Uma Latinha de Caos

Ou a teoria que leva à quantificação de eventos mais ou menos irrelevantes em escalas igualmente ambíguas e indefinidas. E ainda te ajuda a economizar no delivery.

Durante uns 3 anos da adolescência eu adorava ler e aprender coisas para as quais não estava ainda preparado. Alguma coisa naquilo fazia com que me sentisse mais adulto, mais próximo daquilo que eu julgava que devia parecer. Pouco de fato aprendi na época, mas hoje consigo lembrar daqueles estudos e tirar uma lição ou outra. Nada que me faça estar à frente de ninguém, mas pelo menos coisas que me fazem rir sozinho enquanto bebo cerveja direto da garrafa no escuro e escrevo uma newsletter numa noite chuvosa de quarta-feira.

Alguma coisa com a teoria do caos ou algo assim.


Já Parou Pra Pensar?


Esses dias me deu vontade de comer um hambúrguer. Eu queria sentir aquela alegria que sempre se sente quando se vai comer um hambúrguer com os amigos, ou quando se para pra comer um hambúrguer num dia de compras no shopping.

Como não estava fora de casa, meus amigos estavam trabalhando e bom, não tinha nada que eu quisesse fazer num shopping, recorri ao famoso aplicativo de entregas que monopolizou todo o mercado, já que o App justo ainda não entrega aqui.


Só que fazer compras no aplicativo não é mais tão simples como foi outrora. É preciso seguir um roteiro com pelo menos 3 dos 4 filtros abaixo:

  1. Mapear todos os estabelecimentos similares. Uma vez que tem empresa espertinha que leva muita avaliação negativa no aplicativo e cria mais de um restaurante no mesmo lugar, só mudando o nome;

  2. Filtrar por preço, tempo de entrega e taxa de entrega. Isso porque o aplicativo não faz nenhum esforço pro algoritmo deles fazer sentido, e simplesmente coloca como primeiras opções restaurantes que pagaram pra estar ali e que estão à no mínimo 4 KM de entrega, o que torna a entrega mais cara e bom, enche mais o bolso deles;

  3. Ler as avaliações dos restaurantes que passaram nos dois primeiros filtros, entender quais são os pontos fortes e fracos de cada um, tentar até se possível pegar alguma boa indicação de ítem ou sobremesa;

  4. E essa aqui é bem importante: Checar o preço da lata de coca-cola.

Essa aqui precisa de uma explicação adicional, então vamos lá.

É muito difícil comprar comida online, porque cada restaurante tem suas medidas e quantidades. Não raro você acaba pagando 49 reais num lanche de 300 gramas, o que convenhamos, é um assalto. Então é preciso usar como base um item que quase todo restaurante tem. E nesse caso, estamos falando da lata de Coca-Cola. Em São Paulo, por exemplo, restaurantes de preço bom à justo cobram entre 5 a 6 reais na latinha. Restaurantes de preços médios e ruins cobram de 6 a 8, e restaurantes careiros cobram acima de 8. Minha medida monetária baseada na latinha de Coca nunca falhou.


Executados todos os filtros acima eu já tinha perdido uns 10 minutos. A fome que antes era uma mera suposição já se fazia presente e muito visível. O instinto tentava se sobrepor à lógica e me dizia pra pegar em qualquer uma logo porque tanto fazia. Mas eu queria algo especial, queria aquele hambúrguer afetivo.

Incrível como pode-se usar a palavra afetivo em qualquer contexto e ela ainda vai dar um ar de picaretagem, né;


Eu agora tinha uma lista de 5 restaurantes, cada um aberto em uma aba do navegador no computador. Sim, eu uso o aplicativo pelo computador, porque é mais fácil de pedir e me permite ver opções simultâneas sem precisar sair de uma e fechar a outra.

Mas aí, bom, aí me veio uma epifania.


Cada um dos restaurantes divergia entre si. Uns preenchiam mais alguns filtros, outros menos. Num deles, mal havia descrição do que eram os lanches, só os nomes e o peso. Eram 5 facetas da mesma coisa e ainda assim eram totalmente diferentes. O lanche mais barato era 29 reais. E o mais caro era 45. No de Coca mais barata, 5,50 a latinha. No de mais cara, 6 reais. Tudo era genérico demais. Tudo era despido de personalidade, de graça. Sem amigos, passeio ou compras hambúrguer é um alimento frio. Frígido. Sem moldes.


E aí em um dos restaurantes achei o que me fez feliz naquele dia. Um lanche que levava pão francês, 200G de contra-filé (Ou alguma coisa que se parecesse), queijo, vinagrete, molhos e pasta de alho.

17 reais cada unidade
.


E aí pensei:


Todo hambúrguer segue uma mesma lógica. Pão, carne moída e prensada frita/chapeada, queijo, molhos, condimentos e ou saladas. Todos eles. Mas um lanche que leva as mesmas matérias e tem apenas como forma substancial algo mais simples que é a carne em seu estado puro custa até metade do valor. E vem mais recheio. E tem mais vida.


O que exatamente nos faz então pagar tão mais em um lanche que é substancialmente tão menos?


E aí lembrei dos amigos, das tardes de passeios, das compras no Shopping que normalmente envolviam centenas de reais gastas em perfumes e coisas igualmente desnecessárias mas necessárias.


Pedi 2 lanches de contra-filé, uma porção gigantesca de batata frita e um mousse de sobremesa. Paguei 62 reais com a entrega. A mesma coisa que pagaria em um único hambúrguer, fritas e uma Coca-cola que eu nem queria, no mesmo restaurante.


Naquela tarde eu senti falta dos amigos, dos passeios, das compras. Mas não senti fome. E nem vontade de Hambúrguer.


A Querida Amiga Elise escreveu um ótimo texto sobre os novos lanches do MC Donal\’s, aqueles que saem em toda copa e que nunca comi nenhum pois odeio MC Donald\’s e sou team Burger King. Válá ler, vale a pena.


E o tal do Caos?


Ah, sim, a teoria do caos:


A teoria do caos surgiu de um experimento de Eduard Lorenz que estava testando uma máquina pra previsão climática. Foi daí que surgiu aquela famosa e exagerada frase que diz:

O bater das asas de uma borboleta pode mudar os rumos do mundo e causar um furacão.


Só que no caso dele isso seria literal. Não com borboletas literais, mas literal.

Lorenz basicamente observou que modificações pequenas nos valores e pequenos arredondamentos nas medições de seu algoritmo horrível levavam à mudanças grandes ao longo do tempo. E as mudanças grandes ao longo do tempo levavam à mudanças ainda maiores no futuro distante. Mudanças tão grandes que não seria possível aferir de onde vieram, já que os valores eram totalmente divergentes dos medidos por sua maquineta imprecisa.

E como ele era um matemático e não um engenheiro, bom, ele só escreveu um trabalho sobre isso e continuamos a medir clima no chute.

Isso é apenas uma piada, calma. A teoria do caos é uma das mais importantes teorias da nossa era. É inclusive uma pena que tenha sido inspiração pra coisas tão nefastas como os filmes Efeito Borboleta, Efeito Borboleta 2 e Efeito Borboleta 3.


E bom, onde essa teoria se aplica?


Eu li o texto da Lise, achei engraçado e compartilhei no Twitter. Enquanto ia pra geladeira pegar mais uma cerveja lembrei desse dia do hambúrguer e decidi escrever meu próprio texto. Eu o escrevi enquanto bebia a cerveja e bom, agora você o está lendo. E daqui pra frente uma cadeia de eventos pode ou não pode acontecer, não importa, tudo foi lançado ao caos.

Por conta do número de vezes que eu escrevi \”cerveja\” você pode querer uma e ir comprar uma, e aí pode esbarrar no amor da sua vida, ou no seu inimigo mortal, ou só esmagar 12 formigas pelo caminho. Não importa. É o efeito do caos agindo, e essa é a graça. Tudo e nada pode acontecer. E é impossível quantificar isso. No pior dos casos o caos gerou esse texto. E já tá bom. Não que seja bom, mas está bom.


Fique com esse potinho de caos aí pra si.

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