitação e ao mesmo tempo de aproximação de Jerry e Elaine, um casal que claramente seria o par numa comédia dos anos 90 mas que, na série, que inclusive se passa nos anos 90,tem outros focos.
Todo o processo das expectativas que são criadas e imediatamente mortas do casal reatando, toda a questão da dificuldade deles em se relacionarem com novas pessoas, tudo isso nos é mostrado com a sutil beleza de uma série que não tinha isso como foco, e por isso não se aprofunda nisso. É quase como conversar sobre bacon num evento de confeiteiros.
O que pipocou na minha cabeça no entanto é que por algum motivo eu me senti um adulto bem menos funcional que eles. Todos os meus antigos relacionamentos acabaram de formas diferentes, nenhum deles com minha ex namorada como minha amiga me visitando diariamente pra me contar do maluco que tem 2 gatos com quem ela está saindo. E bom, eu tenho 6, eu seria um bom ouvinte pra isso.
Por algum motivo percebi que mesmo Seinfeld, uma série que é extremamente desapegada de médias e clichês trata quase que de forma literária o tal do amor. Óbvio, toda a relação deles cumpre um papel do roteiro, existe um motivo técnico pra aquilo. Mas não há lógica, não há o compromisso com o factual que há em outros termos da série.
E amores e paixões são um pouco sobre isso né. Sobre o que vai além do comum, o que é inédito, imprevisível. 2 contadores podem se apaixonar, e aí se casarem e viverem uma grande aventura juntos. Na vida real eles são contadores, e fazem, bom, coisas de contadores. Mas no círculo íntimo dos dois eles tem sonhos malucos, ideias malucas, uma paixão maluca.
Só que a parte ficcional acaba aqui. Quando o amor se esvai, o que sobra são duas pessoas que outrora se conectaram e que agora não sabem o que lhes fazia gostar do cheiro do travesseiro do outro pela manhã, ou como foram capazes de tomar café da manhã pelados num hotel enquanto conversavam sobre arremesso de discos ser ou não um esporte.
Muita gente trata Seinfeld como a exacerbação do absurdo. Agora eu entendo que de certos pontos Seinfeld é a atenuação da realidade e a supressão do sentido.
Imagens
Esses dias desabafei no Twitter sobre como gostaria de ser capaz de desenhar. Nada em especial, é só que me parece que pessoas que desenham tem uma sensibilidade maior à coisas fofas da vida. E as vezes sinto que me falta um pouco disso. Um pouco de poesia no trato com o mundo. Desenhar é a arte de dar cores à imaginação. Existem outras formas de se dar vida ao que se imagina mas, só o desenho tem cores bonitas e pode ter linguagens que denotam maior fofura ou terror ou sei lá, preguiça. Tenho pra mim que pessoas que desenham são elevadas de alguma forma. Algo que se desbloqueia na sua cabeça, sei lá. Talvez haja até um clã oculto de pessoas que desenham, uma seita de pessoas que são sentimentalmente mais bem resolvidas e que dão bom dia pros pássaros todos os dias sem nunca se enjoarem.
Se eu pudesse aprender 3 coisas novas aprenderia a desenhar, a atirar com arcos \”Uma pessoa cega que atira com arcos seria muito foda\” e a fazer bolinha de chiclete. Eu nunca soube fazer bolinha de chiclete, nunca consegui.
Talvez até eu pudesse me desenhar numa estética fofinha dando um tiro com um arco enquanto faço uma bolinha de chiclete.
Viu só, essa é a arte da representação que um desenho faria. E é isso que admiro e invejo em pessoas que desenham.
E pra ouvir dessa vez?
A indicação musical dessa semana é uma das mais fáceis.
DR. Drill é a nova mixtape do MV Bill e você deveria muito ouví-la.
Primeiro porque ei, é o MV Bill.
Depois porque é um excelente álbum de Drill. Que serve tanto pra quem já curte Drill quanto pra quem não sabe o que é Drill. E por fim porque é belo ver a modernização de artistas que já são consagrados. Exemplos atuais como Edie Rock, Black Alien, o próprio álbum de 2016 do Mano Brown deixam claro que bons artistas se modernizam, independentemente dos gêneros. E se o Leonard Cohen conseguia, bom, eles também conseguem.
