Coisas Que Nenhum Texto Explica

Mas Nem Por isso Eu Deixaria de tentar

A Newsletter de hoje foi parte de um processo esquisito em que escrevi e apaguei o mesmo texto 4 vezes.

Da primeira eu apaguei tudo por simplesmente achar que estava mal escrito e as ideias estavam mal concatenadas. Eu tenho lido muitas newsletters do pessoal do próprio Substack e de outras plataformas, e muitas dessas são de escritores, revisores, pessoas que lidam com texto de forma profissional. E bom, meu texto vai ter umas 20 vírgulas erradas e uns 12 erros gramaticais. Faz parte. Só não me convenci disso no primeiro estado.

Da segunda vez eu apaguei porque escrevi 20000 palavras. Não, não foram 20 mil caracteres. Foram 94 mil e alguns na verdade. Eu tinha muito a dizer. E como sempre faço na minha vida acabei falando demais. Prolixidade é uma coisa com a qual nunca soube lidar direito, mas sempre tentei. E na segunda versão do texto eu não estava lidando.

E a última versão apaguei por mero preciosismo. Coisa de quem se gera cobrança desnecessária.
Eu não sou um escritor profissional, nunca fui bom nem enquanto amador. Tenho que checar 3 vezes por dia quando usar cada variação dos porquês e mesmo assim erro mais do que acerto. E bom, eu também não sei não ser prolixo. É parte de mim, faz literalmente parte de como eu hajo na vida. E bom, essa introdução deixa isso bem claro.

Do alto do meu senso de superioridade e ao mesmo tempo da minha ultra baixa autoestima eu olhava pro texto e conseguia ao mesmo tempo achá-lo ruim e supor que conseguiria fazer melhor. É tão conflitante que nem refletindo pra essa introdução consigo entender.

Então decidi que pelo menos essa edição eu iria simplesmente deixar as palavras escaparem, dar uma formatada, corrigir meia dúzia de erros e clicar no botão publicar. Se ficar ruim peço desculpas, se ficar bom não me conte. É capaz deu pensar que ainda faria melhor.


Representatividade Que Importa Muito

Recentemente a Disney fez o anúncio de uma nova filmagem em live action de A Pequena Sereia. A grande mudança dessa versão é que a personagem da sereia será interpretada por uma mulher negra. Uma mudança direta que não afeta em nada a história da personagem, os objetivos, a trama, simplesmente não muda. Apenas adapta a personagem à um novo público, cria empatia, e claro, rompe exteriótipos milenares.

Só que na internet nada é tão simples e, bom, choveram reações negativas de todas as formas. Adultos formados raivosos estão enchendo o trailer com deslikes e comentários racistas. E claro, adultos que são pais e mães tem influência no pensamento dos filhos. E isso gera filhos raivosos e racistas. E eles também estão lá com suas interações raivosas e racistas.

Mas eu nem quero focar nisso aqui.

Se ainda há uma beleza na internet é que nela há espaço pra tudo, inclusive pra coisas boas. E chegou até mim no começo da semana esse Vídeo aqui.

Tire 2 minutinhos, veja o vídeo completo, continue depois.

Agora que você viu o vídeo, deixa eu te contar uma história.


Conheci meu melhor amigo em 1997. Estava saindo de casa pra comprar cigarro pra minha mãe em um bar que ficava do lado de casa. Eu sempre ia porque ganhava o troco, e com o troco comprava salgadinho e balas de chiclete. Antes de entrar no bar, no entanto, um menino que brincava num monte de areia do lado oposto ao bar me chamou com um \”psil\”. Fui ver o que ele queria e basicamente era um convite pra brincar com ele. Respondi que sim, mas expliquei o que precisaria fazer. Fui no bar, comprei o cigarro da minha mãe, peguei um salgadinho de 40 centavos e 25 centavos em balas de chiclete (7 balas). Passei correndo por ele, joguei duas balas e 2 ou 3 minutos depois lá estava eu brincando com ele.
Eu tinha 2 caminhõesinhos com caçamba que eram feitos com o mais vagabundo dos plásticos, ele tinha um tratorzaço maneiro de plástico bruto e algumas pás e escavadeiras de brinquedo. E naquele monte de areia e pedra jogados na calçada \”típico de periferias com casas em obra\” nós nos conhecemos e nos tornamos amigos, e depois mais amigos, e depois muito amigos. Até que algumas horas depois de brincarmos ele viu meu olho e me perguntou o que havia de errado comigo. Como eu não tinha sido ensinado que ser cego era errado eu simplesmente disse que nada. E então ele entendeu e aceitou. Dali pra frente a cada período de tempo ele fazia alguma brincadeira que envolvia primeiro meu olho direito (O que não enxerga nada e depois o olho esquerdo (o que enxerga). E aí eu expliquei pra ele sobre a minha cegueira, mas da forma que uma criança de 4 anos sabe explicar. E se uma criança de 4 anos não sabe explicar, outra que é só 3 meses mais velha também não poderia entender. Mas depois daquele dia ele nunca mais me perguntou, deixou de ser importante pra ele. Ele me aceitou como diferente e foi isso.



4 anos depois nós nos reunimos um dia na casa dele pra assistir Dragon Ball. O desenho só passava na Bandeirantes, e em casa não pegava o sinal da emissora. Então mesmo que a tv de casa fosse maior, fomos pra dele porque lá tinha o sinal. Era o meio da saga Z, meio da trama de Majin Boo. Goku havia acabado de se transformar em Super Saiyajin 3 \”Pois é\” e nós sentíamos que não dava pra perder nenhum episódio.

Então em silêncio nos sentamos, dispomos de um salgadinho à granel (que a avó dele comprava sacos de kilos para venda e nos dava quase metade) e apreciamos o episódio 249.

Não tem como eu explicar toda a trama da coisa, então vou resumir só o episódio com os detalhes importantes:

Majin Boo, um ser antigo que foi invocado por um mago maligno havia acabado de explodir o próprio mestre que o invocou. Embora o desenho explique que Majin Boo era um demônio, á aquele ponto ele era só um ser manipulado e inocente que não tinha muitos tratos com humanos. Ele então começa a tentar replicar comportamentos da humanidade e vai atrás de um lugar onde pudesse construir sua casa. Enquanto ele sai por aí voando e procurando um cantinho em uma montanha encavada, acaba vendo um garoto andando sozinho na beira de uma estrada. Ele se aproxima do garoto, que diferente das outras pessoas com quem ele já lidou não sai correndo ou se treme nem mesmo esboça reação. Surpreso com a diferença, ele questiona se o menino vai fugir ou tem medo dele, ao passo que recebe uma negativa como resposta. O garoto então explica que ele é cego, que tem uma doença nos olhos e por isso não pode vê-lo. Majin Boo então cura o garoto com um de seus poderes e novamente, ao invés de fugir o menino começa a agradecê-lo e deixar bem claro que não o teme, mas sim que lhe é grato e lhe considera digno. E daí pra frente o episódio se desenrola.

Você pode assistir a cena toda aqui, caso queira. A cena toda começa em 16 minutos e 49 segundos


O episódio terminou sem que meu amigo dissesse nada. Ele sabia que eu mais ouvia do que via, então sempre teve esse cuidado. Quando a música dos créditos começou é que ele teve coragem de perguntar o que queria.

  • \”Você é igual esse menino né?\”

Eu respondi que sim:

E ele me devolveu

  • \”Então pra que ele quis voltar à enxergar? Você eu já acho que não precisa, ele também não.\”.

Eu não tive boa resposta. Sempre disse pras pessoas que não fazia questão de enxergar, muito em parte pra não dizer que algo impossível me faz falta, mas muito também por comodidade ou readaptação. Então terminamos o saco de salgadinho e fomos novamente brincar. E nunca mais houveram questionamentos sobre isso.

Acabava aos 9 anos uma conversa que começamos aos 4. E ele finalmente entendeu como era pra mim ser cego.


Anderson ainda é meu melhor amigo. Com o tempo e com a vida ele foi se tornando mais fechado com o mundo, um pouco distante até. Eu desconfio que ele tem questões psiquiátricas, mas não faço diagnóstico porque essa não é minha capacitação e ele jura que está tudo bem. Ao longo do tempo ele foi fazendo menos amigos, criando menos laços por onde passava. E ainda assim ele ainda é comigo como foi 24 anos atrás. Se estamos juntos em algum lugar novo, ele mesmo sabe quando deve me guiar ou não, quando deve me ajudar ou não. Diferente da maioria das pessoas que tem comportamentos capacitistas ele sabe que não precisa responder por mim e sempre joga pra que eu mesmo explique quando questionado sobre algo. Ele sempre fez um esforço pra se incluir nas minhas coisas sem que soasse obrigatório. Nas brincadeiras de criança nunca pegou leve. No futebol com golzinhos de chinelo na rua o único benefício que eu ganhava era ter um gol maior. E quando saímos na porrada nenhum dos dois pegou leve com o outro. Saímos igualmente machucados enquanto um vizinho nos jogava água com uma mangueira porque não queria briga na porta da casa dele.

Aos 7 anos enquanto eu aprendia braille ele também quis aprender. Até hoje ele sabe ler a maioria das letras e tira onda com isso.


Quando se diz que representatividade importa é um pouco também disso que se fala. É da representatividade pra si e para os outros. É não só de essas crianças negras se verem na personagem, mas também das amiguinhas delas verem na personagem algo que lhes lembre a amiga negra. É sobre a aceitação das duas partes, sobre o ponto em comum que é capaz de unir crianças e lhes explicar de forma simples algo que adultos formados tem tanta dificuldade em entender. É o que fará com que tantas crianças negras se aceitem no futuro e tantas crianças brancas sejam menos racistas, mais abertas ao convívio, mais integradas.

Fiz muitos amigos ao longo da vida, tenho carinho por cada um deles. Mas só um prestou atenção num episódio filler de um desenho que retratava de forma culturalmente tortuosa a cegueira. E ainda assim foi o suficiente pra explicar pra ele algo que talvez vocês que leem essa newsletter nunca consigam entender por completo.

E representatividade é sobre isso


VAI, CORINTHIANS

Minha relação com o futebol sempre foi curiosa. Até os 5 anos de idade eu torcia pro São Paulo porque gostava do atacante França. Nada em especial, apenas achava o nome FRANÇA legal mesmo, e era só.

Um dia na rua eu estava andando de bicicleta com outros amigos e no bar ao lado de casa se reuniam homens pra acompanhar o jogo e petiscar coisinhas. Em uma das minhas voltas pela rua um deles chamado Alexsandro me perguntou qual era meu time. Eu simplesmente disse \”Acho que São Paulo\”.

Ele então me pediu pra sentar numa cadeira, me estendeu uma bandejinha com salgadinhos e começou a contar sobre o Corinthians. Contou sobre a democracia Corinthiana, sobre como os ingressos eram baratos no Pacaembu, sobre como o time representava pessoas pobres como nós. E me disse que dali pra frente era pra eu sempre responder que era Corinthiano. Mandou o dono do bar descer outro saco de salgadinho só pra mim e me liberou.

Longe dali e de volta ao grupo de amigos eles me perguntaram o que Alexsandro queria. Expliquei a história e outro deles que era também São Paulino me disse \”Vira casaca\”. Eu só respondi que jamais mudaria de time por um salgadinho só, pra me comprar tinha que ser uns 5.

O dia seguiu normal como qualquer outro.

Alguns dias depois o tal Corinthians jogava contra o São Paulo de França. O bendito time virou no fim do jogo com o gol de um tal de Índio. A torcida gritava como nunca na minha velha TV de 14 polegadas. Mas nada da torcida do São Paulo. Nascia ali o Jonas Corinthiano, o Jonas que é até hoje.

Só entendi a tal explicação sobre a democracia Corinthiana e o valor de tudo aquilo que Alexsandro me explicou muito tempo depois de ele partir. Com ele aprendi a ouvir Racionais e rap em geral, pegar o pião girando na mão e a comer torcida com um toquezinho de limão. Infelizmente ele se foi antes de que eu tivesse idade pra dividir uma cerveja com ele num bar. Mas bom, hoje sou tão Corinthians quanto ele já foi.

Ao longo do tempo fui me tornando ainda mais Corinthians. Entendendo as ideias da torcida, do que ela representa, o alcance do futebol que por vezes vai onde nada mais chega. O valor da única porta pra quem portas jamais são abertas.

Horas antes de publicar essa newsletter eu estava socando paredes de alegria com a última vitória do Corinthians. No segundo gol eu simplesmente peguei 2 dos meus gatos que estavam na cama e fiquei os girando enquanto gritava \”GOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOL\”. Simples assim. É o efeito do futebol. E embora muita gente veja como besteira, bom, eu vejo como um esporte que celebra justamente isso. O legado, a simplicidade, o efeito pedra que cada pessoa tem nos rios individuais que formam cada um.

E você pode até continuar achando besteira. Mas bom, da uma lidinha Nisso aqui, depois me agradece ou me critica. Mas só depois.

VAI, CORINTHIANS

Vai uma Musiquinha AÍ?

Nessa edição quero lhes indicar algo novo e que combine com seu fim de semana. Então decidi pela obra de Ludovico Einaudi. Mas não pela obra dele em si, que reconheço eu ser um mestre da melancolia. Mas sim pela obra de Ludovico Einaudi com as interpretações de outro grande artista do mundo da música instrumental, Mercan Dede

Coloque seus melhores fones de ouvido, tire um tempo livre e ouça essa Playlist com a devida atenção e calma. Lhe garanto que vai valer a pena.


Até a próxima!

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