Fome de Memórias

Como Vai Seu Paladar Hoje?

Esse negócio de Newsletter é mesmo viciante. Cá estou eu no servidor de um cliente num processo lentíssimo de indexar alguns milhões de arquivos e encontrar malwares neles e me deparo com a ideia de que poderia aproveitar esse tempo para escrever algo.

Imediatamente me vieram à mente 3 ideias completamente desconexas. Foi como pensar em óleo, catapultas e biscoitos de chocolate. O tipo de coisa que não da pra conectar nem se você for muito maluco. Na verdade nem se você for são também. Mas bom, eu gosto de desafios. E como remover malwares é entediante, vou aceitar esse.


Memórias Perdidas

Em 2008 eu estava no meu segundo ano naquela escola para cegos que já comentei anteriormente. As coisas iam melhor, eu já tinha alguns amiguinhos, até ousava fingir ser feliz. Era como a vida perfeita que alguém extremamente patético desejaria.

Um dia, em algum momento lá de outubro, convidaram nossa escola pra participar de uma festa de alguma coisa de fim de ano em algum lugar que não lembro mais onde era. Uma dessas comemorações que sempre tem e que todo mundo ou vai pela comida ou pra pegar alguém. E bom, eu só tinha 14 anos mas já estava cansado demais pros dois.

Acabei indo por livre e espontâneo convencimento dos meus colegas, que disseram já ter ido no tal evento em versões anteriores e afirmavam todos os bons momentos que lá tiveram.

O problema é que mesmo eles se desconvenceram quando já estávamos lá. O lugar era lotado, as comidas quentes chegavam frias e as frias chegavam quentes. E pra piorar, colocaram um coitado de um mágico pra fazer show pra adolescentes cegos.
sério, consigo pensar em bem pouca coisa menos adequada que isso.

Depois de 4 horas de muita tortura, pouca comida e bastante barulho de pessoas malucas empolgadas ou mais malucas ainda fingindo empolgação veio o que eu menos esperava.

Cada um de nós recebeu um pacotaço contendo presentes. Nos pediram pra abrir somente em casa e, como bons adolescentes, descumprimos de imediato as ordens.
Dentro vinham 2 pares de meias (Que não caberiam nem no Jonas de 10 anos), 2 pares de cuecas (Que não caberiam nem no Jonas de 5 anos), uma camiseta você já¡ sabe) e alguns outros saquinhos menores Ssaí­ descontente com meus 1,75 de altura de perto dos meus contentes amigos de estatura proporções s normais que se refestelavam com os presentes que provavelmente lhes caberiam. Nem liguei pros outros pacotes menores.

Já no caminho pra casa, dentro de um ônibus lotado (O saudoso Expresso Leste) e com o ânimo de alguém que havia acabado de viver o que julgava ser o pior dia da vida, decido rechecar o fundo do pacote. Mero impulso do tédio. Lá acho 4 sabonetes, 2 cremes hidratantes, 2 pacotes de salgadinho e alguns docinhos.

Eu já nem tinha fome, ou vontade de comer, ou impulso alimentar qualquer. Mas por tédio decidi abrir o tal salgadinho.

Qual não foi minha surpresa quando daquele pacote subiu um cheiro doce, um leve cheirinho de doce de leite com toque de canela.

Imaginei que finalmente estava louco, era ali meu fim, quando desse por mim eu estaria no fundo de um rio bebendo água pelos pulmões ou em queda livre de algum prédio, já perto do chão o suficiente pra sentir a pancada antes mesmo dela ocorrer. Decido então encarar o tecido da realidade que se esfacelava em minha frente e colocar uma unidade daqueles simulácros de ficção em minha boca. Eram crocantes, a forma lembrava um salgadinho qualquer, mas espera, eles eram doces. Tinham um sabor familiar, quase comum. Eram reais o suficiente para parecerem mentira. Eles eram, bom, de churros.

Sim, eram salgadinhos de churros. Ou alguma coisa parecida com isso. Algo que imitava isso. Algo assim. Tinham o míimo toque salgado da massa do churros, mas o resto era churros. E eram incríveis. comi um por um, unidade por unidade. Num movimento constante enfiei a mão novamente no pacote de presentes, tomei posse do outro salgadinho e continuei comendo. Num fluxo de esticar a mão esquerda, colocá-la dentro do pacote, tirar uma única unidade do salgadinho de churros, comer, e por fim questionar tudo o que havia vivido e tudo o que haveria de viver dali pra frente. Uma mordida, um questionamento, uma incredulidade. Tamanho foi o meu transe que nem notei que já havia muito passado da estação onde deveria descer pra pegar o metrô. Fui desperto do meu transe pelo motorista do ônibus, que me solicitou que descesse porque ele faria a volta pra retornar às outras estações.

De forma quase automática desci da composição. A plataforma estava vazia, quem veio no mesmo ônibus que eu já havia descido à uns 40 segundos e estava longe. E de todo modo não descia muita gente lá. Fiquei então em pé na plataforma observando o ônibus ir embora e pensando no que acabara de ocorrer.

Sim, eu havia comido salgadinhos de churros. E eles eram incríveis.

De algum modo aqueles salgadinhos me fizeram esquecer as horas chatas na festa, as mágicas patéticas do coitado, as explicações ainda mais patéticas das coordenadoras que tentavam justificar as mágicas e descrever mágicas para adolescentes cegos que não estavam preocupados com elas. Esqueci até mesmo dos cachorros quentes frios e sem molho, dos pâes com carne louca que só tinham molho, dos refrigerantes de uva quentes. E bom, é difícil esquecer um refrigerante de uva quente.

Eu só pensava em salgadinhos de churros.

Sei lá quanto tempo depois de descer do Ônibus voltei à  mim e ao papel de ridículo que estava passando ali. Quem me via me tomaria por maluco. O outro ônibus já chegava na plataforma e, bom, isso significava que eu tinha ficado ali pelo menos uns 2 minutos. Eu tinha que fazer algo. Mas a única coisa que fiz foi colocar novamente a mão dentro do pacotaço de presentes em busca de mais. Eu queria mais. Eu precisava de mais. Mas não havia mais.

E pior, em algum reflexo maluco joguei os pacotes dos salgadinhos que já tinha comido no lixinho de porta do Ônibus do qual desci. Ou seja, eu não tinha mais prova alguma de que sequer eles haviam existido. Só um leve perfume que se fixou em minhas mãos e um mínimo sabor que permeava minha saliva. E eu precisava de mais.

Fui correndo pra casa pra tentar a partir do computador descobrir algo. Mas o ano era 2007, a internet não tinha nada a dizer, só uns salgadinhos importados que custavam quase o valor todo daquele pacote de presentes. Nada fazia sentido. Simplesmente não existiam registros de quaisquer salgadinhos de churros.

Questionei meus amigos no dia seguinte, nenhum deles sabia o nome do tal salgadinho, a maioria nem comeu, acabaram dando pra alguém. Implorei à vários deles por mais uma unidade daquele sabor, mas bom, eles distribuíram em casa e quem levou pra escola deu pra outras pessoas.

No fim das contas ficou um desejo que a 15 anos não passa disso. Um mero devaneio de talvez uma possível realidade. Pesquisas no Google, buscas em fóruns, nada. Simplesmente não consigo mais aquele sabor divino.

Estarei eu louco?


Catapultas em Miniatura

Houve uma época em que meu avô vinha me visitar todo sábado. Ele morava a uma hora e meia de mim e 2 trens, mas mesmo assim, ele sempre chegava as 6 da manhã. Sempre animado, sempre disposto a exibir alguma de suas habilidades. Um dia, mostrei pra ele um estilingue que o pai de um amigo tinha me dado. E óbvio, ele entendeu aquilo como sinal de competição.

2 Minutos depois ele estava com um facão na mão olhando pro quintal. 5 ou 6 facadas numa goiabeira e ele tinha um triângulo perfeito nas mãos. Ele então foi até uma roda de bicicleta velha, abriu o pneu, cortou um pedaço da câmara de ar, cortou outro. 4 nós, alguns movimentos e ele tinha um estilingue nas mãos. Como se fosse fácil, comum, como se qualquer um dominasse uma arte tão simples como aquela.

Pegou uma pedra do chão, fez mira, atirou. A pedra foi muito, muito longe. Ainda consegui ouvir ela acertar o muro de uma casa do outro lado da rua. E ele nem fez força.

Ele então andou na minha direção e me entregou aquela maravilha da engenharia familiar. E me disse pra usar aquele, porque aquele era melhor que o do pai do amigo. E se alguém me perguntasse, era pra dizer que “foi meu avô quem fez.


Durante boa parte da minha infância não tive contato com meu avô. Ele brigou com minha mãe quando eu tinha uns 3 anos e só se reaproximou 4 anos depois. Viveu comigo mais 2 anos e então se foi. E nesses 2 anos ele foi o pai que jamais tive.

Hoje sei de tudo o que meu avô foi e fez. E bom, ele não era nada perto de perfeito. Ainda assim, quando lembro de algum momento com ele sinto que ele tinha algo de especial, algo de diferente. Algo que mesmo eu talvez nunca tenha e nunca mais encontrarei em ninguém. Ele parecia saber de algo, ter algum conhecimento diferente, alguma noção que só vem para avôs. Algum segredo que só é compartilhado de avô para avô. E eu infelizmente não convivi com ele o suficiente pra sequer poder especular o que seria.

Agora que sou padrinho de uma criança de 6 meses, quem sabe se eu durar o suficiente.


Um Wafer de Avelã

Quando criança era muito raro que eu ficasse doente. Na época, os adultos que conviviam comigo atribuíam isso ao fato de eu comer muito. Bem, mal sabiam eles o que viria depois.

A questão é que quando a coisa ficava séria é porque ficava séria.

E aos 7 anos a coisa ficou bem séria. Contraí uma gripe que em questão de dias evoluiu para um princípio de pneumonia. “Coisa boba.”

O tratamento foram 16 injeções de garamicina, aplicadas duas vezes ao dia. Uma em cada lado da bunda.

No quinto dia eu já estava destruído. Mal conseguia andar. E na época eu estudava bem longe de casa, então a rotina envolvia ir até o posto, tomar a injeção, pegar trem \”Quase sempre em pé\”, ir até a escola, estudar, voltar no trem \”em pé\”, passar no posto, tomar a injeção da volta e aí ir pra casa. Nada fácil, né;




Tamanho foi meu sofrimento que fez até minha mãe se compadecer. E aí no sétimo dia de aplicação ela me fez a seguinte oferta:

Se você tomar as duas de hoje e as duas de amanhã eu te levo pra comer na fábrica de salgados e te compro 2 Wafers.



A fábrica de salgados era um lugar gigantesco que tinha um risole que pesava uns 400 gramas. Esse risole ou qualquer outro salgado acompanhado de um suco custava 2 reais. E das poucas vezes que minha mãe me levou lá envolvia algum tipo de sofrimento. Mesmo assim, eu adorava aquele lugar.

E bom, os wafers. Minha mãe recebia uma cesta do hospital onde ela trabalhava, e eles sempre mandavam Wafers. Como eu gostava muito dos de avelã, aprendi a identificar a embalagem pelas cores e roubava só eles da caixa \”normalmente vinha um de cada sabor\”. Como eu não sou muito fã de bolachas recheadas, eu só comia os Wafers de Avelã.

Minha mãe não era e nunca foi de ser muito gentil comigo. Mas aquela promessa me venceu. E assim eu fiz.

Demorou um pouco pra ela cumprir a promessa, umas duas semanas. Mas um dia, num sábado, ela me levou pra nadar na barragem do Cantareira “Algo que era relativamente comum pra quem morava lá perto”, e depois me levou pra fábrica de salgados. E por fim, no super-mercado, ganhei 2 wafers de chocolate com avelã, os melhores que existem.


A Coisa Mais Simples

Se lembram que eu prometi lá no começo do texto achar um fio que ligasse isso tudo?

Então:

Basicamente enquanto escrevia essas 3 histórias percebi que desde sempre sou marcado por pequenas e singelas coisas. Um salgadinho diferente num dia horrível, as habilidades incríveis do meu mítico avô, uma rara demonstração de carinho de uma fonte que deveria ser constante mas que era tão seca quanto o chão sob o sol.

Tudo isso foi real e ao mesmo tempo tudo isso parece distante, parte de outra vida, de outro momento.

Hoje mais cedo recebi uma foto da minha apadrinhada com a roupa de Bob Sponja que dei pra ela. Uma coisa boba que me deixou choroso o dia todo.

Alguns meses atrás eu não conseguiria ver nem os contornos da foto, hoje consegui até com pouca dificuldade ver o simbolozinho do siri cascudo. E poder ter esses momentos singelos me da uma alegria inigualável.

Tudo na minha vida é muito incerto, inseguro. Mas se há algo que eu gostaria é que um dia alguém tenha memórias singelas de mim, comigo, por mim. Não que eu esteja tentando me igualar ao salgadinho de churros, não se compara o mortal ao divino.

Ah! E se você souber qual é o salgadinho de churros, me manda o nome por favor. São 15 anos de saudades por matar.


Não contem nunca pra minha apadrinhada, mas ainda tenho numa gaveta o antigo estilingue que meu avô fez pra mim. Se um dia puder, dou ele pra ela digo que fui eu quem fez.

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