Cansei

Um cansativo e cansado ensaio sobre o Cansaço

Existe algo muito vergonhoso no cansaço. Alguma coisa que ativa um instinto primordial em nós e que nos faz ter vergonha de estarmos cansados. É quase como se um dos primeiros humanos um dia tivesse olhado pra galera dele e dito \”Ei, pessoal, to meio cansadin\”, ao passo que eles riram dele e bateram nos próprios rostos em escárnio. Aí talvez esse primeiro humano tenha ficado pra trás aos gritos de \”molenga molenga\” e os outros entraram na mata e acabaram mortos por um bando de qualquer um desses bichos que matam bem matado. E aí talvez isso tenha marcado esse humano sobrevivente, que, sem saber da morte dos companheiros, morreu achando que tinha sido deixado pra trás enquanto seus amigos nus peludos estavam por aí desfrutando de uma vida incrível e cheia de aventuras. E pior, sem que ele próprio soubesse que teve uma vida muito melhor que a dos ex companheiros, que acabaram mastigados e deglutidos por algum bicho que também acabou mastigado e deglutido. E então, em seu túmulo de morte, arrependido e numa morte confortável mas tediosa, o primeiro humano teria dito:

Nunca jamais um de minha família dirá estar cansado novamente. Ainda que lhe pesem as pálpebras, que lhe doam as costas e lhe arqueie o corpo, jamais se dirá cansado. Pois nenhum dos de minha linhagem jamais será perdido ou esquecido por ter estado cansado. Morro aqui, mas junto comigo morre meu legado de cansaço.

E aí talvez ele deixou no testamento dele que quem ficasse cansado não teria direito aos 15 galhos dele e ao garfo feito de dente de alguma coisa. E por conta disso, toda boa família briga por testamento, então se mostraram orgulhosos e nunca mais se permitiram descansar. E alguns muitos milhares de anos depois, cá estamos nós.


Eu Estou Cansado

É uma constatação difícil de se fazer. Dolorosa. Cruel até. Mas eu estou real efetiva e totalmente cansado. Física e mentalmente.

Do lado físico, já são 5 anos sem férias e sem parar de trabalhar. Houveram sim períodos de repouso, mas nunca maiores do que alguns dias, insuficientes pra que o corpo se esquecesse da cadeira gigante e das 12 ou mais horas diárias nela acomodado enquanto a mente se esforça para trabalhar e manter o corpo alimentado, aquecido, resfriado hidratado, nutrido. São 5 anos de sono absolutamente irregular, caótico e pior de tudo, curto. São 5 anos sem os devidos exercícios e cuidados físicos. E bom, meu corpo está cansado.

Do lado mental, bem, são 4 anos de governo Bolsonaro, 2 anos de uma das maiores pandemias da história moderna, 5 anos de trabalho ininterrupto onde a mente não tem repouso e tem sempre que pensar no próximo cliente, no próximo trabalho, no próximo contrato. E claro, lidar com as reclamações do corpo cansado, que bem, não se cansou ainda de reclamar.

Mas há um novo cansaço, um novo esgotamento. Uma coisa que ainda não havia notado até esses dias. Algo que me tem doído a cabeça em pensamentos ao longo da última semana.


Eu estou digitalmente cansado


Sim, isso é esquisito de dizer. Mas eu estou digitalmente cansado. E muito desse esgotamento se deve ao que houve na última eleição.

Eu sei que a internet é uma bolha, e que redes sociais são bolhas de diferentes tamanhos. Sei também que o lado digital é apenas uma faceta de nossas vidas. Mas a grande verdade é que dada a resposta das pessoas do mundo real ao problema real do nosso país real, bom, toda a onda de esperança dos últimos meses se transformou num enorme buraco de desesperança no fundo da minha alma. E aí tudo na internet perdeu cor, sabor, forma.

A questão é que tamanha foi a desconexão entre o mundo virtual e o real que tive um choque de realidade gigantesco. E foi muito confuso.

Agora olho pras coisas que antes costumavam me divertir, me entreter e até me emocionar e não me reconheço em nenhuma delas. Mais ainda, tiro por vezes o valor delas. A piada na internet virou só mais uma. O tweet engraçado virou só outro dentro milhões. O vídeo emocionante é fútil, despido desse pedaço de realidade que falta no digital.

E sei que o erro está em mim, na minha cabeça, na minha mente. Eu entendo que sou eu que me desiludi do poder que talvez a internet realmente tenha. E sei que só estou frustrado por ainda dividirmos os ambientes físicos e digitais com tanta gente horrível.

Mas a questão é que não consigo descansar. E a internet costumava justamente ser o maior dos meus descansos. Onde o corpo se esquecia de reclamar com a mente e a mente se permitia nutrir de alguma criatividade, alegria, entretenimento.

Justamente por isso não fui capaz de produzir um texto melhor pra essa semana.

escrevi 29 parágrafos, achei tudo fútil, apaguei e removi também da lixeira. Não importava. Não faria diferença. Não seria nada além de mais um texto.

A questão é que me cansei e acho que também esqueci como se descansa. E agora vou ter de procurar reaprender, ou seja, me esforçar mais.

Na próxima newsletter prometo voltar mais descansado, pelo menos da internet.

Uma Música e a Reflexão de Arte

Parte da minha rotina no ano de 2005 envolvia trabalhar horas por dia na Lan house do meu professor de educação física. Entre 2005 e 2007 eu estudava numa escola que ficava a 2 quarteirões de casa, então dispunha de um tempo que desconhecia dos outros anos de educação. Como resultado, consegui um pequeno emprego na Lan House onde aproveitava pra usar a internet e aprender programação e baixar coisas legais.

Uma das maiores características das lan Houses, no entanto, eram suas playlists de músicas contemporâneas, algo que atraísse os jovens e entretece quem lá passava 6 horas só liberando e regulando tempo das pessoas. E como já gostava de música, sempre me era dada a permissão de escolher parte do que tocaria ao longo do dia. Na época uma das modas eram os raps paródia, que basicamente consistia em alguém pegar uma base de alguma música estrangeira e rimar o que quisesse por cima. Nessa onda surgiram grupos como o Bonde da Stronda, Tribo da Periferia e seu mais clássico expoente, o cantor Mag. Mag foi inclusive o idealizador e fundador do grupo Facção Central, um dos mais famosos grupos de rap da cena paulistana dos anos 90 e 2000. Infelizmente, por conta da evolução dos algoritmos de copyright flag, quase nenhuma música de Mag existe em algum lugar público que possa lhes enviar. Inclusive minha recomendação, que está embedada no substack como arquivo e que só posso lhe pedir que se leu esse texto por e-mail, vá lá no site ouvi-la se achar que deve.

A questão é que as músicas de Mag não diziam muito. E nem desejavam. As letras eram quase todas sobre maromba, pegar mulheres ou rachas de carros, coisas que eu não fazia naquela época e, bem, não faço muito ainda hoje. Mas era o que a molecada gostava de ouvir e era o que ia na Playlist.

Um dia, no entanto, navegando por locais onde baixar novas músicas, encontrei uma pasta enviada pelo próprio artista, ou alguém que se identificava como ele. E lá haviam outras músicas. Músicas diferentes das que o pessoal gostava. E principalmente, músicas que mais me agradavam. Tudo ainda com o tom amador de Mag, e com a produção extremamente precária, mas músicas que diziam algo.

E bem, elas me disseram o suficiente pra que eu baixasse a pasta, salvasse no meu HD de músicas que até então tinha apenas 40 GB \”Hoje em dia são 4,2 TB e contando\” e as mantivesse até hoje.

Recentemente me lembrei de uma dessas músicas e decidi reouví-la. E bem, aí está ela no post. Foi boa parte do que me motivou a sair da inércia dos últimos dias e produzir essa newsletter. Espero que também lhe agrade.

A questão é que Mag nunca se tornou realmente grande. Suas músicas mais antigas são no máximo conhecidas por um nicho, e bem, sua carreira não foi das mais longevas. Fundou o Facção Central nos anos 90 e saiu do grupo antes de seu real sucesso, iniciou uma carreira no rap de paródias que durou, sei lá, 3 ou 4 anos. Até onde se sabe, o rapaz foi morar nos Estados Unidos onde trabalha hoje em dia como produtor de alguma coisa. Mag não tem uma página na Wikipedia, redes sociais que o identifiquem como Mag ou rastros quentes na internet. É lembrado por suas músicas sobre suplementos alimentares ou carros tunados e só.

Mas bom, a música que aí está me marcou e me tocou. Mesmo que não condiga com exatamente minhas crenças, mesmo que seja um tanto quanto esquisita. E cá estou eu, 16 anos depois de tê-la ouvido pela primeira vez a recomendando pra alguém.

Talvez seja isso que torne a arte tão eterna.

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