O que não vai demorar muito, se depender do cheiro de Cu de Castor
Se você caiu aqui significa que já usou, usa ou pretendia usar o Twitter. E seja lá qual for o seu caso, sinto lhe informar, mas esta repartição está com os dias contados.
Elon Musk mal completou 15 dias no cargo de CEO do Twitter e já iniciou o projeto \”Twitter On Space\”, que basicamente consiste em mandar para o espaço a rede social mais relevante dos meios digitais. Ainda é uma bolha, mas é uma bolha que pauta programas televisivos, jornais, debates, CPIS e até crimes.
O problema é que o Twitter é algo que existe, e como tudo que existe, está à mercê de homens com grandes fortunas, grandes ambições e pequenos corpos cavernosos penianos.
Em menos de 15 dias Musk demitiu metade da empresa, destituiu todos os outros diretores executivos e fez publicações suspeitíssimas em sua própria conta. E não sei você, mas eu pelo menos amo o Twitter. Amo a forma como se dão as interações, como é fácil publicar algo e atingir pessoas, como é simples dividir alegrias e tristezas. E nenhuma rede social tem interações parecidas ainda. Então…
Já me preparando para o momento em que clicarei no botão \”delete my account\”, fiz uma busca pelas melhores alternativas ao Twitter, para aquelas em que mais se aproximam em experiência de uso. E abaixo listo-as junto com seus prós e contras.
1. Aquela que Não é uma Alternativa, mas preciso falar aqui
Sim, existe o Mastodon. E teoricamente ele seria uma boa alternativa, mas só teoricamente.
Mastodon é uma rede descentralizada onde usuários se cadastram em nós da rede e teoricamente podem interagir dentro da mesma rede ou entre todas as redes. Funciona quase como o Twitter, mas com esse diferencial de cada rede ser uma espécie de servidor único. A principal rede, mastodon.social, tem quase 130 mil usuários. E funciona até que bem para certos padrões.
Entretanto, o Mastodon sofre de uma série de falhas ideológicas e técnicas, e isso à torna um pesadelo em termos de privacidade e segurança.
Em primeiro lugar, nada é realmente seguro. O código fonte do Mastodon usa como base Node.JS e Postgresql, duas tecnologias absurdamente populares no mercado, mas nada seguras em termos de desempenho comercial. E como alguém que passa vários dias do mês removendo malwares, posso lhes garantir que está longe de ser algo adequado.
Não quero entrar em detalhes técnicos aqui, então vamos usar exemplos.
Suponha que você comprou um portão com controle remoto para sua casa. Um dia, você recebe um e-mail da empresa que lhe vendeu o portão informando que é preciso que se faça uma atualização no portão para corrigir uma falha que permite abrir o portão com qualquer controle remoto compatível, não só o seu. Você aceita a atualização mas guarda essa informação. A noite, você decide visitar a casa de um desafeto que usa um portão similar, apenas pra testar. Aperta o botão do seu controle e, Voila, portão aberto.
Assim também o é com versões do Node. Sempre que um novo problema de segurança ou desempenho é descoberto, ele é detalhado nos changelogs (Logs de alterações) da versão. Usuários técnicos certamente vão atualizar a Build o quanto antes, mas, bem, o Mastodon não é mantido apenas por usuários técnicos, a sua rede pode não o ser. Isso vale também para versões do Postgresql e, é claro, para o próprio Mastodon, que também é de código aberto, também divulga suas correções de segurança e, se o responsável pela rede em que você se cadastrou não fizer a atualização de versão, abemus ataques.
Na Deep Web, é bem simples encontrar pacotes de contas e dados do Mastodon vendidos entre US$15 e US$100, dependendo do número de dados e de usuários vasados.
E aqui vamos ao segundo problema, a descentralização é mal feita, e também tem problemas de segurança.
O Mastodon é descentralizado, de fato. Mas as informações são replicadas entre as redes, não apenas lidas. Então, se você da rede A envia uma mensagem para alguém da rede B, sua mensagem está guardada tanto na rede A quanto na rede B. Isso significa que o usuário que recebeu sua mensagem na rede B pode baixá-la e enviá-la para a rede C, que você da rede A pode baixar a mensagem dele e enviar para a rede D, assim por diante. Some a isso o fato de que cada administrador do servidor de cada rede pode acessar todos os arquivos de todas as contas, ou seja, nada é adequadamente seguro. Alguns dados até são guardados criptografados, mas em Base 64 uma criptografia extremamente simples.
Por fim, o Mastodon não é mantido apenas por usuários técnicos. E isso implica diretamente nos problemas que relatei anteriormente.
Peguemos como exemplo duas instâncias que já vi passarem lá pela minha timeline do Twitter.
Não usa a versão mais atual do código base do Mastodon V3.5.3, mas sim a versão 3.5.2;
Tem a porta SSH \”Porta de acesso ao servidor\” aberta, onde qualquer um pode iniciar um ataque afim de descobrir o acesso de administrador (Não é nada tão complexo);
Não usa nenhum tipo de proxy e é bem fácil ver cada requisição sendo feita no navegador.
ou
Porta SSH igualmente aberta;
Atualizou a versão enquanto eu escrevia esse artigo.
Aqui na página de releases você pode ver todos os problemas que foram corrigidos em últimas versões do Mastodon. Usuários técnicos podem e usam essa lista para justamente elaborar ataques contra essas instâncias desatualizadas. Pessoalmente não acho que seja um risco aceitável.
Por conta disso, não vou elaborar uma lista de pros e contras, já que bem, não acho que você deva se expor à esse ponto.
2. A Melhor e utópica Alternativa, Mas que Ainda Não Existe
Em 2019 o nerd estranhíssimo e co fundador do Twitter Jack Dorsey falava pela primeira vez de algo que parecia mais um de seus sonhos febris. Uma rede social que seria a última e definitiva.
A ideia é uma rede que trás consigo um protocolo que permite integrar e transferir dados de um lugar para outro com apenas alguns cliques. A rede deixa de ser então apenas uma rede única e torna-se um protocolo. Complexo né, é mesmo, então eu explico abaixo:
Você cria uma conta em um site qualquer da rede, vamos chamá-lo de Blue Sky. Preenche seu perfil, coloca lá sua selfie de biscoitagem, divulga bastante seu pix em 9 posts diferentes.
Uma vez publicadas nesse site, outros sites que usam o mesmo protocolo poderão exibir as informações que você publicou lá no outro site. Não é preciso vincular nada, és ó eles serem compatíveis.
Se você assim desejar, pode atualizar sua conta por qualquer um dos sites da rede, não precisa ser pelo site onde criou a conta. Isso torna as interações mais simples e ao mesmo tempo descentralizadas, e ao mesmo tempo, simplifica pra você. Se outras redes sociais como Facebook ou Instagram decidirem tornar-se compatíveis, você pode unificar seus perfis inclusive. Pessoas de quaisquer redes compatíveis podem ler o que você escreve, interagir com você e repostarem o que você publicar. E isso será visível e presente em todas as redes que usem o mesmo protocolo.
Esse é o Blue Sky, o projeto utópico de Jack Dorsey, que já tem uma lista de espera, mas que deve demorar ainda uns bons anos para ser algo paupávei e viável.
Se você gosta de explicações complexas, aqui vai:
O Blue Sky vai implementar e definir um protocolo chamado ATP ( Authenticated Transfer Protocol), que te permite migrar e importar as informações entre diferentes redes sociais, assim como definir o algoritmo que ela usa. Seria possível, por exemplo, usar um Twitter com algoritmo de Instagram, ou um Instagram com algoritmo de Pinterest. Algoritmo e informações migram junto com você, só muda o endereço que você digita na barra do navegador, ou o aplicativo que instala no smartphone.
Idealmente, essa seria a rede para onde fugiríamos. Mas bem, ela ainda não existe. E, quando existir, talvez seja complexa demais para usuários leigos entenderem. Não é um aplicativo simples que você baixa, preenche um perfil com o nome de \”cuzudo\” e logo em seguida publica um post perguntando Onde pode trocar o nome de perfil que você mesmo definiu
Então vamos aos prós e cons:
pros:
É uma rede verdadeiramente descentralizada, extremamente flexível e, acima de tudo, independente de tecnologias específicas.
O ganho de privacidade é imenso, já que as informações estão em um arquivo de leitura, e não há como múltiplos pontos armazenarem os mesmos dados.
Seria bem legal. E um novo passo para a tal da internet.
Cons:
Seria bem complexo. O conceito de granularidade de informações assustaria as pessoas.
Ainda não existe.
Eu mesmo já me inscrevi na lista de espera, você também pode. Mas acho que vamos precisar de uma alternativa viável ao Twitter antes de o Blue Sky se tornar algo.
3. A Que Existe e Que eu Escolhi, Por enquanto
Já passamos pelo distópico, pelo utópico, bem, agora chegamos ao que é real. E a melhor alternativa que pude encontrar é a rede CoHost.
Tudo aqui soa como um Twitter simplificado e ainda um pouco lento \”Eles devem ter, sei lá, 1/1300000 da renda que o Twitter tem\”. Ainda não há interface em Português, existem limitações e bem, há uma assinatura paga. Mas me pareceu um meio termo justo.
A rede possui interações parecidas com o Twitter, não tem anúncios e, à despeito de o servidor ser na casa do caralho e ainda ser meio lento, funciona bem ao que se propõe. No caso emergencial do Twitter ir pro saco ou se tornar inviável, é pra lá que eu vou.
Então vamos à eles, os pros e cons.
pros:
Possui interface bastante similar ao Twitter, assim como meios de interação parecidos, e até tem opções adicionais legais, como pronomes especificados fora da BIO ou ocultar replys no perfil;
Uma rede sem algoritmos na Timeline (Yeiiiiiiiiiiiiiiiiiii);
Existe e funciona.
Cons:
Servidor é bem lentinho pra certas coisas;
Ainda sem interface em Português;
Por enquanto, sem aplicativos móveis
Seja como for, já criei Meu Perfil lá. Se a coisa der ruim, já tenho pra onde correr.
Nota Final:
Esse artigo não é de forma alguma um aviso desesperado de que o Twitter acabou e precisamos marchar para as colinas. Minha ideia foi apenas listar o que já existe e te dar a chance de já garantir seu username hypadinho lá na outra rede. No mundo ideal, nada no Twitter muda e continuamos aquele maravilhos oversharing com sirandismo que rola por lá. Mas bem, o mundo ideal tem sido cada vez mais distante e gelado.
O Substack é colaborativo. Então se você tem outras sugestões, a barra de comentários tá aí em baixo. E se você for um bom sniper, bom, tenho alguns serviços pelos quais não posso pagar mas que gostaria muito. Me manda DM lá no @jonassmarques, e se rolar um desconto de 100 % pelo meu aniversário que é em breve, vou te amar.
No mais, keep tweeting!
