Mentiras Verdadeiras

Como Nos Tornamos tão Simplórios?

Sempre tento não trazer assuntos pessoais demais pra essa NewsLetter. Medo de que fique parecendo um blog ou um diário de uma menina de 15 anos. Mas bom, hoje falhei terrivelmente. Então imagine que o que vem a seguir é um blog de uma menina de 15 anos que resolveu publicar seu diário nele. Ou alguma coisa meio parecida com isso.

O Mentiroso

Sim, o Mentiroso, Liar Liar, aquele filme de 1995 do Jim Carrey que à esse ponto é só 1 ano e 11 meses mais novo do que eu \”O filme, não o ator\”. Um pouco menos na verdade, mas, enfim.

Ser uma criança pobre nos anos 90 limitava muito as escolhas de entretenimento, especialmente de filmes. Até havia quem tivesse aparelho de vídeo em casa mas, bem, 2,50 poderia ser um filme ou 1 KG de linguiça, e acabava sendo 1 KG de linguiça. E nesse caso, tudo o que restava era assistir à filmes na tv aberta.

Só que nem sempre se pegava um filme do começo e, à depender do horário de exibição, o filme tinha mais ou menos cortes. Então era um pouco mais complexo do que parece ver um filme por completo.

O primeiro filme que tenho em memória de ter assistido do início ao fim foi Liar Liar ou O Mentiroso, já lá pelos anos 2000. Lembro-me que era um sábado, e aos sábados tínhamos filmes entre o programa do sábado e a novela das 6. E foi num sábado quente, com um copo de suco de limão que pude parar no sofá e apreciar esta obra de arte.

Pausa para uma curiosidade:

Em minhas pesquisas acabei descobrindo que existe uma Wiki com datas e lista dos filmes exibidos na sessão de sábado. Ela está incompleta e não entendo qual é a necessidade de haver algo assim, mas bom ela existe.

Pois bem:

O filme em si não ficou muito marcado em minha mente, talvez por ser adulto demais para o pobre Jonas. Até uma hora e meia atrás eu o confundia com o famoso filme Sim Senhor \”Yes Man\”, que por sinal é 11 mais velho apesar de ser uma baita reciclagem. E bem, como os dois filmes tem premissas parecidas, não duvido que almas tão desavisadas quanto eu também tenham confusões sobre esse filme.

Fato é que por algum motivo decidi que hoje era um bom momento para rever esse ótimo filme, que está na Netflix inclusive.

Mas bem, antes disso, uma outra questão.

Incansável e Imparável

Já a algum tempo algo me incomoda na forma como tenho interagido com conteúdo na internet. Por vezes me sinto um tanto quanto impaciente, seja pulando vídeos até algum ponto que me interessa e posteriormente os fechando se não me entretiver o suficiente, seja simplesmente optando por não ver nada quando poderia ver algo. Sentia e sinto uma enorme dificuldade de escolher algo para ver e, quando o escolhia, se fosse muito ruim, uma ainda maior dificuldade para abandonar. É por isso que entre outras coisas terminei a série Blindspot no ano passado, facilmente uma das piores séries já feitas e produzidas em termos de história e roteiro. E também por isso que ontem decidi tentar ver a sexta temporada de The Flash na Netflix. Mesmo já tendo largado a série duas vezes. Mesmo sabendo que só piorou e só piora. Simplesmente por ter Netflix e estar sem nada pra fazer eu decidi que deveria abrir aquele maldito aplicativo e clicar em algo, simplesmente clicar em algo.

E isso me trás à um segundo ponto.

Desde o começo da pandemia tenho uma enorme dificuldade com momentos de solidão. Não pode haver silêncio nunca. Se estou trabalhando, o leitor de telas me é uma espécie de companheiro. Se faço uma leve pausa, Youtube.com ou twitch.tv. Se vou almoçar ou jantar ou fazer uma pausa pra qualquer outra coisa, preciso colocar alguma mídia no smartphone pra acompanhar enquanto como, normalmente um podcast ou vídeo em segundo plano no Youtube. Não há espaço para pausas sonoras. É preciso que sempre algo me distraia, me informe, me entretenha. E bem, obviamente isso faz mal.

Para além disso, existe ainda o fato de que à muito tempo não paro para ver um único filme sequer. Todo meu consumo de cultura de cinema se resume a séries, e bem, não entendia o motivo.

Tudo isso no entanto caiu hoje por terra enquanto eu tentava encontrar algo para me saciar do dia horrível que tive. Até que me peguei com 4 abas abertas na home do Youtube, todas procurando algo, nenhuma efetivamente clicando em algo. Outras duas janelas de navegador pesquisando coisas para estudo, uma aba com o curso de Italiano do qual já fiz 40 minutos hoje. Não poderia haver pausa, tinha que fazer algo. E bem, eu já tinha visto todos os vídeos do Youtube que poderia querer. Tamanho é meu consumo que a home agora me sugere vídeos de canais dos quais nem sou inscritos ou até vídeos de coisas estúpidas com pouquíssimos views, como por exemplo O desse tweet aqui.


Decidi então lutar contra meu próprio algoritmo interno e ver alguma coisa, qualquer coisa. Como sempre fui fã de comédias, decidi então que seria uma comédia. E uma que eu já gostasse, pra sei lá, ter certeza. E aí abri a Netflix no navegador, digitei \”Jim Carrey\” (O primeiro nome que me veio à mente), busquei e, bom, O Mentiroso.

Aí veio a confusão com Yes Man ou Sim Senhor (Como preferir), aí li a sinopse, entendi que não era, lembrei do sábado e me preparei.

Troquei a saída de som dos fones para as caixas de som, coloquei o climatizador no vento mais fraco, bebi um copaço d\’água, peguei um punhado de uvinhas na geladeira e, bom, Play.

As Mentiras que Contamos para Nós Mesmos

O Mentiroso é um filme sobre um pai fracassado que é também um advogado medíocre, um ex marido horrível e um ser humano deveras questionável. O começo do filme nos mostra ele exercendo sua, bem, capacidade infinita de mentir. Cumprimenta educadamente pessoas que ele odeia, distribui elogios falsos, foge de obrigações paternas e também para com sua própria mãe, enfim, alguém que certamente seria canceladíssimo no Twitter. Mas claro, momentos de humanidade e veracidade escapam da personagem e bom, nos afeiçoamos à ele.

Daqui pra frente tem spoiler. Se você tem menos de 25 anos e nunca viu esse filme, ou se só nunca viu, o se não viu e nem liga, vai lá ver mesmo assim. É um bom filme. Deixa de serchatão.


Como bom pai relapso, ele acaba não comparecendo ao aniversário do próprio filme e, bem, magoando muito a criança, que está prestes à se mudar com sua mãe para outro estado, já que a mãe iniciou uma relação com outro rapaz que vai se mudar, e esse rapaz convidou a mãe pra ir junto.

Aí a criança fica muito triste, sopra a velinha do bolo e deseja que o pai passe um dia inteiro sem mentir. E aí da-se início ao filme.

Jim Carrey acontece como um furacão, cenas engraçadas e curiosas acontecem, ele tem o carro guinchado, ganha um processo sem mentir (No total improviso e com muita boa vontade do roteiro), é preso, sai, se agarra num avião, pede desculpas ao filho e, bom, como o pedido do filho era para que o pai não pudesse mentir apenas por um dia, o efeito acaba.

E aí no final do filme somos levados ao próximo aniversário da criança, onde a mãe e o pai estão juntos, a criança está feliz e o namorado esquisito foi claramente escanteado. E tudo acaba como deveria acabar num bom filme noventista do Jim Carrey.

Obviamente o filme não tem grandes críticas  profundas, me estranharia até se tivesse. Tam pouco há qualquer veracidade com a vida real, onde o personagem de Jim acabaria abandonado por todos e  causaria  mágoas irrecuperáveis no filho e na ex mulher que o odiaria pra sempre. Mas bem, é um filme de comédia, e ele se agarrar num avião resolve tudo.

Ah sim, claro. Faltou eu dizer que a personagem dele traia a mãe antes da separação, que parece ser até o motivo, enfim, o filme não entra nessa questão.

Só que esse filme me ganhou muito, e por motivos diferentes dos da primeira vez que o vi.

Primeiro de tudo, o filme ainda é bom. Uma ou outra piada envelheceu meio mal mas, bem, a grande maioria ainda é engraçadíssima. E há até uma ou outra crítica solta que condiz com os dias atuais, como o breve monólogo da personagem de Jim enquanto foge de um pedinte e explica pra ele porque não vai lhe dar dinheiro.

Depois, e aí principalmente, porque enquanto os créditos do filme rolavam eu me senti esquisitíssimo. Senti que passei os últimos meses mentindo pra mim mesmo. Lembrei de cada mentira que já contei pra outra pessoa, mas, para além e principalmente, das que contei pra mim mesmo. Das vezes em que justifiquei não parar de trabalhar pensando em algo futuro, das faltas que tenho com meus gatos e até com amigos, do fato de só ter visitado 3 vezes a criança da qual fui escolhido como padrinho por um de meus melhores amigos. Dos restaurantes que desisti de ir sozinho por mentir pra mim mesmo que seria inadequado, das pequenas mentiras que acumulei comigo mesmo nos últimos anos, até mesmo das verdades que optei por não me contar.

E bem, aí foram 30 minutos de eu deitado na cama com um potinho só com galhos de uva pensando, olhando pra cima, ouvindo o barulho da brincadeira dos gatos, o som do climatizador no mínimo, os ruídos da rua que era populada por pessoas cansadas voltando pra suas casas de suas vidas cansativas.

Dia após dia, tristeza após tristeza, tenho tentado me convencer de que estou bem, de que está tudo bem, de que minhas férias podem esperar, de que há outras coisas importantes. E bem, tudo isso é mentira.

Uma pessoa incapaz de suportar o silêncio não está bem. Alguém incapaz de parar de correr não está bem. E eu efetivamente não estou bem.

Decidi então que ia planejar minhas férias, que precisam ser em breve. Decidi que não ia fazer mais nada no dia de hoje, apenas deixar o tempo passar até o sono vir.

Aí abri o editor de markdown e escrevi esse post enorme.

Novamente, eu menti.

Diferentemente do filme, não há um pedido mágico que me fará parar de mentir. Tampouco consequências tão brandas quanto as do filme. Mas bem, pelo menos eu acho que já sei o que se passa, é um progresso.

Quem sabe qualquer dia desses não minto pra eu mesmo que não preciso mais mentir pra eu mesmo. E aí posso acabar acreditando. Ou algo assim.

É como dizia a música dos Racionais MC\’S:

Em Qual mentira Vou acreditar?

E A Musiquinha da Semana;

Um dos meus duos favoritos da atualidade do R&B é DVSN. Daniel é um ótimo cantor e, bem, Nine consegue criar bases e instrumentais que extraem tudo o que de melhor a voz e a forma Languida de Daniel cantar podem entregar.

o álbum novo deles sai nessa sexta 28, e você pode ouvir aqui. Recomendo muito apesar de só ter ouvido 3 músicas até agora. Todas são incríveis.

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