Coisas que julgava ter deixado pra trás mas que na verdade só vieram ocultas atrás de mim
Entender quem se é passa por um processo complexo de diferenciar o que se é do que se tenta ser. E esse texto surgiu como a parte final de um processo. A parte adormecida que ficou largada por 12 anos sendo movida de backups em backups. Um texto que abri por acaso e que só hoje entendo seu valor. E justamente por isso o publicarei abaixo com apenas algumas correções e apontamentos.
Eu não sabia quem eu era
2012
Cresci num ambiente extremamente inóspito. Segundo filho do segundo casamento de uma mãe solo e negra que nunca quis ser mãe, irmão mais novo de uma irmã racista e preconceituosa, abandonado pelo pai que se julgou bom demais para ter um filho deficiente e não exatamente branco como ele, mesmo que ele tenha optado por procriar com uma mulher negra \”Minha mãe\”.
Por conta disso nunca pude ser uma criança como as outras. Fui ensinado desde cedo que deveria ser forte, deveria ser imquebrável e deveria não ser eu. Demonstrar sentimentos era ruim, sentí-los era proíbido. Eu deveria vestir uma máscara e não tirá-la nunca, não importava lugar ou situação.
E assim desenvolvi um outro eu. Uma coisa que não era eu mas tinha de ser. Algo que fingia apenas o suficiente para não ser vista como tão diferente assim.
Eu não podia chorar, não podia ser fraco, não podia cansar. E se me sentisse triste, bom, que achasse um motivo para ser feliz. Se me sentisse cansado, bom, que fizesse mais um esforço e sem demonstrar esforço. Se me sentisse perdido, eu que me virasse pra me achar.
Entre os 2 e 6 anos, quase que mensalmente eu frequentava algum hospital ou qualquer coisa parecida na tentativa de curar minha cegueira. E numa delas ocorreu algo que exemplifica bem o que escrevi acima.
Nós havíamos ido ao Hospital Cema da Mooca para mais uma das consultas cansativas. Eu, minha mãe e minha irmã. Minha mãe reclamava da demora no atendimento e da necessidade de estar lá. Minha irmã protestava que gostaria de estar com as amigas de 16 anos dela e não com o \”Irmão ceguinho e mestisso\”. E sim, você não leu errado, foi exatamente isso que foi dito. E eu, bom, eu era um menino que estava a 4 dias de completar 5 anos e que apanhava por quase qualquer coisa. Então eu esperava quieto enquanto ouvia todas essas reclamações. Finalizada a consulta, era hora de voltarmos pra casa, que ficava a 40 Km e 14 estações de trem dali. Mas eu estava cansado demais. O hospital ficava a uns 900 metros da estação de trem, então eu pedi para minha mãe que nós não fôssemos de ônibus por que iria demorar e eu queria descansar logo, então quanto antes chegasse em casa melhor. E óbvio, tudo isso dito de modo que qualquer criança diria. Como resultado, ela disse que eu que fosse andando, porque ela e minha irmã ficaram em pé no hospital por mim e não queriam andar mais. E já que eu nãopodia protestar, reclamar e nem implorar \”Coisas que já havia sido ensinado que eram erradas\” eu simplesmente virei para o lado que eu me lembrava e saí andando.
E assim, às 20 horas de um dia qualquer eu era uma criança de 4 anos, cujo único olho que funcionava \”pouco\” havia sido dilatado à apenas algumas horas, andando em direção à estação da Mooca. E não, nem minha mãe nem minha irmã vieram atrás. Segundo elas eu precisaria daquela lição. No meio do caminho eu lembro de ter me sentido perdido, com medo e com frio. Mas eu cheguei sozinho.
E claro, ao chegar eu apanhei.
Levou muito tempo até eu entender o impacto disso tudo na minha vida. Foi só no período mais crítico da adolescência que escapei de mim mesmo. Como resultado, parei de ir à igreja na qual nunca acreditei, deixei de me vestir da forma que nunca gostei e passei a buscar tudo aquilo que me neguei durante a vida inteira. Me permiti faltar em aulas, conhecer coisas, experimentar coisas.
Mesmo assim ainda é difícil esquecer essa máscara. Esquecer as coisas nas quais me tornei tão bom. Esquecer o velho hábito de fingir.
Esse texto não é e nunca foi escrito com o objetivo de culpar ninguém. Todos são produtos do meio e das condições de vida. Minha mãe perdeu o primeiro marido que se matou por não conseguir se recuperar financeiramente de um roubo em sua loja. Filha de um pai igualmente avesso a carinho, duvido que ela sequer soubesse como proporcionar algum. E bem, meu pai a abandonou 2 anos depois de eu nascer com a desculpa de que eu talvez não fosse filho dele por não ser \”Branco como ele\”. Minha irmã, filha de um pai suícida o hidolatrava como todo bom mito. Por conta disso, viveu boa parte da infância ligada à família paterna, uma família rica de espanhóes que era extremamente racista, xenófoba e de onde ela tirou todos os preconceitos com os quais bombardiou à mim e minha mãe. E como minha mãe se sentia culpada em relação à ela, bem, nunca lhe corrigiu e nem deu a devida atenção à esse lado.
Eu, como fruto desse ambiente terrível também tenho meus problemas. Só que no meu caso eles só afetam a mim mesmo.
Vez ou outra tenho que me esforçar pra lembrar de sentir e fazer coisas que são comuns à outras pessoas. Vez ou outra tenho que entender como normais reações. Ainda não aprendi a aceitar elogios e ainda não sei dizer sim quando me ofertam algo. Mas são passos vagarosos e que acho que vão me tomar uma vida pra que sejam naturais.
E agora me pego escrevendo esse texto no meio de uma madrugada porque uma amiga lembrou de mim, me deu um presente e eu não consegui não parecer estranho na hora de agradecer. Nem sei se ela percebeu mas bem, eu percebi. E só espero que algum dia eu saiba lidar melhor com isso. Até lá, acho que esse é mais um dos textos que vai ficar jogado por aí ou vou acabar colocandolá no Tumblr mesmo.
Pra quê?
2022
Achei esse texto enquanto buscava uma outra coisa nos backups antigos. O nome não me dizia nada, então abri e li.
Infelizmente me soou mais familiar do que deveria. Bem distante, mas ainda familiar o suficiente pra que eu me reconheça em grande parte nele.
Só que eu não o publiquei só por isso, tem ainda mais.
55 dias atrás eu iniciava uma vaquinha pra arrecadar fundos pra pagar uma cirurgia da qual jamais esperava um dia precisar. Não que pessoas esperem precisar de cirurgias, mas bom, enfim.
Foi um processo bem doloroso abrir mão do meu orgulho e desse meu lado de tentar ser uma rocha pra pedir ajuda.
Um outro processo bem doloroso aceitar cada doação e tentar me sentir digno ou merecedor delas.
E um outro processo ainda mais confuso tentar agradecer as pessoas de modo sincero e honesto, deixando bem claro o quanto e como eu lhes era grato. Processo no qual ainda hoje tenho dúvidas se não falhei.
Graças a ajuda de todo mundo eu consegui o valor que precisava, fiz a cirurgia e embora não tenha sido tudo 100 %, foi mais do que 80 % dos médicos me disseram que seria. E se eu hoje posso brincar de corrida com meus gatos é graças à isso.
Entretanto ainda sinto que não agradeci as pessoas devidamente, e por conta disso criei uma lista com os nomes de cada um que colaborou ou simplesmente compartilhou a vaquinha. Obviamente a lista não tem todo mundo já que esse tipo de coisa foge ao controle,mas todo mundo que pude rastrear de alguma forma fui atrás.
Só que ficaram pelo caminho duas questões.
A primeira é relativa a um doador em específico.
Basicamente uma única pessoa doou 15 % do valor. De uma só vez. E bem, isso é um valor que não se da pra qualquer um. Quando identifiquei o valor fui atrás do nome pra entender quem era, se era algum conhecido, sei lá. E bem, não identifiquei o nome.
Só que hoje pela manhã reconheci o nome num tweet aleatório de alguém mais próximo à mim. E aí finalmente descobri o responsável. E agora não sei exatamente se deveria me aproximar, como deveria me aproximar e nem a forma de agradecer tamanha ajuda. Não só pelo valor, mas pelo comprometimento. Porque agora sabendo de quem se trata eu sei que foi um comprometimento maior do que é justo que fosse.
A segunda é ainda mais confusa.
9 anos atrás eu magoei muito uma pessoa. E com toda a justiça do mundo ela estaria correta se ainda nutrisse ódio por mim dado o que foi feito. Eu até tentei me desculpar e alguma reaproximação tempos depois, mas ela nunca quis, então eu julgava que de fato fosse o caso.
Mas bem, aparentemente não era, já que o nome dela apareceu também entre os doadores.
E muito embora uma doação não seja um perdão, a mente resultante da criação descrita ali no texto de 2010 não consegue entender esse tipo de atitude. Não há nada em mim que permita que eu compreenda tamanha bondade ou abnegação de mágoa. Eu não consigo ver e fazer lógica disso. Por mais que eu tente, simplesmente não da. E principalmente, ainda não da em relação à minha mãe e minha irmã.
Então como assim uma pessoa é capaz de ter uma atitude dessas comigo e eu não consigo com outra pessoa? Será que ainda me falta algo e eu não sei?
Tenho me questionado isso desde que vi o nome dela lá e ainda não achei qualquer resposta minimamente satisfatória. E quanto mais penso sobre isso mais dou voltas na minha própria mente. Se eu à questionar ela não vai responder, óbvio. E nem sei se qualquer resposta dela tornaria isso mais natural ou aceitável na minha mente. Mas é algo que tem tirado meu sono e que ainda não achei dentro de mim resposta minimamente aceitável que me ajude a pelo menos esquecer.
Eu só consigo me sentir ainda mais indigno, ainda menos merecedor, ainda mais distante da linha comum do que é ser alguém normal.
De repente parece que voltei 10 anos no tempo.
Esse texto também é uma forma de me desculpar com os amigos e pessoas que leem essa newsletter.
Sei que nem sempre sou tão próximo ou disponível como deveria. E sei que as vezes acabo forçando e sendo próximo e disponível demais. Ainda é um esforço pra mim e bem, o objetivo final disso tudo é que um dia não haja qualquer esforço e tudo seja automático.
Até lá, espero que possam me compreender e me aceitar.
E obrigado por tudo até aqui.
